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Na vida de verdade, Rambo se dá mal no final

Individualismo pode até render bons personagens no cinema. Na vida profissional, são as conexões que ajudam a levar projetos e pessoas mais longe

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Foi saindo de um jogo do Corinthians, numa ocasião na qual o time, milagrosamente, havia vencido graças a decisões discutíveis do árbitro, que escutei a expressão pela primeira vez: “Melhor a mãe dele chorando que a minha”. Achei curiosa a maneira de terminar a discussão ética de forma definitiva: se a partida vai ser roubada, que seja a meu favor.

Aprendi a segunda frase num evento menos light. Apanhada aplicando aquela facada nas costas clássica, a pessoa deu de ombros: “Cada qual com o seu corre”. Entendi da seguinte maneira: eu faço o que eu preciso para dar conta da minha vida, e, se para isso eu precisar te atropelar, paciência – você também está se preocupando apenas com os seus interesses e me atropelaria se tivesse oportunidade.

Tenho a impressão de que essas expressões são uma radicalização de ideias antigas, tipo “farinha pouca, meu pirão primeiro”. A declaração clássica se refere a uma situação bem específica, de penúria extrema, em que alguma priorização tem que ser empregada. “Cada qual com o seu corre” aplica o vale-tudo a qualquer situação – aliás, a colega da facada nas costas não sofre de falta de farinha.

Não faz muito tempo eu percebi alguma coisa que talvez você já saiba faz tempo: tem um grupo importante de pessoas que encara a batalha do dia a dia como a guerra de todos contra todos. Para essa galera estamos sós numa selva e cada um de nós disputa um vale-tudo, de tanga e com uma faca entre os dentes – a sociedade dos Rambos.

A sociedade dos Rambos

Passei os últimos anos fazendo pesquisas em mais de uma centena de biografias de gente muito bem-sucedida, e uma das coisas que aprendi foi o seguinte: projetos radicalmente individualistas raramente dão certo.

Claro que é preciso ter foco no nosso corre: desenhar claramente o objetivo, entender os recursos para alcançar esse objetivo e ir atrás de maneira obstinada. Acontece que o recurso mais valioso nessa caminhada são pessoas. Pessoas que dão ideias, ensinam, dão puxão de orelha, apresentam oportunidades. E cada vez que nosso corre envolve atropelar alguém, não é só aquele indivíduo que nos cancela. Como Adam Grant lembra em “Dar e receber”, no nosso mundo altamente conectado a reputação se espalha rápido. Pessoas desonestas, desleais, traiçoeiras e que aplicam qualquer tipo de maquiavelismo descarado para fazer o seu corre vão ficando sujas numa rodinha aqui, outra ali e logo acabam canceladas.

Evitar um caminho totalmente individualista também não tem a ver com ser feito de trouxa. A gente precisa lutar, e muitas vezes a luta envolve conflito, então não estamos o tempo todo fazendo amigos. Mas não se engane: todo mundo sabe a diferença entre uma dividida dura, mas leal, e uma canelada maldosa – é essa que deixa ferida.

O gênio solitário

Se você sair por aí vai achar um ou outro que bate no peito pra dizer: “Nenhum filho da mãe nunca me ajudou”. Pode ser, existem, sim, percursos vitoriosos em que a ajuda externa foi pequena. Não encontrei dados para afastar essa hipótese, apesar de vira e mexe alguém descobrir que aquela conquista do gênio solitário não foi tão solitária assim.

Estou lembrando, por exemplo, do documentário “Hidden Heart” (Coração escondido). Aprendemos no filme que somente depois do final do Apartheid foi divulgado que a técnica de cirurgia de coração aplicada pelo médico Christiaan Barnard pela primeira vez na África do Sul, em 1967, teve grande contribuição de um homem negro chamado Hamilton Naki, jardineiro de profissão, que tinha treinamento cirúrgico apesar de não ser médico formado (depois comprovou-se que Naki não participou da cirurgia, mas seu papel nas pesquisas de Barnard foi decisivo, e ele recebeu um diploma de ciências médicas como reconhecimento).

Ou do império Disney, durante décadas tido como criação da imaginação de Walt Disney. Hoje sabemos que provavelmente nenhuma ideia teria saído do papel se não fosse seu irmão Roy Disney, administrador de altíssimo nível que criou as condições para que os personagens, os filmes, as empresas e os parques idealizados por Walt ganhassem vida.

De tanta gente

Dá pra fazer sozinho – até dá. Mas há um corpo muito consistente de estudos sobre a correlação entre vitória e interação, e eles são unânimes: isolamento gera desânimo e cansaço, enquanto quem tem boas conexões chega mais longe mais rápido, tem o respeito dos seus pares e é mais feliz na carreira. Talvez o apelo de personagens tipo Rambo seja esse: a fantasia da trajetória que se constrói sem a dependência dos outros, até contra os outros. No cinema pode funcionar, mas na vida de verdade a gente depende, sim, de “tanta, muita, diferente gente”, como dizia aquela música do Gonzaguinha. Nesse mundo de carne e osso, Rambo se dá mal no final.

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.

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Foto de Enor Paiano

Enor Paiano

Pioneiro da internet brasileira e experiente gestor de equipes de vendas, dirige a MidiaBizz, consultoria de RH focada no mercado de mídia.

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