Confira 7 tendências que estão redesenhando o consumo em 2026
Comportamento mais consciente, busca por conforto e valorização do humano redesenham prioridades e exigem novas estratégias de marca e conteúdo
Prever o futuro é, antes de tudo, entender as carências do presente. Todos os anos, grandes bureaus de estratégia como Euromonitor, Mintel, McKinsey e WGSN analisam o comportamento humano para decifrar o que desejaremos a seguir.
Se 2025 foi um ano de adaptação técnica às novas inteligências, 2026 consolida uma mudança mais profunda. Segundo os bureaus de tendência, estamos vivendo a Era da Intencionalidade.
Neste novo momento, o consumo deixou de ser uma reação impulsiva a um anúncio para se tornar uma escolha política, identitária e, acima de tudo, emocional. O que importa não é o que você vende, mas como sua marca se encaixa na economia de tempo e afeto do consumidor.
A seguir, aprofundamos as 7 macrotendências que estão reconfigurando os orçamentos de marketing e a gestão de marca neste ano:
1. A economia do conforto

Para a WGSN, “glimmers” são antídotos ao estresse crônico | Reprodução WGSN
Após anos de saturação digital, o consumidor desenvolveu o que a sociologia chama de “exaustão de tela”. Em resposta, as pessoas buscam refúgio em produtos e experiências que transmitam segurança e aconchego.
É o que a WGSN define como “glimmers”: micromomentos de alegria sensorial que funcionam como antídoto ao estresse crônico. O design em 2026 flerta com o lúdico e o emocional para quebrar a monotonia.
No marketing, isso significa a morte definitiva do “minimalismo bege”, dos gatilhos de estresse e da seriedade corporativa. As marcas que estão crescendo em 2026 são aquelas que injetam humor, cores vibrantes e um toque de surrealismo na comunicação.
Por que isso importa
Você vive de capturar e segurar a atenção do público. Em 2026, a atenção não será conquistada por estímulos cada vez mais agressivos, mas por pausas que ofereçam alívio real.
Isso deve impactar diretamente suas escolhas editoriais, criativas e de parcerias: a pauta que entrega conforto, a campanha que funciona como um abraço, o produto que vende bem-estar em vez de apenas performance.
Exemplo Prático
A moda decretou o fim da era neutra. Pela psicologia das cores, tons vibrantes elevam a serotonina e reduzem o cortisol, e é assim que marcas como Jacquemus e Loewe passaram a vender mood management, e não apenas roupa.
No luxo global, o minimalismo bege dá lugar a laranjas elétricos, rosas choque e azuis saturados. A Loewe levou às passarelas da Primavera/Verão 2026 uma explosão de cores primárias em looks monocromáticos; a Jacquemus apostou em tons vibrantes que evocam energia imediata.
Para o consumidor, vestir um blazer amarelo elétrico é escolher a alegria – mesmo quando o mundo insiste no cinza.
2. “Human-made” como diferencial competitivo

Illustrações de Linda Merad para a Hermès | Divulgação
Em reação ao tsunami de conteúdo gerado por IA, consumidores estão valorizando – e pagando mais – por trabalho criativo feito por humanos. A consultoria Lippincott prevê que o “made by humans” se tornará um badge de honra e driver de preço premium em 2026.
Um estudo publicado na Science Advances revelou que 82% dos profissionais de marketing já viram outputs de IA praticamente idênticos aos de concorrentes, o que significa que a automação, em vez de gerar diferenciação, está criando homogeneização criativa perigosa.
Por que isso importa
Se você trabalha com criação de conteúdo, branded content, copywriting ou qualquer formato que exija storytelling, a pressão agora não é produzir mais e mais rápido usando IA, mas sim mostrar que existe um ser humano pensante e falível por trás daquilo.
Marcas que conseguirem comunicar seu processo criativo, suas escolhas editoriais, seus erros e aprendizados vão construir conexões mais profundas do que aquelas que entregam conteúdo impecável, mas sem alma.
Exemplo prático
A Hermès entrou janeiro na tendência, com o site da coleção Craft, ilustrada 100% à mão pela artista francesa Linda Merad. Diferente dos sites polidos e instantâneos padrão, esse é propositalmente “lento” e “imperfeito”: animações desenhadas com lápis mostram texturas de papel e traços irregulares. A marca assumiu publicamente essa escolha contra a perfeição algorítmica da IA, posicionando o artesanato humano como o verdadeiro luxo em 2026.
Durante o Super Bowl 2026, anúncios criados com liderança humana (roteiros, direção e edição manual) receberam nota média de 2.7 estrelas da audiência, enquanto comerciais excessivamente dependentes de IA (geração automática de vídeo/áudio) ficaram em 2.1 estrelas. A diferença evidencia que consumidores percebem e preferem criatividade “feita por humanos”, mesmo em escala massiva de exposição.
3. Curadoria humana X fadiga do algoritmo
Na esteira da tendência “made by humans”, a Mintel indentificou outro ponto de ruptura, desta vez contra as recomendações rasas da IA. O consumidor de alta renda percebeu que o algoritmo o mantém em uma bolha de mesmice. É o que a Mintel chama de “anti-algoritmo”.
As pessoas estão deletando apps de recomendação automática e voltando a buscar curadorias humanas. O marketing de influência de massa, baseado apenas em alcance, perdeu valor para o marketing de autoridade. O público quer saber o que a especialista recomenda, não o que o robô sugeriu.
Por que isso importa
O foco do budget de mídia deve migrar de “anúncios em redes sociais” para “propriedades de curadoria”. Newsletters premium, podcasts de nicho e clubes de membros fechados são os novos terrenos férteis.
Dessa forma, sua curadoria pessoal vira ela mesma um produto. As marcas vão pagar pelo seu olhar, não pela sua capacidade de replicar o que já está nos Trending Topics. Pense: qual é o filtro que só você tem?
Exemplo prático
O Shopping Cidade Jardim investiu pesado em private shoppers humanos justamente porque entendeu que o cliente de luxo não quer ser mais um na esteira do algoritmo. Ele quer ser visto por alguém que entende de moda de verdade, não por um sistema que replica padrões.
No mundo literário, a Livraria Dois Pontos (que se fundiu recentemente com a TAG, ela própria um case de curadoria de sucesso) virou referência porque suas seleções são feitas por livreiros que realmente leem e têm gosto próprio, e isso virou experiência de venda. É o mesmo princípio que você pode aplicar na sua newsletter, no seu consultório de imagem ou na sua curadoria de marcas.
4. IA assistencial e invisível

A experiência do usuário é um fator decisivo para o sucesso do app da Renner | Reprodução
A Inteligência Artificial finalmente “sumiu”. Não porque deixou de existir, mas porque se tornou infraestrutura. Em 2026, não falamos mais sobre comandos complexos ou prompts mirabolantes, mas sobre agentes que antecipam necessidades de forma silenciosa e eficiente.
A Gartner define isso como “redução da carga cognitiva”: a IA funciona como um mordomo digital que toma decisões menores e repetitivas para que você possa dedicar energia ao que realmente importa, proporcionando mais tempo livre e clareza mental. Ferramentas que aparecem demais, exigem demais ou pedem aprovação a cada passo dificultam o dia a dia, em vez de facilitar rotinas.
Por que isso importa
A diferença entre profissionais que prosperam e as que se esgotam será a capacidade de identificar quais tarefas podem ser delegadas para sistemas inteligentes e quais exigem sua assinatura humana. A IA assistencial libera você da burocracia repetitiva (agendar reuniões, formatar relatórios, categorizar e-mails, fazer follow-ups) para que você possa investir em conversas estratégicas, decisões de impacto e criação original.
Isso significa escolher ferramentas que realmente automatizam fluxos completos, não apenas “facilitam um passo”. Questione: suas ferramentas estão realmente simplificando sua vida ou criando mais demandas? Se você ainda precisa checar, revisar e aprovar cada pequena ação da IA, ela não está sendo assistencial; está sendo mais um membro da equipe que precisa de supervisão.
Exemplo prático
A Renner já aplica IA preditiva integrada ao seu app desde 2024, antecipando necessidades reais dos clientes. O sistema cruza histórico de compras, clima local e eventos próximos para enviar sugestões sutis e contextualizadas – como vestidos leves quando prevê calor intenso em São Paulo.
No setor de beleza, a norte-americana Biossance é um bom case: sensores de pele conectados ao app ajustam recomendações de skincare automaticamente baseados no clima da sua cidade e em dados de estresse (rastreados via wearables). Se está um período seco e você dormiu mal nos últimos dias, o sistema sugere hidratantes mais potentes e produtos calmantes, sem que você precise diagnosticar nada.
5. Terceiros espaços e a reconexão física

Pátio central do clube Soho House São Paulo | Divulgação
O isolamento do home office gerou uma sede por comunidade que o escritório tradicional não supre. A WGSN aponta que, com a IA se integrando à vida diária, cresce a necessidade de um “porto seguro” para as conexões humanas reais. Em 2026, os “terceiros espaços” – locais que não são nem casa, nem trabalho – tornam-se os novos centros de networking e bem-estar.
Por que isso importa
Sua próxima oportunidade de trabalho, parceria ou pauta provavelmente não virá de um direct no Instagram, mas de uma conversa de verdade em um lugar onde pessoas interessantes se reúnem.
O networking voltou a ser presencial e de nicho. Estar fisicamente presente em hubs de conexão alinhados ao seu estilo é tão estratégico quanto qualquer planejamento de conteúdo. Identifique onde sua tribo se encontra e apareça. A economia da atenção migrou para a economia da presença.
Exemplo prático
O Soho House São Paulo — clube privado de membros voltado para profissionais criativos de áreas como cinema, moda, arte, mídia e design — consolidou-se não como um simples espaço de coworking, mas como um ecossistema onde negócios e lifestyle se fundem naturalmente. Com origem londrina e unidades espalhadas pelo mundo, o Soho House funciona como uma curadoria humana de pessoas: você não “compra” uma associação, você é aprovado (ou não) com base no seu perfil profissional e fit cultural.
Lá dentro, conversas de corredor viram parcerias, almoços viram oportunidades de trabalho, eventos noturnos viram lançamentos de projetos. É um espaço para que conexões aconteçam organicamente, sem o peso formal de um evento corporativo.
6. Biossuficiência e o “made in Brazil”

A coleção 2026 da Misci, tem como tema a personagem Tieta, de Jorge Amado; na foto, Seu Jorge e Laís Ribeiro | Divulgação/Hick Duarte
O conceito de sustentabilidade evoluiu para a regeneração. A New Hope Network – organização americana que produz pesquisas e eventos para os mercados de produtos sustentáveis – aponta que o consumidor de 2026 quer saber se o produto ajuda a curar o ecossistema, não apenas se “agride menos”.
Essa mesma tendência aparece em relatório da Euromonitor (dentro de “rewired wellness”), confirmando que a biossuficiência deixou de ser nicho para se tornar expectativa de mercado. Nesse cenário, o design brasileiro assume protagonismo no luxo global por sua riqueza de materiais nativos, conhecimento tradicional e tecnologia limpa.
Por que isso importa
Se você trabalha com moda, beleza, decoração ou lifestyle, o mercado global está de olho no Brasil de um jeito que não estava há décadas. Mas não no Brasil genérico: no Brasil autoral, com propósito e técnica.
Isso significa que apoiar, consumir e comunicar marcas nacionais de qualidade não é mais apenas “valorizar o local”, mas sim uma decisão estratégica de posicionamento. A profissional que entende isso se antecipa a um movimento que ainda vai explodir.
Exemplo prático
A Osklen não é novidade, mas segue como benchmark por rastrear cadeias inteiras, do couro de pirarucu à renda feita por comunidades tradicionais. A estilista Flávia Aranha levou o tingimento natural a um nível de sofisticação que dialoga com o luxo global sem perder a alma.
E a Misci prova que é possível transformar ícones do cotidiano brasileiro (um pé de moleque, um boné de time) em objetos de desejo aspiracional. Essas marcas não estão “fazendo sustentabilidade”; estão criando um novo imaginário de brasilidade. E é nesse imaginário que você pode se posicionar.
7. Elas nos esportes: de nicho para mainstream

A jogadora de basquete Sabrina Ionescu em ensaio para a a Nike | Reprodução Nike.com
O esporte feminino deixou de ser categoria de responsabilidade social para se tornar estratégia comercial de alto retorno. A receita global deve atingir US$ 2,35 bilhões em 2025, quase o triplo do registrado em 2022, segundo dados da Deloitte.
Mulheres representam 47% dos fãs de esportes femininos e controlam 74% das decisões de compra domésticas. Não é um nicho. É mainstream com poder de compra acima da média. E os patrocínios estão evoluindo: marcas não querem mais apenas estampar logo em camisa, querem parcerias integradas, criação de conteúdo conjunto, embaixadoras que falem com autenticidade para suas comunidades. O modelo mudou de “visibilidade passiva” para “construção de narrativa cultural”.
Por que isso importa
O setor oferece algo raro em 2026: uma categoria em crescimento exponencial que ainda tem espaço para early adopters. Marcas que investirem agora vão construir associação genuína antes que vire tendência óbvia e saturada. É também uma oportunidade de criar representatividade que vai além do discurso e realmente movimenta dinheiro, audiência engajada e narrativas culturalmente relevantes.
Para veículos de comunicação, há uma audiência ávida por cobertura de qualidade que ainda está subatendida. Para marcas, é a chance de aparecer sem competir com os orçamentos astronômicos do futebol masculino ou da NBA, construindo presença em um território onde autenticidade ainda vale mais que tamanho de budget.
Exemplo prático
A Nike entendeu isso primeiro. Em vez de tratar atletas mulheres como “versão feminina” de suas estrelas masculinas, a marca construiu narrativas próprias e poderosas, como mostra o contrato vitalício com a jogadora da WNBA Sabrina Ionescu. A marca criou toda uma linha de produtos codesenhada por Sabrina, campanhas que destacam sua história pessoal (não apenas suas estatísticas) e presença constante em conteúdo das redes sociais da marca. Resultado: Sabrina se tornou uma das atletas mais influentes da Gen Z, vendendo tênis em minutos após o lançamento.