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Uma conta invisível

Entre salário, cuidado e tempo, a independência financeira das mulheres também passa por aprender a planejar o próprio futuro

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Nunca vou esquecer uma pergunta que um chefe me fez há muitos anos.

Era um papo leve sobre a minha carreira. Avaliação de desempenho, próximos passos, salário. Até que, no meio do papo, ele perguntou:

–Cris, quanto dinheiro você tem guardado ? 

Lembro do silêncio. A verdade é que eu nunca tinha pensado naquilo.

Eu trabalhava muito. Pagava minhas contas. Planejava a próxima viagem, o mês seguinte, as férias. Mas nunca tinha parado para pensar em quem sustentaria a mulher que eu seria dali a trinta anos.

Saí da agência com uma sensação estranha. Não era vergonha. Era a impressão de que eu tinha aprendido a tocar a minha carreira e nada sobre como construir um patrimônio e ter minha independência.

Demorei para perceber que aquela história não era só minha.

Conversando com amigas, descobri que muitas de nós aprendemos a ganhar dinheiro antes de aprender a cuidar dele. Sabíamos negociar contratos, administrar os budgets dos clientes, mas quase nunca falávamos de dinheiro. Investimentos, aposentadoria, independência financeira… Era como se esse assunto estivesse reservado para outro momento da vida.

Foi aí que comecei a pensar numa conta que nunca aparecia nas planilhas.

A conta de ser mulher.

Ela começa cedo, junto com a adolescência. Absorventes, cuidados pessoais, roupas, cabelo e uma série de pequenas despesas passam a fazer parte da rotina. A gente simplesmente incorpora esses gastos à vida. Eu também nunca tinha parado para fazer essa conta.


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Depois vem outra. A conta do tempo. Essa, talvez, seja a mais cara de todas.

Lembro de uma pesquisa do Google que chamava de unpaid tasks aquelas tarefas invisíveis que mantêm uma casa funcionando. Tempo também é patrimônio. E nós passamos anos cuidando da casa, dos filhos, dos pais, da agenda da família e da logística de todo mundo. Quase sempre sem perceber que esse tempo também cobra juros.

Depois chega a conta da carreira.

Os números mostram que as mulheres ainda ganham menos, interrompem mais a trajetória profissional e dedicam muito mais horas ao trabalho de cuidado do que os homens. Não gosto de transformar isso numa disputa. Prefiro olhar para a matemática. Se você acumula menos renda ao longo da vida e dispõe de menos tempo para investir em si mesma, o patrimônio dificilmente será o mesmo.

Existe ainda uma última conta. Talvez a mais silenciosa de todas.

Nós vivemos mais. É uma excelente notícia, mas ela vem acompanhada de outra responsabilidade: financiar mais anos de vida, mais anos de saúde e mais anos de independência. E, em muitos casos, fazer isso sozinha.

Recentemente revi uma palestra da presidente da Islândia, Halla Tómasdóttir. Em determinado momento, ela diz uma frase que gosto muito: “O que vemos, podemos ser”.

Fiquei pensando que isso também vale para o dinheiro.

Durante muito tempo vimos homens falando sobre patrimônio, investimentos e liberdade financeira.

Talvez esteja na hora de mudar essa imagem. Temos que falar de dinheiro.

Brené Brown escreve que vulnerabilidade não é fraqueza. É coragem. Talvez exista uma coragem sobre a qual falamos pouco: a de admitir que nunca aprendemos, fazer perguntas que parecem básicas, abrir uma planilha, procurar orientação e começar. Não importa se isso acontece aos trinta, aos cinquenta ou aos sessenta.

Demorei para entender que independência financeira não nasce de uma aplicação bem escolhida.

Ela começa muito antes.

Começa quando entendemos que liberdade também precisa ser planejada.

E, olhando para trás, acho que meu chefe nunca me perguntou sobre investimentos.

Ele estava me perguntando sobre futuro.

Talvez essa também seja uma boa pergunta para todas nós.

Quanto da mulher que você espera encontrar daqui a vinte anos já está sendo construída pelas decisões que toma com o seu dinheiro hoje?

Se este texto fizer uma mulher abrir uma planilha, marcar um café com alguém que entenda do assunto ou simplesmente começar a pensar no futuro de um jeito diferente, aquela pergunta do meu chefe já terá rendido mais do que qualquer aplicação financeira.

Já esta na hora de o dinheiro começar a trabalhar um pouquinho por nós também.

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.

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Cris Heal

Executiva de negócios e comunicação com mais de 30 anos de experiência no mercado de publicidade, marketing e construção de marcas. Atualmente é sócia e Vice-Presidente de Produto, Clientes e Mercado da Batux Comunicação, agência especializada em promo , brand experience e live marketing. Cris trabalhou com grandes marcas nacionais e globais, liderando estratégias de crescimento, relacionamento com clientes e desenvolvimento de novos negócios. Também atua como Vice-Presidente de ESG da APP Brasil, contribuindo para o debate sobre liderança, sustentabilidade e transformação na indústria da comunicação.

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