Homens sofrem em silêncio
O isolamento, o enfraquecimento das amizades e a dificuldade de pedir ajuda ampliam os riscos para a saúde mental masculina
A cada ano, mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio no mundo. Os homens lideram as estatísticas mundiais: eles morrem cerca de duas vezes mais do que as mulheres. Para ser preciso, a taxa mundial foi de 12,3 mortes por 100 mil homens, contra 5,6 por 100 mil mulheres.
No Brasil, segundo levantamento do Ministério da Saúde, cerca de 80% das mortes por suicídio ocorrem entre homens. Para dar a dimensão dessa diferença, para cada mulher que morre por suicídio, há aproximadamente quatro homens.
No livro “O que é ser homem”, que já comentei aqui e que agora tem uma versão em português, Scott Galloway fala dos motivos que geram essa diferença de comportamento, com um volume maior de homens suicidas.
A tese de Scott é que os homens têm menos amigos. Ele se vale de estudos e pesquisas que mostram que o número de amigos por pessoa está diminuindo e que, entre os homens, isso é ainda mais sensível. Se somarmos a isso o fato de que estamos vivendo cada vez mais isolados e, muitas vezes, com relações intermediadas por aparelhos, fica cada vez mais difícil notar os sinais de uma crise.
É muito comum que um homem adulto substitua rapidamente o relacionamento com os amigos pela esposa e pelos filhos, um comportamento menos comum entre as mulheres. Com o fim de um relacionamento, em geral, esses homens acabam isolados em bolhas de solidão.
A terapia é uma das principais recomendações para lidar com essas questões, mas, novamente, temos uma dificuldade: grande parte dos homens não entende que precisa de ajuda.
Precisamos estimular os relacionamentos, os encontros. Hoje, precisamos de terceiros lugares. No passado, nossos lugares preferidos eram a casa, o primeiro lugar, e o trabalho, o segundo. A partir da flexibilização do trabalho presencial, passamos a perder convívio, e agora temos gerações que estão trocando o happy hour e a balada pelo conforto de suas casas.
O efeito disso é a redução dos relacionamentos. Entendo que precisamos ensinar alguns adultos a fazer amigos. Eles esqueceram a importância de ter pessoas por perto.
Tenho vivido, nos últimos anos, uma situação inusitada ao acompanhar dois amigos que se separaram e, como amigo, entendi que precisava ficar mais perto deles. Passei a ter encontros mais regulares e a enviar mensagens objetivas e diretas, como: “Você está bem? Como estão as coisas na casa nova?”
Precisamos estimular os homens a falar de seus problemas. Eles precisam falar de seus medos e de suas dores. Precisamos da ajuda dos amigos, mas as esposas e os filhos também podem ser grandes incentivos nesses momentos de solidão.
Num domingo à noite, passando das 22 horas, recebi uma mensagem de áudio de um conhecido. Eram dez minutos de gravação. Decidi ouvir naquele momento. Na mensagem, ele falava de uma ideia que tinha para um projeto envolvendo esporte. Como sabia que eu trabalhava com isso, queria minha opinião.
Sem nenhuma intimidade, decidi responder de forma objetiva: “Boa noite, vamos falar amanhã cedo e marcar uma conversa”.
Os dias se passaram, e ele não me ligou nem respondeu à mensagem. Infelizmente, algumas semanas depois, ele morreu por suicídio.
Não sofro com a culpa e não imagino que uma ligação minha teria evitado esse desfecho, mas o choque da situação me ensinou a ficar mais atento. Ele estava buscando contato com alguém com quem não tinha nenhuma intimidade nos últimos anos. Eu sabia que ele estava desempregado.
A partir desse episódio, se eu passar por isso novamente, serei mais ativo na resposta, quem sabe até ligando para a pessoa imediatamente ou entrando em contato com um amigo em comum ou alguém da família.
Vivemos uma epidemia de solidão e um crescimento preocupante dos transtornos relacionados à saúde mental. Se você está passando por isso, peça ajuda a um amigo e abra o jogo. Se você não tem nenhum amigo, procure o apoio de um psicólogo. Por favor, não sofra sozinho.
Onde buscar ajuda
Se você estiver passando por um momento difícil ou precisar conversar, o Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso, 24 horas por dia. Ligue para o 188. Em situações de emergência, procure uma unidade de saúde ou ligue para o Samu, no 192.
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