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Como Leila Ferraz, da Agência Oribá, usa a expertise em comunicação no combate à pobreza menstrual

Diretora voluntária do Instituto GAS, jornalista criou uma frente que já distribuiu mais de 127 mil absorventes e 94 mil kits de higiene

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Leila Ferraz fez da comunicação uma ponte entre dois mundos. Como jornalista e sócia-diretora da Agência Oribá, trabalha com Relações Públicas, comunicação corporativa e reputação. No Instituto GAS – Grupo de Atitude Social, coloca esse conhecimento a serviço de pessoas em situação de vulnerabilidade.

Sua relação com a organização começou há oito anos, após um convite do amigo Leandro Giometti. Embora já tivesse proximidade com causas sociais, foi durante as ações do instituto que ela percebeu como poderia contribuir.

“Eu sempre tive uma ligação com causas sociais, mas de forma intuitiva, sem muita estrutura. Quando comecei a ir às ações do GAS, entendi melhor como a ONG funcionava, o que enfrentava e onde eu poderia contribuir de verdade”, conta.

Leila começou apoiando a assessoria de imprensa e, posteriormente, levou a iniciativa para os outros sócios da Oribá. A agência assumiu a comunicação do Instituto GAS, enquanto ela passou a atuar voluntariamente como diretora de Estratégia e Comunicação da organização.

“Comunicação precisa de constância para existir. Aquilo me tocou porque era justamente uma área em que eu podia ajudar de forma concreta”, explica.

Foi como voluntária, porém, que Leila criou o GAS ETS – Elas Também Sangram, frente do Instituto GAS dedicada ao combate à pobreza menstrual.

A casca do pão

A ideia surgiu depois de um encontro durante uma ação noturna. Leila ofereceu um lanche a uma jovem em situação de rua. A moça retirou o recheio, comeu e guardou a casca do pão. Quando questionada, explicou que estava menstruada e usaria aquela parte como absorvente.

“Na mesma hora, peguei os absorventes que tinha na bolsa e entreguei a ela. Foi como se uma ficha tivesse caído. Quando pensamos em pessoas em situação de rua, a primeira coisa que vem à mente é comida ou cobertor. Mas a mulher vulnerável vai menstruar podendo ou não comprar absorvente”, relembra.

A jovem se chamava Isadora. Leila nunca mais a encontrou durante as rondas, mas a história permaneceu com ela.

“Foi um misto de vergonha, por ser uma pessoa que menstrua e nunca ter pensado nisso, e de revolta por alguém passar por uma situação dessas. Posso dizer que ela foi a faísca do que hoje é o Elas Também Sangram.”

Depois daquele episódio, as ações do Instituto GAS passaram a incluir absorventes, kits de higiene e lenços umedecidos. Em 2020, o trabalho ganhou estrutura e se tornou uma frente permanente da organização.

Impacto nas ruas

Desde sua criação, o Elas Também Sangram distribuiu mais de 127 mil absorventes e 94 mil kits de higiene. Os conjuntos incluem pasta e escova de dentes, xampu, condicionador, lenços umedecidos, papel higiênico, pente e fraldas infantis e geriátricas.

O instituto não informou o número de mulheres únicas beneficiadas. Portanto, os dados medem os produtos distribuídos, não o total individual de pessoas alcançadas.

Atualmente, a frente atua em todas as regiões da capital paulista e chega a Osasco, Jandira, Carapicuíba, Itapevi e Barueri por meio do GAS Osasco. O trabalho também alcança dez favelas nos extremos leste e sul de São Paulo.

As mulheres atendidas enfrentam diferentes camadas de vulnerabilidade. Nas ruas, faltam água, banheiros, privacidade, roupas limpas e locais seguros para realizar a higiene. Nas comunidades, muitas chefiam suas famílias e precisam escolher quais necessidades conseguirão atender a cada mês.

“Elas precisam escolher entre absorventes, itens de higiene e outras necessidades básicas. Claro que o absorvente fica em segundo plano”, afirma Leila. “A esmagadora maioria dá conta de tudo sozinha, inclusive da criação dos filhos.”

Pobreza menstrual

A pobreza menstrual não se limita à falta de dinheiro para comprar absorventes. Também envolve ausência de saneamento, água, banheiros adequados, informação e condições seguras para cuidar do corpo.

O relatório “Pobreza Menstrual no Brasil: desigualdades e violações de direitos”, produzido pelo UNICEF e pelo Fundo de População das Nações Unidas, mostrou a dimensão do problema.

Segundo o estudo, 713 mil meninas brasileiras viviam sem acesso a banheiro ou chuveiro em casa. Mais de 4 milhões enfrentavam alguma privação de higiene menstrual nas escolas, enquanto quase 200 mil não dispunham de condições mínimas para cuidar da menstruação no ambiente escolar. Além disso, 116 mil dependiam de doações para conseguir absorventes.

Os dados são anteriores às principais políticas federais adotadas nos últimos anos e, por isso, não representam uma fotografia de 2026. Ainda assim, formam o diagnóstico nacional mais abrangente sobre o problema.

Em 2021, a Lei nº 14.214 instituiu o Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual. Já a distribuição gratuita de absorventes pelo Programa Dignidade Menstrual começou em 2024, por meio de estabelecimentos credenciados ao Farmácia Popular.

No primeiro ano, a iniciativa atendeu 2,1 milhões de pessoas em situação de vulnerabilidade e distribuiu 240,3 milhões de absorventes, segundo o Ministério da Saúde.

A política pública representou um avanço, mas a experiência nas ruas mostra que o acesso ao absorvente é apenas uma parte da solução. O problema também exige saneamento, acolhimento, informação e atendimento social.

“A situação foi a catalisadora para que a gente fosse atrás de políticas públicas. Foi um divisor de águas na minha vida e no GAS”, diz Leila.

Outra liderança

O voluntariado também mudou a atuação profissional de Leila. Segundo ela, o contato com pessoas em situação de vulnerabilidade trouxe um repertório que nenhum curso ou manual de liderança poderia oferecer.

“Quando você convive com realidades tão diferentes da sua, a maneira de enxergar prioridades muda. Isso atravessa a forma como lidero, tomo decisões e me relaciono com clientes, além de influenciar profundamente minha relação com as pessoas que trabalham comigo.”

A experiência tornou sua percepção sobre urgências, limites e contextos mais apurados. Além disso, trabalhar em uma organização com poucos recursos ampliou sua capacidade de encontrar soluções práticas e eficientes.

Para transitar entre uma reunião com clientes e uma ação nas ruas, Leila procura não romantizar a solidariedade.

“A solidariedade aplicada à justiça social é cansativa. Exige presença, abnegação, paciência e repetição. Às vezes, gera uma desesperança que eu não escondo de mim mesma.”

O equilíbrio está em reconhecer os próprios limites e entender que uma ação individual não resolve todas as desigualdades, mas pode aliviar parte de suas consequências.

“Reconhecer e comemorar o pouco que consigo fazer não é conformismo, é consciência. O que faço não resolve tudo, mas resolve alguma coisa. E isso importa.”

Para Leila, o voluntariado não deve colocar no centro quem ajuda. Seu significado está na responsabilidade coletiva diante de desigualdades que não surgiram por acaso.

“Não é sobre ajudar para ser ajudada. É sobre justiça social. É sobre mexer nas estruturas para que, algum dia, ninguém dependa da disposição de outra pessoa para viver dignamente.”

 

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Foto de Marina Paes

Marina Paes

Marina von Glehn Paes é jornalista especializada em publicidade, marketing, comunicação e inovação. Foi editora-chefe do portal Adnews, onde acompanhou os principais movimentos do mercado, tendências de consumo, mídia, criatividade e negócios. Ao longo de sua trajetória, dedica-se à cobertura do setor de comunicação, com entrevistas, análises e reportagens sobre marcas, agências, veículos, tecnologia e as transformações que impactam a indústria.

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