Homem também chora
Uma reflexão sobre como a ideia de que "homem não chora" molda comportamentos, afasta emoções e cobra um preço alto da saúde mental e dos relacionamentos
Durante anos, fui educado a acreditar que homem não chora e que demonstrar emoções era sinal de fraqueza. Neste texto, reflito sobre como essa crença afeta a saúde mental, os relacionamentos e a forma como lidamos com a dor. Compartilho experiências pessoais que me fizeram repensar o significado da força. Afinal, talvez a verdadeira coragem esteja em permitir que as emoções sejam vividas plenamente.
Crenças machistas
Alguns conceitos são cruéis, pois nos aprisionam a comportamentos sem o menor sentido. Eu não sou um chorão, mas muitas vezes me emociono na intimidade. Mesmo protegido em um ambiente seguro, como minha casa, se há alguém por perto, ainda me constranjo e rapidamente tento esconder.
Fui criado com a ideia de que homem não chora.
Não me lembro de alguém ter dito explicitamente que eu não poderia chorar, mas fui educado dentro de um sistema de crenças machistas que sustenta a superioridade do masculino e valoriza o controle e a não expressão dos sentimentos.
Já estive em diversos enterros ao longo da vida, alguns de amigos e familiares, sem derramar uma única lágrima. Passei muitos anos sem chorar e sem entender o que isso estava tirando de mim.
O preço do silêncio
Fico pensando no peso de tudo isso e em como este comportamento afeta nossa saúde mental. O choro é uma resposta natural do organismo a emoções intensas, como tristeza, frustração, medo, alívio e até alegria. Ele funciona como uma forma de processamento emocional.
Quando choramos, muitas pessoas relatam uma sensação posterior de alívio, organização dos pensamentos e redução da tensão. Entendo também que o choro é uma forma de entendermos nossos sentimentos. Sem essa manifestação emocional, deixamos de entender as emoções que nos afetam.
Lembro de uma difícil reunião familiar em que meu padrasto se rendeu ao clima tenso da discussão e chorou. Ao vê-lo naquela situação, parecia que estavam arrancando um pedaço do meu peito. Como filho zeloso, transformei a raiva em arma e agredi verbalmente minha irmã de forma muito violenta.
Cometi um erro enorme, provocado por esse padrão de masculinidade que confundia força com dureza. Em vez de chorar com meu padrasto e acolher sua dor, procurei preservar a sensação equivocada de que eu precisava ser forte.
Há algum tempo vivi uma experiência muito especial durante a apresentação de um estudo. Uma jovem profissional se emocionou, e aquilo levou outras pessoas na reunião a se emocionarem também. Me vi derramando uma lágrima junto. Naquele momento entendi que a emoção compartilhada não enfraqueceu ninguém. Pelo contrário, nos aproximou.
Gosto de alguns amigos que choram com facilidade e sempre avisam: “Cuidado, eu sou chorão”. Eles têm o privilégio de viver plenamente suas emoções.
A lição mais simples
Há um trecho da Bíblia que sempre me impressionou. Ele fala sobre Lázaro, que, pelo contexto, entendemos ser um dos amigos de Jesus. Lázaro morreu enquanto Jesus estava em viagem. Quando voltou, Marta, irmã de Lázaro, disse a ele: “Se estivesse aqui, meu irmão não teria morrido”.
Jesus pediu para ir até a tumba. Já fazia alguns dias que Lázaro havia falecido e, segundos antes de ressuscitá-lo diante de todos, nos deixou uma das maiores lições sobre emoção.
Ele sabia o que estava prestes a acontecer. Sabia que devolveria a vida ao amigo. Ainda assim, antes de realizar o milagre, o texto bíblico registra algo simples e poderoso: Jesus chorou.
Ele nos ensinou a importância de viver a plenitude de nossas emoções. De compreender que existem situações em que o choro é a melhor resposta que podemos dar.
Fico feliz por estarmos vivendo um tempo novo, com mais espaço para as emoções no dia a dia. Sei que esse cuidado ainda não existe em todos os escritórios. Ainda temos muito a melhorar, mas sou grato por algumas pequenas conquistas.
Hoje me envergonho de termos criado conceitos tão duros e sem sentido. Choro com muito mais facilidade do que antes e entendo que a verdadeira força nunca esteve em segurar o choro. A força está em permitir que ele aconteça.
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