Por que você foi mal na entrevista de emprego?
Você pode dominar todas as dicas de entrevista e ainda assim não se destacar — porque o problema pode não estar no que você responde, mas no que você deixa de perguntar
Quando você procura dicas de como se dar bem numa entrevista de emprego, tudo o que te mandam fazer tem a ver com você:
- você deve pesquisar sobre a empresa, os produtos da empresa, a área em que vai atuar;
- você deve organizar sua trajetória como uma narrativa, com começo, meio e ponto de chegada;
- você deve trazer exemplos concretos e evitar afirmações diretas, do tipo: “Eu sou uma pessoa colaborativa”;
- você deve se preparar para algumas perguntas chatas, como “Qual o seu ponto de melhoria?” – um clássico;
- você deve cuidar da sua aparência;
- você deve ter uma postura positiva, pra cima – evitando demonstrar pouca energia.
Todas essas indicações são válidas, claro. Nenhum problema com elas. Só que dominar todos esses itens não vai fazer você se destacar. Eles, por si só, não vão fazer com que a sua entrevista seja aquela de que a recrutadora vai se lembrar no final do dia.
O que faz alguém ser lembrado
Atuando décadas como gestor de equipes de venda, entrevistei muita gente, em vários países. E depois que montei a MidiaBizz, uma consultoria de RH focada em recolocação, entrevistei mais de mil, isso nos últimos três anos.
Recentemente comecei a prestar atenção naquelas entrevistas nas quais a pessoa candidata conseguiu deixar um impacto forte. E todas elas têm a mesma característica. A pessoa entrevistada mostrou interesse real pelo universo de quem está entrevistando.
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Interesse não é puxação de saco
O ponto de interesse não faz tanta diferença. Cuidado para que o tema não seja muito pessoal, ou você corre o risco de passar uma imagem de superficialidade, ou de querer falsear intimidade para compensar fraqueza técnica.
Se o tema pessoal surgir, não o desmereça, dê atenção – e saia dele rapidamente. Mês passado tive que remarcar uma entrevista porque estava com sinusite. Quando a entrevista finalmente aconteceu, alguns dias depois, a candidata abriu o call me perguntando se eu estava melhor – um sinal de consideração, gostei.
Mas foi isso, ela não me contou que também sofre com sinusite, não me indicou remédio, não quis me passar o contato do médico maravilhoso da tia dela.
Aqui começa o jogo de verdade
Passado o tema pessoal, evolua imediatamente para a área profissional. Dentro do ambiente profissional, tudo vale:
- a trajetória daquela pessoa na empresa;
- o escopo da área onde a vaga está alocada;
- um produto que a empresa lançou;
- uma campanha que você viu;
- algo que você leu na imprensa.
Se preparar para a entrevista é isso. Ler sobre a empresa, visitar o site e as redes sociais, entender os produtos principais.
O erro que quase todo mundo comete
A gente não pesquisa para dar uma de sabichão na entrevista. Aliás, isso demonstra arrogância e gestores ODEIAM. A gente estuda sobre a empresa para poder fazer boas perguntas, para ter uma conversa de bom nível, que seja proveitosa para a outra pessoa.
A gente também não mostra interesse pelo universo da outra pessoa nos cinco minutos finais da entrevista, depois de ter respondido perguntas (ou ter performado um monólogo) 80% do tempo. Inverta essa ordem. Comece logo de cara fazendo perguntas.
Por que perguntar funciona
Em uma das melhores entrevistas que fiz recentemente, a profissional abriu a conversa pedindo minha avaliação sobre o momento do segmento no qual ela atua – pedir opiniões é uma forma excelente de empoderar a outra pessoa, de mostrar que você dá valor às suas opiniões.
Quer mais uma razão para não começar a entrevista solando? Mesmo que tenhamos feito uma pesquisa, a gente sabe pouco sobre a empresa, os produtos da empresa, a área na qual vamos trabalhar. Quando fazemos boas perguntas, podemos adequar a narrativa da nossa carreira para atender a essa demanda.
Quem está no controle da conversa
Outro dia passei o feedback para um candidato de que ele havia sido descartado porque a entrevistadora havia achado seu background técnico insuficiente. “Eu entendo muito do assunto, só que ela não perguntou nada sobre a parte técnica!”.
Se, no início da entrevista, ele tivesse perguntado se o conhecimento técnico era importante naquela função, teria apresentado sua trajetória de outra maneira. Se tivesse iniciado a entrevista fazendo perguntas, tomaria as rédeas da conversa.
É um erro achar que, quando a gente fala, estamos controlando a conversa. Enquanto a gente está matraqueando sem parar, a cabeça da pessoa está viajando pra outro lugar. Na hora de responder, ao contrário, ela precisa se concentrar – aí sim estamos no controle.
Não é sobre você (não do jeito que você pensa)
Uma boa entrevista de emprego não é um solo, um monólogo, um discurso da pessoa candidata falando, falando, falando… Também não é uma conversa superficial, ou uma sessão de perguntas bobas, infantis, na qual a pessoa recrutadora tenha que explicar o básico do básico. Uma boa entrevista é uma conversa.
A conversa é a melhor forma de interação que existe – quando estamos com amigos, com a família, com quem a gente gosta e tá tudo bem, a gente conversa. A pessoa entrevistadora é, antes de mais nada, uma pessoa, e ao final de uma entrevista que fluiu como uma conversa, fará uma boa avaliação da entrevista.
Pode ser que o processo não siga em frente por outras razões, mas a entrevista vai ser bem avaliada. E você ficará na memória como uma pessoa interessada, que tem curiosidade, que quer aprender, que sabe fazer boas perguntas e que presta atenção nas respostas. É isso que faz uma entrevista ser inesquecível.
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