Laura Cardoso morre aos 98 anos; atriz desafiou etarismo dentro e fora das telas
Pioneira da televisão brasileira teve mais de oito décadas de carreira e, em seu primeiro comercial, subverteu o estereótipo da mulher idosa diante da tecnologia
Laura Cardoso morreu na noite desta segunda-feira (17), aos 98 anos, em São Paulo. Uma das pioneiras da televisão brasileira, a atriz construiu uma carreira de mais de oito décadas, iniciada ainda no rádio, com passagens pelo teatro, cinema e televisão.
Ao longo desse percurso, Laura também falou abertamente sobre o espaço das mulheres e dos profissionais mais velhos. Declarava-se feminista e criticava um mercado que reduzia as oportunidades à medida que seus artistas envelheciam.
A publicidade só entrou em sua trajetória muito mais tarde. Em 2018, às vésperas de completar 91 anos, Laura fez seu primeiro comercial, para o iFood — e justamente em um papel que contrariava um estereótipo recorrente sobre a velhice.
Estreia aos 90
Em setembro de 2018, Laura participou da série de filmes “Pra Qualquer Fome, Pede um iFood”, criada pela Suno United Creators. Em um dos comerciais, contracenava com Márcia Goldschmidt e interpretava uma avó que mostrava a dois jovens como fazer um pedido pelo aplicativo.
Durante a produção, a equipe descobriu que aquele era o primeiro filme publicitário da carreira da atriz. Bruno Andrade, então gerente de Publicidade do iFood, contou na época que a revelação os surpreendeu: depois de mais de 70 anos de profissão, Laura nunca havia participado de um comercial.
Fora do padrão
A escolha da atriz também rompia com uma representação frequente das pessoas mais velhas na publicidade. Sua idade não era escondida nem amenizada, e tampouco servia para colocá-la no papel de quem não conseguia acompanhar a tecnologia.
No filme, eram os mais jovens que ainda tentavam fazer o pedido de comida por telefone. A personagem de Laura conhecia o aplicativo e resolvia a situação.
A inversão ganhava outra camada por se tratar de uma mulher. Em uma indústria que historicamente associa a presença feminina à juventude, colocar uma atriz de 90 anos no centro da ação, sem transformá-la em figura frágil ou dependente, afastava-se de um padrão ainda recorrente na comunicação.
“Feminista desde menina”
A postura de Laura diante do machismo era mais antiga que sua passagem pela publicidade.
Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, em 13 de setembro de 1927, em São Paulo, ela começou a carreira aos 15 anos, fazendo radionovelas na Rádio Cosmos. Filha de imigrantes portugueses, enfrentou inicialmente a resistência dos pais à decisão de ser atriz. Em 1952, já estava na recém-inaugurada TV Tupi, onde participou do programa “Tribunal do Coração”.
Em entrevista à Veja, em 2017, definiu-se em poucas palavras: “Sou feminista desde menina”.
Na mesma conversa, afirmou que as mulheres ainda precisavam conquistar mais respeito e reconhecimento e criticou as poucas oportunidades oferecidas a atores mais velhos. Para Laura, quem ainda tivesse condições e vontade de trabalhar deveria continuar recebendo papéis.
Quando perguntada se pensava em parar, respondeu: “Só morrendo. Eu amo trabalhar”.
Oito décadas em cena
Depois da TV Tupi e de passagens por outras emissoras, Laura chegou à Globo em 1981, na novela “Brilhante”, de Gilberto Braga.
Vieram trabalhos como “Rainha da Sucata”, “Mulheres de Areia”, “A Viagem”, “Explode Coração”, “Chocolate com Pimenta”, “Caminho das Índias”, “Império”, “Sol Nascente” e “O Outro Lado do Paraíso”. Seu último papel em uma novela foi em “A Dona do Pedaço”, em 2019.
Veja os trabalhos de Laura Cardoso na Globo.
A atriz permaneceu próxima da televisão nos últimos anos. Em 2025, participou da tradicional vinheta de fim de ano da Globo. Durante a gravação, segundo relato do diretor Adriano Melo, fez questão de se levantar da cadeira para cantar de pé com os demais artistas.
Laura começou a trabalhar quando o rádio ainda ocupava o centro das salas brasileiras, acompanhou o nascimento e as transformações da televisão e permaneceu em atividade mesmo quando as oportunidades para artistas de sua geração se tornaram mais escassas.
Sua estreia na publicidade, já perto dos 91 anos, foi apenas um episódio dessa trajetória. Mas sintetizou bem algo que Laura defendeu também fora das telas: envelhecer não deveria significar deixar de trabalhar, de ocupar espaço ou de ser tratada como alguém capaz de acompanhar o próprio tempo.





