A visão masculina do casamento
Uma reflexão sobre masculinidade, afeto e os símbolos machistas ainda presentes nas celebrações de casamento
Me divirto com alguns conceitos que nós, homens, criamos, mas infelizmente alguns deles acabam se transformando em ferramentas silenciosas de comunicação. Em especial, a visão masculina do casamento é algo perturbador e, em alguns momentos, beira um show de horror.
Recentemente fui ao casamento da filha de um amigo. Uma festa impecável, com direito a um almoço muito especial, numa recepção feita com muito carinho. Estava conversando com ele quando dois amigos dele chegaram para dar os parabéns. Eram dois homens mais velhos, de quem eu esperava muita sabedoria, mas me decepcionei com uma brincadeira infeliz. Eles falaram com meu amigo como se ele estivesse entregando sua filha a um sacrifício, como se, para a noiva, a cerimônia fosse quase um castigo.
Tenho uma filha. Talvez esses senhores não tenham e, com isso, tenham perdido a emoção que eu pude sentir. Tenho um filme no meu celular do fim da festa do casamento da minha filha, quando ela e seu marido estavam dançando sozinhos na pista de dança, e eu estava distante, podendo filmar aquele momento e guardá-lo para o resto da vida.
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Ninguém casa sozinho. São sempre dois realizando um sonho, mas para alguns homens, em especial os mais velhos, parece que estamos perdendo algo. O casamento, quando planejado e sonhado, é um presente para os dois. Gosto muito de festas de casamento simples, pois na alegria de uma celebração no quintal de uma casa vejo muito mais verdade e contentamento.
Felizmente, durante o casamento da minha filha, que devo dizer foi um dos dias mais especiais da minha vida, tive a alegria de ouvir nos votos do meu genro algo lindo: “Se vocês não sabem como fica uma pessoa que está realizando um sonho, é simples, basta olharem para mim”.
Gosto de uma música de casamento que diz: “Dia feliz do rapaz, sonho de amor da menina, flores, cantigas e paz, na união destas vidas”. É algo incrível, em especial para o pai da noiva, quando você termina o casamento da sua filha e percebe que tudo saiu como os noivos planejaram. É um sentimento de alegria tão especial que não consigo expressar. Lembro apenas de uma campanha de um cartão de crédito em que a pessoa que vive esse momento responde: “Eu não sei explicar, só não trocaria de lugar com ninguém no mundo”.
O estranho é que o conceito de perda, de fim da liberdade, de derrota ou até mesmo de ter sido fisgado parece ser uma constante nas conversas de homens quando o assunto é o casamento de um amigo.
Quando penso que educar é o caminho, entendo que alguns sinais e alguns rituais falam muito. Outro dia disse que um amigo estava casado e me corrigiram: “Não, ele apenas mora junto com a namorada”.
Acho engraçada essa redução de sentido e fico feliz que a semântica garanta a esses jovens adultos a percepção de que ainda estão seguros. Alguns mais criativos criaram até a definição de “namorido”. Me desculpem a franqueza, mas para mim isso não faz nenhum sentido.
Podem me criticar à vontade, mas eu me divirto explicando a lei da união estável para homens que acreditam estar seguros apenas por não oficializarem uma relação. Entendo que isso é fruto de rituais e imagens construídos da forma mais infeliz possível.
Devo dizer que nunca gostei do ritual em que a noiva joga o buquê de flores para as amigas ao final do casamento. Em parte, por notar o constrangimento de algumas mulheres que são levadas ao grupo que, em tese, terá a sorte de receber o buquê e, com ele, a felicidade de potencialmente ser a próxima a se casar.
Facilmente notamos que algumas mulheres estão ali apenas para alegrar potencialmente suas mães ou para participar do momento de uma amiga. Algumas nem se dão ao trabalho de tentar pegar o buquê.
Mas meu horror sempre foi a reação do grupo de namorados das moças, onde geralmente eu estava, e das brincadeiras que costumavam surgir. Sempre me atenho à força de algumas brincadeiras, pois entendo que é brincando que expressamos alguns dos nossos medos.
No casamento da minha filha ganhei outro presente. Ela reservou para este momento tão especial algo mágico. Inspirada em um casamento onde o ritual do sorteio foi deixado de lado e a noiva presenteou uma pessoa da família com o buquê, minha filha, criativa como é, foi além.
Ela separou o buquê em seis partes e entregou cada uma delas para seis mulheres que foram muito importantes em sua vida. Assim, minha esposa, a mãe do noivo e as quatro avós tiveram o privilégio de receber parte do buquê.
Sei que pode parecer um ato pequeno, mas entendo que as conquistas são feitas passo a passo. Os sinais falam muito e, quando transformamos um momento tão lindo em uma loteria, estamos reduzindo o sentido de tudo.
Espero um dia não ouvir homens falando do sacrifício da noiva. E espero que a cerimônia do buquê possa morrer em paz, como uma ideia machista muito infeliz.
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