O fim da escala 6×1 é uma pauta feminista – e eu posso provar

Enquanto empresas lançam programas de bem-estar e campanhas de empoderamento, uma estrutura silenciosa garante que determinadas mulheres nunca alcancem seu potencial

O debate sobre o fim da escala 6×1 tem sido conduzido como se fosse apenas uma questão de produtividade ou modernização do trabalho. Não é.

Quando milhões de mulheres passam a ter acesso a tempo — algo historicamente negado a elas —, o que está em jogo não é só o descanso sagrado, mas também autonomia, renda e possibilidade de crescimento. Tratar como uma pauta geral é confortável. Reconhecer que se trata de uma questão feminista é bem mais incômodo. E muito mais preciso.

Faça as contas: segundo o IBGE, a brasileira média trabalha 44 horas por semana na carteira assinada. Fora isso, dedica outras 21,3 horas semanais a tarefas domésticas e cuidado com filhos — quase o dobro dos homens (11,7). Agora some às 65 horas o tempo de deslocamento e de sono. A conta não fecha.

Para a economista Marilane Teixeira, pesquisadora das relações de trabalho e gênero e pós-doutora pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), esse é um ponto crucial da reforma, uma vez que “todo o trabalho doméstico e de cuidados ainda segue sob responsabilidade majoritariamente das mulheres”, como afirmou em entrevista à Fundação Perseu Abramo.

A escala 6×1 não é só uma jornada exaustiva. É o alicerce de uma desigualdade de gênero que o Brasil ainda finge não ver.

Quem são as mulheres que essa pauta esqueceu

Para entender quem são essas mulheres, os dados precisam de recorte. A escala 6×1 não afeta todas as brasileiras da mesma forma, e essa desigualdade dentro da desigualdade é parte do problema.

Segundo a PNAD Contínua, as trabalhadoras mais expostas a jornadas de seis dias semanais estão concentradas em quatro setores: saúde e cuidado pessoal, alimentação, limpeza e higiene e comércio varejista. Em todos eles, a maioria é feminina. Em três deles, a maioria é feminina e negra.

São as mesmas mulheres que aparecem com menor frequência nos programas de trainee, nas pesquisas sobre liderança feminina e nas listas de “mulheres inspiradoras” publicadas todo mês de março.


Leia mais

+ Como a liderança feminina impulsiona lucro, inovação e um ambiente de trabalho melhor

+ Google seduz o jornalismo brasileiro como europeus fizeram com tupiniquins


 

O teto de vidro começa antes do primeiro degrau

A conexão entre jornada e estagnação profissional não é intuitiva; ela é documentada. Uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), publicada em fevereiro de 2026, revelou que mais de 83% dos trabalhadores com até o ensino médio completo estão em jornadas superiores a 40 horas semanais — justamente o perfil predominante na escala 6×1.

Entre aqueles com ensino superior completo, a proporção cai para 53%. O dado escancara a armadilha: a jornada exaustiva impede a qualificação, e a baixa qualificação prende o trabalhador a jornadas exaustivas. Para as mulheres, o efeito é ainda mais perverso, já que o único dia de folga é consumido por tarefas domésticas e de cuidado.

Além disso, a maioria dos cursos técnicos e de graduação no Brasil ainda funciona em turnos que colapsam com escalas de fim de semana, e as plataformas de ensino online, apontadas como solução, exigem um bem escasso que a 6×1 confisca antes de qualquer outra coisa: tempo de concentração.

É aqui que o teto de vidro ganha uma camada que raramente aparece nas análises corporativas. O debate sobre sub-representação feminina na liderança costuma começar no meio da pirâmide: na gestora que não é promovida, na executiva que esbarra em vieses inconscientes. Mas a pirâmide tem uma base, e é nela que a seleção mais brutal acontece.

A trabalhadora que não consegue estudar não chega à seleção de trainee. A que não consegue descansar adoece antes da promoção. A que adoece e não tem tempo para se tratar volta ao trabalho ainda pior. O ciclo é silencioso e quase perfeito.

O corpo que paga a conta

Os números de saúde confirmam o que a lógica já indica. Pesquisa da Ipsos de 2025 mostra que 55% das mulheres brasileiras relatam sofrer de ansiedade — contra 34% dos homens — e 24% declaram ter depressão, ante 13% dos homens.

Entre as mulheres que acumulam trabalho formal e jornada de cuidado — e já vimos que são a maioria —, esses números sobem ainda mais. Não é falta de resiliência. É consequência calculada de uma estrutura que nunca foi desenhada para acomodar a vida real das mulheres.

A conta que o empregador finge não ver

O argumento mais comum contra a reforma — o de que reduziria a competitividade e aumentaria o custo para o empregador — ignora uma conta que raramente é feita do outro lado: o custo do esgotamento.

Em 2024, o Brasil registrou cerca de 472 mil afastamentos por transtornos mentais — o maior índice da última década, com crescimento de 68% em relação ao ano anterior. As mulheres responderam por 64% desses casos.

Para a economia como um todo, os afastamentos por doenças ocupacionais comprometem cerca de 4% do PIB ao ano — o equivalente a R$ 468 bilhões considerando o PIB de 2024. Uma consultoria que analisou mais de 150 mil trabalhadores estimou que os transtornos mentais custam às empresas, em média, 6% do total da folha de pagamento.

Absenteísmo, rotatividade, queda de produtividade, treinamento de substitutos: a conta da manutenção já é mais cara do que as empresas que resistem à reforma imaginam — e uma parte desproporcional dela está sendo paga pelas mulheres.

A economia invisível que sustenta tudo

Há uma dimensão dessa discussão que vai além do mercado de trabalho formal, e que talvez seja a mais transformadora de todas.

Chama-se economia do cuidado, e por muito tempo ficou fora dos modelos econômicos porque é difícil precificar o que nunca foi pago.

Segundo estudo do FGV IBRE, se o trabalho doméstico e de cuidado não remunerado fosse contabilizado, acrescentaria 13% ao PIB brasileiro — mais do que todo o setor agropecuário, que respondeu por 5,6% do PIB em 2024.

As mulheres contribuem com 65% dessas atividades, dedicando até 25 horas semanais a elas, contra cerca de 11 horas dos homens.

Quando uma mulher trabalha seis dias por semana e ainda assim é a principal responsável por cuidar dos filhos, dos pais idosos e da casa, ela está subsidiando, com seu próprio tempo e saúde, uma infraestrutura invisível sem a qual a economia formal simplesmente não funciona. Dar a ela um segundo dia de folga não é generosidade. É, no mínimo, o começo de um acerto de contas.

Mas, como ressalta Marilane Teixeira, da Unicamp, a redução da jornada precisa vir acompanhada de medidas estruturais que enfrentem a desigualdade na divisão do trabalho doméstico. “Se o número de horas que as mulheres dedicam ao trabalho doméstico e de cuidado é maior que o dos homens, então ter mais um dia livre não é exatamente o que a gente espera”, afirma.

Uma escolha política sobre quem merece ter tempo

A PEC que propõe o fim da escala 6×1 ainda enfrenta resistência no Congresso, pressão de setores organizados do varejo e da indústria e o argumento recorrente de que “o momento econômico não é favorável”.

Mas há outra forma de ler esse impasse: toda vez que uma reforma que beneficia desproporcionalmente mulheres negras, periféricas e da base da pirâmide encontra resistência organizada, o que está em jogo não é só uma questão de produtividade. É uma escolha política sobre quem merece ter tempo.


Danae Stephan

Ler Mais