A mulher que sobreviveu à injeção letal: teria o patriarcado funcionado a nosso favor?
O caso da norte-americana Christa Pike, que sobreviveu a duas doses de pentobarbital, ainda não tem explicação, mas traz de volta uma velha questão: até na morte o homem ainda é o padrão?
O Estado do Tennessee tinha um plano bastante objetivo para Christa Pike na noite de quarta-feira, 30 de setembro: matá-la.
Aos 50 anos, condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer em 1995, Pike recebeu duas doses de pentobarbital durante a tentativa de execução por injeção letal. Continuou viva. Permaneceu respirando durante o procedimento — segundo testemunhas, chegou a roncar — e acabou levada a um hospital, onde tentam, agora, salvar sua vida.
O governador do Tennessee, Bill Lee, suspendeu as demais execuções previstas para 2026 e determinou uma investigação independente sobre o que aconteceu.
É cedo — e seria errado — concluir que Pike sobreviveu porque é mulher.
Seus advogados já haviam alertado que ela sofre de trombocitose, uma alteração no sangue que poderia aumentar os riscos do procedimento, inclusive de complicações no acesso intravenoso. O Tennessee também já havia registrado problemas em outra tentativa de execução neste ano. A atualização mais recente informa ainda que houve problemas com os acessos intravenosos durante a execução de Pike.
O que falhou em 30 de setembro ainda está sendo investigado. Mas postagens nas redes sociais levantaram uma questão pertinente:
alguém sabe se, de fato, esse protocolo produz os mesmos efeitos no corpo feminino e no masculino?
A resposta parece óbvia, mas não é.
Durante décadas, a medicina, a engenharia e o design de produtos trataram o corpo masculino como uma espécie de ser humano padrão. Mulheres entravam depois, como uma variação, uma adaptação ou, literalmente, uma versão menor.
Às vezes, bastava reduzir o tamanho. Outras, era suficiente pintar de rosa. E isso não é uma metáfora.

Christa Pike, 50 anos, sobreviveu à tentativa de execução por injeção letal realizada no Tennessee em 30 de setembro de 2026 | Reprodução
O homem como medida do mundo
A história da pesquisa médica é um dos exemplos mais conhecidos.
Em 1977, nos Estados Unidos, uma orientação da FDA recomendou excluir mulheres com potencial de engravidar de estudos clínicos iniciais de medicamentos. O objetivo era evitar riscos para eventuais gestações (hello, talidomida!), mas a consequência foi também produzir conhecimento sobre segurança, dosagem e efeitos colaterais a partir de uma população predominantemente masculina. A própria FDA reconheceria depois que essa exclusão pode ter atrasado a identificação de diferenças na resposta de mulheres aos medicamentos. U.S. Food and Drug Administration
A diretriz só foi revertida em 1993. Mais de três décadas depois, o assunto continua suficientemente aberto para que a própria FDA siga publicando recomendações destinadas a ampliar a participação feminina em pesquisas e melhorar a análise dos resultados por sexo.
Não é preciosismo estatístico. Homens e mulheres podem apresentar diferenças na absorção, distribuição, metabolização e eliminação de medicamentos. Hormônios, composição corporal, tamanho, genética e outros fatores podem interferir tanto na eficácia quanto na ocorrência de efeitos adversos.
Ou seja: incluir mulheres não significa só colocar mais nomes femininos numa planilha. Significa descobrir se aquilo que funciona em um organismo funciona exatamente da mesma maneira no outro.
Infarto ou estresse?
Por muito tempo, o retrato popular de um infarto era assim: alguém leva a mão ao peito, sente uma dor forte e cai.
Esse retrato não está errado. Dor ou desconforto no peito também é o sintoma mais comum entre mulheres. O problema é que isso é só uma partezinha da história.
Há outros sinais muito mais prevalentes nelas: falta de ar, náusea, vômito, dor nas costas, no maxilar ou no ombro, fadiga incomum e fraqueza. E esses sintomas podem ser interpretados como ansiedade, indigestão ou simplesmente cansaço. professional.heart.org
Em fevereiro deste ano, a American Heart Association publicou uma declaração científica dedicada especificamente às síndromes coronarianas agudas em mulheres na pré-menopausa.
O motivo é revelador: essas pacientes ainda constituem um grupo sub-reconhecido, historicamente considerado de risco cardiovascular menor, e continuam enfrentando atrasos tanto na procura por atendimento quanto no diagnóstico e no tratamento nas emergências.
Há ainda diferenças na própria doença. Mulheres apresentam proporcionalmente mais problemas cardiovasculares que não correspondem ao modelo clássico de grandes artérias obstruídas, como doença microvascular e dissecção espontânea da artéria coronária.
Não é que tenha surgido de repente um “infarto feminino”. É que ninguém estava olhando pra ele.
Cadê o clitóris que tava aqui?
Há talvez um exemplo ainda mais literal do que acontece quando o corpo masculino é tratado como referência.
O “Gray’s Anatomy” — o livro, não a série —, bíblia da anatomia publicada continuamente desde 1858 e referência para gerações de médicos e anatomistas mundo afora, chegou a representar o clitóris com relativo destaque em suas primeiras edições. Depois ele começou a sumir.
Na edição de 1858, glande e corpo estavam identificados, e até 1901 o órgão ainda aparecia com destaque. Ao longo do século 20, porém, sua representação foi sendo reduzida. A partir de 1913, ele ficou restrito a uma única indicação — “clitoris” — em uma imagem que permaneceu praticamente inalterada por décadas.
Enquanto ereção e ejaculação masculinas eram indexadas e descritas em detalhes, o clitóris continuava enquadrado sobretudo como uma estrutura homóloga ao pênis.
Só na 40ª edição, publicada em 2008, o “Gray’s Anatomy” passou a trazer uma representação multipartes com todos os componentes do clitóris identificados e uma referência direta à sua função: “importante nas respostas sexuais”.
E você acha que as coisas melhoraram de lá pra cá? Pois uma meta-análise publicada na edição de 2024 da Clinical Anatomy observou que só um quarto dos livros especializados avaliados trazia medidas do clitóris.
E tudo isso por quê? Porque, durante muito tempo, quem decidia o que merecia ser estudado eram homens — e um órgão cuja única função conhecida está ligada ao prazer sexual feminino aparentemente não parecia assim tão urgente.
E depois ficamos espantadas por eles não conseguirem achar o dito cujo.
Encolhe e pinta de rosa
A mesma lógica se dá fora dos hospitais — e chega às prateleiras.
O tênis é um caso clássico, e essa informação viralizou só recentemente: para fabricar um modelo, a indústria utiliza uma forma tridimensional, criada a partir do pé masculino. O modelo feminino vem depois: menor, eventualmente com outras cores e pequenas modificações, mas seguindo as formas masculinas.
A prática ganhou até apelido: “shrink it and pink it” — encolha e pinte de rosa.
O problema é que um pé feminino não é simplesmente um pé masculino em escala reduzida.
Estudos mostram diferenças como antepé proporcionalmente mais largo, calcanhar mais estreito e alterações nas necessidades de ajuste ao longo da vida, inclusive durante e depois da gravidez (quem já passou por uma gestação sabe: seu pé nunca mais será o mesmo).
Pesquisadoras têm defendido que fabricantes abandonem a simples adaptação de formas masculinas e desenvolvam modelos considerando anatomia, biomecânica e fases da vida das mulheres.
E o curioso é que a ciência já vinha mostrando isso havia bastante tempo. Em 2010, pesquisadores escanearam em 3D 424 pés femininos e os compararam com quatro formas masculinas de tênis de corrida que também eram usadas na fabricação de modelos para mulheres. Encontraram diferenças importantes, sobretudo nas medidas de largura, e concluíram que a prática de simplesmente reduzir formas masculinas precisava ser questionada.
Algumas marcas passaram a desenvolver calçados a partir de formas femininas e de pesquisas específicas com mulheres.
Bateu o carro? Boa sorte
Exemplos não faltam, e talvez nenhum objeto materialize tão literalmente essa história quanto um boneco de crash test.
Durante décadas, o principal corpo usado como referência nos testes de segurança automobilística foi o de um homem de porte médio.
Existe há anos um boneco identificado como feminino nos testes americanos. Mas tem um detalhe: o modelo representa uma mulher muito pequena e foi desenvolvido principalmente escalando dados masculinos. O Hybrid III feminino representa uma mulher de cerca de 1,50 metro e 49 quilos.
Ou seja, durante muito tempo, até a “mulher” usada para testar segurança em automóveis era, em boa medida, um homem menor.
Só recentemente os Estados Unidos avançaram para um boneco feminino de crash test desenvolvido com muito mais dados reais de corpos femininos. O THOR-05F usa dados específicos femininos de tamanho, forma corporal, resposta e risco de lesão.
A mudança responde a uma evidência importante: mulheres apresentam riscos diferentes de determinados tipos de lesão em colisões. Em pesquisa divulgada em janeiro de 2026, a NHTSA encontrou risco significativamente maior para mulheres em 26% dos 150 modelos de lesões analisados.
Automóveis modernos têm airbags, cintos com pré-tensionadores, zonas de deformação, sistemas eletrônicos de segurança e décadas de engenharia acumulada.
Ainda assim, em 2026, a indústria segue aperfeiçoando a resposta a uma pergunta básica:
Clube do Bolinha
Há versões mais prosaicas — e não menos importantes — do mesmo problema.
Capacetes, luvas, cintos, coletes e roupas de proteção usados em ambientes industriais e na construção nem sempre foram produzidos pensando na diversidade dos corpos de quem trabalha nesses setores.
Equipamentos grandes demais não são só desconfortáveis.
Luvas e roupas folgadas podem ficar presas em máquinas. Máscaras, cintos, coletes e outros dispositivos mal ajustados podem simplesmente deixar de proteger como deveriam.
Nos Estados Unidos, regras recentes de segurança do trabalho passaram a deixar mais explícita a necessidade de que equipamentos de proteção sirvam corretamente em quem os utiliza, chamando atenção inclusive para trabalhadores menores, entre eles muitas mulheres.
E a falta de estrutura básica nesses ambientes nem é uma história tão antiga assim. Em 1997, numa audiência da própria OSHA sobre mulheres na construção, representantes relataram que 80% das trabalhadoras ouvidas haviam passado por obras sem banheiro ou com banheiros sujos; mais de um terço das entrevistadas em outro estudo dizia não encontrar sanitários limpos na maioria dos canteiros. Na mesma audiência, pesquisadores alertavam que equipamentos e ferramentas não podiam simplesmente ser versões masculinas reduzidas.
Metade não é nicho
Há um lado de negócios nessa história que talvez seja tão intrigante quanto o científico: mulheres não formam um nicho.
Somos metade da população mundial e compramos tênis, dirigimos carros, tomamos medicamentos, usamos equipamentos de proteção e consumimos praticamente todas as categorias imagináveis.
Para marcas e empresas, corrigir esse padrão não é só uma questão de diversidade. Pode ser necessário rever pesquisas de consumidor, desenvolvimento de produto, ergonomia, testes, bases de dados e até as perguntas feitas antes de alguma coisa chegar ao mercado.
E a injeção letal?
Christa Pike nos traz de volta ao ponto de partida.
Mulheres representam uma parcela minúscula das pessoas condenadas à morte nos Estados Unidos. Cerca de 2% das pessoas atualmente sentenciadas à morte no país são mulheres, e apenas 18 haviam sido executadas desde 1976 antes do caso de Pike.
Antes da tentativa contra Pike, o Tennessee não executava uma mulher havia mais de 200 anos.
É uma amostra pequena demais para permitir conclusões fáceis. Não há evidência, hoje, de que o protocolo de injeção letal tenha falhado com Pike porque foi desenvolvido a partir de corpos masculinos.
Pode ser que a investigação encontre uma falha no acesso intravenoso. Pode ser que sua condição sanguínea tenha interferido. Pode haver problemas com a administração ou com o medicamento. Pode haver uma combinação de fatores.
Mas há outra possibilidade. Pode ser que nem existam dados suficientes para sabermos se o sexo de Pike teve alguma influência no que aconteceu.
Mulheres são tão raras entre as pessoas submetidas à pena de morte — e mais raras ainda entre as executadas — que comparar de forma consistente como corpos femininos e masculinos respondem ao protocolo é, no mínimo, complicado.
Portanto, não dá para dizer que Pike sobreviveu porque é mulher.
Mas também não dá para olhar para toda a história da medicina e do desenvolvimento de produtos e presumir, sem mais perguntas, que ser mulher seja uma variável irrelevante.
É justamente esse o ponto.
Durante muito tempo, o corpo masculino serviu de régua para aquilo que se convencionou chamar simplesmente de “corpo humano”. Quando essa régua está errada, as consequências aparecem de todo jeito.
Pode ser um infarto que demora mais para ser reconhecido, um medicamento que produz efeitos diferentes ou um equipamento de proteção que não protege.
No caso de Christa Pike, ainda não sabemos se essa história tem alguma relação com o fato de ela ser mulher. Talvez nunca saibamos.
Mas o fato de ainda precisarmos perguntar diz muito.
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