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Deus me proteja da sua inveja

Às vésperas da Copa de 2027, campanhas de SporTV e Dove mostram como a publicidade pode enfrentar o preconceito contra mulheres no futebol

No próximo ano, no dia 24 de junho, no Maracanã, terá início a 10ª edição da Copa do Mundo Feminina, a primeira edição na América do Sul, com uma grande chance de bater recordes de público e de audiência nas transmissões.

Infelizmente, o fracasso da seleção masculina este ano e toda a movimentação das eleições tiraram o foco deste torneio, mas é provável que, no próximo dia 11 de dezembro, quando acontecerá o sorteio dos grupos da competição, nosso país passe a entrar no clima, ou pelo menos uma parte dele.

Recentemente, conversando com Camila Estefano, uma das pioneiras do futebol brasileiro, que defendeu o Corinthians, ela me contou que, quando jogava, chegou a ouvir de alguns homens, antes de uma partida, que elas iriam estragar o gramado. Ela é uma das profissionais que abriram caminho para o nosso sucesso atual, hoje atuando como dirigente esportiva.

Ainda é comum ouvirmos que “futebol não é coisa de mulher”, “elas jogam devagar demais”, “só estão transmitindo porque virou moda” ou “o campo é grande demais para elas”.

O peso da história

O primeiro ponto importante que precisa ficar claro é que consumidores de futebol feminino não são só mulheres. Homens e mulheres de diferentes faixas etárias assistem às partidas, mas, trabalhando com esporte, ainda ouço regularmente comentários que começam com uma crítica como essa.

Acho deselegante e entendo que o preconceito traz este pensamento, mas, em essência, sempre lembro que ninguém é obrigado a assistir. Vê quem quer e torce pelas nossas meninas quem achar que deve torcer.

Acho relevante dizer que, em 14 de abril de 1941, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, por meio do Decreto-Lei nº 3.199, estabeleceu-se que mulheres não poderiam praticar esportes considerados “incompatíveis com as condições de sua natureza”. Um outro texto horroroso que talvez nos ajude a entender esse modo de pensar.

A proibição só foi revogada em 1979. Mesmo assim, isso não significou que o futebol feminino estivesse imediatamente estruturado: a regulamentação da modalidade pelo CND veio apenas em 1983.

Isso significa que o futebol feminino só foi regulamentado como modalidade em nosso país há 43 anos. E, de lá para cá, temos 9 títulos da Copa América, chegamos à final nas dez primeiras edições, vencendo nove delas. Fomos vice-campeões da Copa do Mundo de 2007, na China, e temos 3 medalhas de prata nas Olimpíadas de Atenas 2004, Pequim 2008 e Paris 2024.

Enquanto uns falam

O canal SporTV, do Grupo Globo, colocou no ar um comercial muito divertido, uma peça de grande talento que brinca com os comentários a partir de uma edição ágil, que corta as falas do preconceito com lances geniais de nossas atletas, com uma assinatura: “Enquanto uns falam por aí, elas jogam muito por aqui”. Tudo embalado pela bênção da trilha, a música “Reza”, de Rita Lee e Roberto de Carvalho, que foi composta por Rita com o objetivo de afastar a raiva, a inveja e qualquer energia ruim direcionada a ela, transformando a espiritualidade em um escudo de proteção e positividade. Perfeito. Parabéns ao time do canal campeão.

Gosto ainda mais de um outro material criado pela Droga5 São Paulo para a marca Dove, da Unilever. Ele me toca profundamente, pois aborda a pressão que meninas que jogam futebol ainda sofrem hoje.

Um filme necessário. Um alerta sobre como temos agredido jogadoras de futebol com críticas sem o menor sentido. “Preleção do Amanhã” é uma peça que respeita suas consumidoras. É triste lermos que 1 em cada 2 meninas que abandona o esporte ouviu críticas sobre seu corpo. Meninas que estão vivendo sua adolescência e que estão construindo sua autoestima.

O texto segue forte, com mensagens das jogadoras como: “Vocês são mulheres vitoriosas”, “Este jogo é nosso” e “O amor que vocês têm pelo futebol é imparável”. Para fechar, um último depoimento que resume bem o espírito da campanha: “Eu vou mostrar que tudo posso”. Obrigado, Droga5 e Dove, por nos presentearem com este trabalho incrível.

A estrela que falta

Para mim, fica evidente o medo, mas fico perplexo pensando que ele é totalmente injustificável. Não estamos propondo uma troca. As mulheres buscam apenas seu lugar, seu espaço, a chance de jogar futebol com alegria e talento. O crescimento do futebol feminino não exige o desaparecimento ou a diminuição do masculino. Não há uma vaga única a ser disputada.

Ainda nos falta a conquista que colocará uma estrela sobre a camisa, mas temos a Pelé do futebol feminino, nossa querida Marta, por 6 vezes escolhida a melhor jogadora do mundo.

Penso que o futuro pode nos presentear com uma feliz contradição. Sim, eu sonho com a conquista da Copa do Mundo em nosso país. Algo que o futebol mais vencedor do mundo nunca conseguiu. Quem sabe sejam as mulheres brasileiras que vão sepultar esta maldição de nunca termos vencido em nossa casa.

Volto a evocar Rita Lee na música “Reza”, com um complemento meu: “Deus me livre e guarde de você, que não torce, não entende”, não acredita e apenas morre de medo.

Viva o futebol feminino brasileiro!

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.


Foto de Regi Andrade

Regi Andrade

Publicitário e vendedor de ideias, construiu sua carreira na área de vendas e negócios de mídia. Especialista em branding e negócios no esporte, é Diretor Comercial da Máquina do Esporte, liderando estratégias de monetização, parcerias e projetos que conectam marcas ao ecossistema do esporte.

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