O que as mergulhadoras de Jeju ensinam sobre liderança e redes de apoio
Em sua estreia, colunista parte da tradição das mergulhadoras de Jeju para refletir sobre autossuficiência, esgotamento e as redes que sustentam quem vai mais fundo
Em agosto de 2026, para celebrar meu aniversário e fazer um movimento de reconexão profunda com as minhas raízes, visitei a exposição “Sopro do Mar: Jeju Haenyeo, mulheres e coletividade”, no Centro Cultural Coreano (KCC).
Ali, diante de trajes, ferramentas de pesca e memórias visuais, fui transportada para o cotidiano secular das Haenyeo, as lendárias “mulheres do mar” da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul — uma herança cultural que carrego na minha própria ancestralidade, já que sou nascida na Coréia do Sul.
Ver a representação daquelas mulheres que submergem a mais de dez metros de profundidade em águas congelantes, contando apenas com a capacidade fisiológica dos seus pulmões, me fez refletir.
Quando elas finalmente emergem da escuridão do oceano, emitem um som agudo e sibilante: o Sumbi-sori. Mais do que um simples ato mecânico de respirar, o Sumbi-sori é o som da sobrevivência no limite. Esse assobio forçado elimina o dióxido de carbono acumulado e limpa os pulmões rapidamente, mas funciona também como um alarme de vulnerabilidade.
Na física do mergulho, a chegada à superfície é o momento mais perigoso, quando a queda brusca de pressão gera o maior risco de apagamento (blackout). Aquele som avisa ao grupo: “Cheguei ao meu limite físico, vigiem o meu retorno”.
Como fundadora de negócios de beleza e bem-estar — incluindo uma das maiores redes de spas em hotéis no Brasil, além da Amakos da Amazônia e da Extraordinários Botanicals —, dedico minha jornada ao desenvolvimento de soluções para a vida contemporânea.
Minha busca adota uma visão polímata: investigo medicinas tradicionais ancestrais através das lentes rigorosas da ciência, da psicologia, da neurociência, da antropologia e do comportamento humano e ao sair daquela exposição e analisar o nosso mercado atual, o diagnóstico me pareceu claro: a sociedade moderna opera em um eterno estado de apneia cognitiva.
No ritmo hiperacelerado dos negócios e das posições de liderança, fomos condicionadas a prender o fôlego. Negligenciamos a biologia básica da regeneração do sistema nervoso e do suporte mútuo em nome de uma produtividade ininterrupta. Ignoramos que os nossos próprios Sumbi-soris contemporâneos — manifestados em crises de ansiedade, exaustão crônica e desabafos — são alertas vitais que demandam intervenção.
A falácia biocognitiva da autossuficiência
No ecossistema de Jeju, o excesso de otimismo ou a ilusão de que se pode operar em isolamento são erros fatais. O oceano não tolera a soberba da autossuficiência. Na cultura corporativa contemporânea, especialmente a ocidental, cometemos o mesmo equívoco. Fomos ensinadas a seguir um caminho individualista: o autocuidado isolado, as rotinas solitárias e a busca implacável por performance.
A psicologia comportamental e a neurociência já comprovaram que o isolamento social, ativa no córtex as mesmas vias associadas à dor física. Nós não fomos programados para a solidão. O esgotamento moderno crônico não nasce da falta de capacidade individual, mas sim do colapso dos nossos sistemas de suporte coletivo. A resiliência humana não é um atributo isolado; ela depende de conexões seguras para se sustentar.

Haenyeo retornam do mergulho na Ilha de Jeju, tradição feminina reconhecida pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade | Divulgação Unesco
Você não precisa de uma técnica de respiração, você precisa de um cardume
É aqui que a antropologia encontra a biologia da sobrevivência. As Haenyeo nunca operam sozinhas, tampouco confiam sua segurança a duplas ou parceiras fixas. Na cultura delas, vigora o conceito de Mulbeot (물벗), a “amiga de água”. Mas a grande virada de chave desse modelo social é que a sua Mulbeot não representa um par exclusivo, como um casal; ela se traduz em uma rede dinâmica e circular de vigilância coletiva.
Quando entram no mar, as mulheres se espalham estrategicamente mantendo contato visual e auditivo. Enquanto uma mergulhadora submerge na escuridão para colher os resultados, todas as outras que estão flutuando na superfície assumem a responsabilidade pelo seu fôlego. Elas monitoram suas boias laranjas (Tewaks), calculam o tempo de oxigênio e conhecem o timbre exato do assobio de cada companheira. Se houver qualquer sinal de falha, a rede intervém imediatamente. Não há espaço para rivalidade quando o objetivo é a preservação da vida.
Essa estrutura é sustentada por uma hierarquia de cuidado baseada em três níveis de fôlego: as veteranas de elite (Sanggun), as intermediárias (Junggun) e as iniciantes ou idosas (Hagun). As que vão mais fundo confiam na vigília de quem ficou no raso e, ao retornarem, dividem o conhecimento e protegem as mais novas. Trata-se de uma tecnologia social milenar de co-regulação: a capacidade de estabilizar as respostas de estresse do outro através da presença ativa e do suporte sistêmico.
Praticando a Tecnologia Social no Cotidiano
Trazer essa filosofia tradicional e comportamental para a nossa realidade exige ferramentas intencionais nos nossos espaços de convivência:
- Co-regulação ativa em ambientes de estresse: assuma o papel de Mulbeotde superfície. Se perceber uma colega de trabalho ou parceira de projetos em claro estado de sobrecarga ou tendo suas ideias silenciadas, intervenha. Valide a presença dela e garanta o espaço necessário para que ela recupere o foco e a voz.
- O Bulteok das relações genuínas: as Haenyeose reúnem ao redor de um braseiro de pedra chamado Bulteok para se aquecerem e tomarem decisões comunitárias. Estabeleça seus próprios espaços de acolhimento legítimo. Mantenha núcleos de troca reais, sem filtros de vaidade ou competição — um lugar onde seja permitido desabafar e aliviar a pressão biológica que o cotidiano impõe.
- Equidade ecossistêmica: na comunidade de Jeju, os recursos são distribuídos de forma a amparar as mulheres sêniores que já não conseguem descer tão fundo. Pratique essa equidade estrutural no seu entorno: honre quem veio antes, mentore quem está começando na base e divida os méritos do sucesso com quem sustenta a operação nos bastidores.
Quem está na sua superfície?
O estudo do bem-estar integrativo nos mostra que soluções duradouras exigem profundidade e o diálogo não excludente entre o conhecimento ancestral e a validação científica. Não fomos feitos para o isolamento. Acredito que o Misses at Work funciona justamente como esse ponto de encontro na superfície, onde nos reunimos para recuperar o fôlego coletivamente.
Olhe ao seu lado hoje. Quem são as mulheres que seguram o seu cabo quando você decide ir fundo nas suas pesquisas, projetos e negócios? E de quantas você tem sido a vigia na superfície?
No oceano da vida contemporânea, só quem se apoia em uma rede legítima de Mulbeots consegue voltar para a superfície e continuar respirando. Continuar mergulhando…
Glossário da Cultura Haenyeo
- Haenyeo (해녀): “Mulheres do mar”. Comunidade tradicional de mergulhadoras da Ilha de Jeju, na Coreia do Sul, reconhecida pela UNESCO, que coleta recursos marinhos em apneia.
- Mulbeot (물벗): “Amiga de água”. Rede circular de parceiras que monitoram, protegem e garantem o suporte vital na superfície, cuidando do fôlego de quem submerge sem depender de um par fixo.
- Sumbi-sori (숨비소리): o som sibilante expelido pelas Haenyeo ao emergirem. Uma técnica de respiração profunda para limpar o dióxido de carbono e um sinalizador acústico de vulnerabilidade para o grupo.
- Bulteok (불턱): espaço semicircular feito de pedras à beira-mar onde as comunidades se reúnem ao redor do fogo para se aquecer, tomar decisões coletivas e transmitir conhecimento.
Para ir mais fundo: Ciência e Ancestralidade em diálogo
A busca pelo bem-estar integrado e por uma liderança sustentável exige profundidade. Para além das minhas vivências pessoais e do resgate da minha ancestralidade coreana, a tese desta coluna apoia-se em um diálogo rigoroso entre a antropologia cultural e as descobertas mais recentes da neurociência social e da genética. Se você deseja explorar os estudos, artigos e relatórios globais que validam os conceitos de co-regulação, o impacto biológico do isolamento e a fisiologia das Haenyeo citados no texto, confira as referências científicas a seguir:
Referências Bibliográficas e Científicas
1. Cultura, Antropologia e Fisiologia das Haenyeo
- (2016). Culture of Jeju Haenyeo (Women Divers). Inscribed on the Representative List of the Intangible Cultural Heritage of Humanity. Paris: UNESCO. Disponível em:unesco.org. (Valida os conceitos de Mulbeot, Bulteok e a estrutura de equidade social da comunidade).
- Lee, J. H., & Kim, Y. H.(2025). Genetic Adaptation and Physiological Regulation in the Extreme Divers of Jeju Island. Cell Reports, 44(5). / University of Utah Health Science Media. (Mapeamento genômico que comprova as adaptações do sistema nervoso e circulatório das Haenyeo para lidar com o estresse extremo e controle de pressão arterial).
- Seoul National University (SNU).Human Ecology Lab Studies on Sumbi-sori Respiratory Mechanics. Seoul: SNU Press. (Estudo fisiológico sobre a mecânica da respiração forçada para eliminação rápida de $CO_2$ e o monitoramento acústico coletivo contra o blackout de superfície).
2. Neurociência Social e o Isolamento como Dor Física
- Eisenberger, N. I., Lieberman, M. D., & Williams, K. D.(2003). Does rejection hurt? An fMRI study of social exclusion. Science, 302(5643), 290-292. (Estudo pioneiro “Cyberball” que provou que o isolamento e a exclusão ativam o Córtex Cingulado Anterior Dorsal e a Ínsula, as mesmas vias cerebrais da dor física).
- Way, B. M., Taylor, S. E., & Eisenberger, N. I.(2009). Variation in the μ-opioid receptor gene (OPRM1) is associated with sensitivity to social rejection. Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), 106(35), 15019-15024. (Comprova a ligação genética entre a sensibilidade à dor física e a sensibilidade à dor do isolamento).
3. Co-Regulação, Estresse Corporativo e Saúde Mental Global
- Porges, S. W.(2011). The Polyvagal Theory: Neurophysiological Foundations of Emotions, Attachment, Communication, and Self-regulation. New York: W. W. Norton & Company. (Base científica da Teoria Polivagal e da Co-regulação, que demonstra por que o sistema nervoso depende de conexões seguras no “cardume” para desativar o estresse).
- World Health Organization (WHO).(2023-2026). The Epidemic of Loneliness and the Social Connection Commission Reports. Geneva: WHO. (Relatório global que equipara os impactos biológicos do isolamento social e do esgotamento contemporâneo aos riscos de grandes doenças físicas).
As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.


