E aí, mulher! Já ganhou sua florzinha hoje?
O 8 de Março não é dia de celebração, mas de luta — e os números mostram por quê
Provavelmente alguém já te desejou um feliz Dia da Mulher hoje. Já deve ter recebido uma florzinha, um chocolatinho ou uma “promo” imperdível de uma marca qualquer — e com eles, as mensagens piegas sobre a força e a resiliência da mulher guerreira.
Essa é a forma que o patriarcado encontrou de se apropriar da data: transformá-la em mais um negócio e em mais um mecanismo de apagamento das necessidades reais das mulheres.
O Dia Internacional da Mulher não nasceu como celebração. Nasceu em 8 de março de 1857, quando operárias têxteis de Nova York foram às ruas para exigir melhores condições de trabalho — e foram recebidas com repressão policial.
Nasceu da greve, da revolta e da recusa em aceitar o lugar que o mundo havia reservado para as mulheres. A data foi oficializada pela ONU em 1975. Mas a luta que a originou continua viva — e a cada dia mais necessária.
Quatro mulheres por dia
Só acredita que temos algo a celebrar quem vive em Nárnia, longe das notícias e dos boletins policiais.
Em 2024, o Brasil registrou 1.492 feminicídios — o maior número desde que a série histórica começou a ser monitorada, em 2015. Quatro mulheres assassinadas por dia, apenas pelo fato de serem mulheres.
Em 97% dos casos com autoria identificada, o agressor era homem. Em quase 80% das vezes, era o companheiro ou ex-companheiro da vítima. A maioria das vítimas era negra — 63,6% dos casos. A maioria foi assassinada dentro de casa, mas também valem conventos, escolas e até delegacia de polícia, locais que deveriam ser os mais seguros do mundo.
No mesmo ano, o Brasil bateu recorde de estupros: 87.545 casos registrados, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública — o equivalente a uma mulher estuprada a cada seis minutos. Houve crescimento de 19% nas tentativas de feminicídio, de 18,2% nos registros de stalking e de 6,3% na violência psicológica.
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A maioria dos assassinatos aconteceu dentro de casa. Mas os dados de 2026 nos lembram que não existe lugar verdadeiramente seguro: uma freira de 82 anos foi estuprada e morta dentro do convento onde vivia há 55 anos, no Paraná; uma adolescente de 17 anos foi vítima de estupro coletivo praticado por colegas de escola no Rio de Janeiro; uma menor foi abordada por policiais militares ao sair da escola no Mato Grosso e estuprada em seguida; e uma mulher foi estuprada repetidamente dentro de uma delegacia, pelo investigador responsável pelo seu caso, em Mato Grosso. O convento, a escola, a delegacia — lugares que deveriam ser os mais seguros do mundo.
Alguém tá vendo motivo pra comemorar?
Uma nova geração, a mesma cabeça
Se a violência física é o sintoma mais visível, existe uma crise paralela que se desenvolve em silêncio, e que ajuda a entender por que os números não caem.
A Geração Z, aquela que cresceu com internet na palma da mão, que tem acesso a mais informação do que qualquer geração anterior, está produzindo, nos homens, um retrocesso ideológico preocupante.
Uma pesquisa global do King’s College de Londres, realizada com 23 mil pessoas em diferentes países, revelou que 31% dos homens da Geração Z concordam que “a esposa deve obedecer o marido” — contra apenas 13% dos baby boomers, a geração que viveu os anos 50 e 60.
Um terço acha que o homem deve ter a palavra final nas decisões do casal. Cerca de um em cada quatro acredita que “uma mulher não deveria parecer independente demais ou autossuficiente”.
Paradoxalmente, 41% dos mesmos jovens dizem achar mulheres com carreiras de sucesso mais atraentes. Querem, ao mesmo tempo, uma companheira realizada e submissa — uma contradição que diz muito sobre onde estamos.
No Brasil, pesquisas confirmam a mesma tendência. Segundo estudo da Ipsos realizado em 2023, apesar de as novas gerações serem, em geral, mais progressistas em pautas como direitos LGBTQIA+ e justiça racial, quando o assunto é igualdade de gênero, os jovens homens repetem — e às vezes aprofundam — comportamentos machistas.
A explicação, segundo especialistas, passa pelas redes sociais. Os algoritmos funcionam como esteiras que entregam conteúdo cada vez mais radicalizado: jovens em busca de pertencimento e identidade encontram, nos fóruns, nos grupos de Discord, nos canais do YouTube, uma “machosfera” que oferece respostas simples (e cretinas) para angústias reais. A mensagem é sempre a mesma: a culpa dos seus problemas é das mulheres.
Mas algo mudou — e isso importa
É fácil ficar pessimista diante desse cenário de terra arrasada. Mas seria também desonesto ignorar os pequenos avanços. A sociedade se transformou, e essa transformação foi construída, tijolo a tijolo, pelos movimentos feministas.
Coletivos segmentados que atuam como redes de proteção e pressão: acolhendo vítimas que chegam sem saber por onde começar, oferecendo suporte jurídico e emocional, compartilhando informação sobre direitos, denunciando agressores com nome e sobrenome, pressionando empresas e legisladores, e simplesmente garantindo que nenhuma mulher precise enfrentar sozinha o que não deveria estar enfrentando de forma alguma.
São grupos que propõem pautas específicas sobre problemas concretos — e que forçam o debate a acontecer, mesmo quando o mundo preferiria mudar de assunto.
Foi o feminismo que deu nome ao feminicídio. Que garantiu a Lei Maria da Penha. Que colocou o assédio sexual nas pautas corporativas e nos códigos penais. Que popularizou o conceito de dupla jornada e de trabalho doméstico não remunerado. Que fez com que uma mulher de 30 anos hoje saiba, com palavras, o que as mulheres de gerações anteriores viviam sem conseguir nomear.
Nenhuma dessas conquistas caiu do céu. Todas tiveram um custo — de tempo, de energia, de segurança pessoal.
O que podemos fazer
O 8 de março não pede flores. Pede presença, ação, políticas e aliados — não apenas aliadas.
Para as mulheres:
A primeira coisa que ninguém te conta é que a violência raramente começa com um soco. Ela começa com o isolamento, o controle financeiro, a humilhação sistemática, os ciúmes apresentados como amor. Reconhecer esses padrões é o primeiro passo — e é mais difícil do que parece, especialmente quando o agressor é alguém de quem você gosta ou depende.
Se você está nessa situação — ou suspeita que está:
- Ligue 180. É gratuito, funciona 24 horas e registra a denúncia mesmo que você ainda não queira acionar a polícia. A ligação não precisa resultar em nada imediato: pode ser só para conversar e entender suas opções.
- Documente tudo o que puder. Prints de mensagens, fotos de machucados, registros de datas. Não para provar agora, mas para ter quando precisar.
- Fale com alguém de confiança. O isolamento é uma das armas mais eficazes do agressor. Uma amiga, uma familiar, uma colega — qualquer ponto de saída da bolha que ele construiu ao seu redor.
- Procure a Casa da Mulher Brasileira (presente em várias capitais) ou o Creas da sua cidade para atendimento especializado, apoio psicológico e orientação jurídica gratuitos.
- Conheça a Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006). Ela prevê medida protetiva de urgência, que pode ser solicitada na delegacia ou no Ministério Público. Você não precisa de advogado para isso.
E se você não está em situação de violência, mas conhece alguém que pode estar: pergunte. Diretamente. Sem julgamento.
Para os homens que se dizem aliados:
Dar florzinha e fazer post fofo nas redes sociais é fácil. Quero ver interromper o amigo que faz piada machista. Dividir as tarefas domésticas sem que ninguém precise pedir (uma, duas, vinte vezes). Ouvir, sem rebater, quando uma mulher fala sobre sua própria experiência de discriminação ou sobre um assunto que ela domina — aliás, sobre qualquer assunto. Questionar, ativamente, a “machosfera” que nos rodeia, na vida real e nos feeds.
Aliado não é título. É verbo.
Para todos:
Os dados sobre feminicídio são de fontes abertas. As pesquisas sobre a geração Z são publicadas. As histórias de violência estão nos noticiários toda semana. O problema não é falta de informação — é falta de urgência. É tratar estatística como abstração em vez de tratá-la como o que é: uma mulher. Uma mulher com nome, com família, com história interrompida.
Tecnologia que pode salvar vidas
Mas pra que denunciar, se a polícia não faz nada? A pergunta é legítima — e a raiva por trás dela também. Não faltam casos de mulheres assassinadas com medida protetiva ativa, inúmeros BOs registrados e denúncias em posts na redes sociais. E ainda assim, os agressores, mesmo com tornozeleira, não se intimidam.
O sistema falha, e falha com frequência. Por isso a novidade deste mês importa: o governo federal começa a substituir as tornozeleiras eletrônicas dos agressores por um novo modelo integrado a um dispositivo entregue à vítima — um aparelho simples, sem necessidade de smartphone, que vibra e emite sinal sonoro quando o agressor se aproxima.
A mudança, prevista na Lei 15.125/2025, que atualiza a Lei Maria da Penha, reconhece o que sempre foi óbvio: de nada adianta monitorar o agressor se a mulher não sabe que ele está chegando.
A luta que não cabe numa caixa de bombom
O 8 de março existe para lembrar que ainda não chegamos lá. Que enquanto quatro mulheres forem assassinadas por dia no Brasil, enquanto jovens aprenderem nas redes que igualdade de gênero é ameaça, enquanto medidas protetivas forem descumpridas sem consequência, a luta continua.
Ah, mas que mal pode fazer uma florzinha? Faz o seguinte: guarda ela pra quando essa conta estiver zerada. Por enquanto, a data pede mais, muito mais, do que uma flor murcha e uma mensagem de gosto duvidoso.
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