Os candidatos falam sobre mulheres. Mas quase não falam sobre mulheres no poder
Mulheres são 52,8% do eleitorado brasileiro, mas análise dos planos presidenciais mostra que participação feminina nos espaços de decisão permanece praticamente fora das prioridades
As mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro nas eleições de 2026. São maioria entre os 158.745.463 cidadãos aptos a votar em outubro, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
Elas terão, portanto, enorme peso na escolha dos próximos representantes do país.
Essa centralidade já apareceu no próprio Misses. Na newsletter “Todos querem as mulheres: votos, consumo, apostas e IA”, o portal mostrou como as mulheres se tornaram alvo de candidatos, empresas e plataformas interessadas em seu poder eleitoral e de consumo.
Entretanto, quando se observa como as próprias mulheres aparecem nos planos de governo das candidaturas à Presidência, surge uma contradição: elas são frequentemente tratadas como destinatárias de políticas públicas, mas raramente aparecem como protagonistas dos espaços de decisão.
Uma análise do Instituto Update sobre os planos de governo das 12 candidaturas presidenciais identificou propostas relacionadas às mulheres em diferentes campos políticos. O maior destaque está no enfrentamento à violência.
Dos 12 programas analisados, nove, ou 75%, apresentam propostas explícitas relacionadas à violência contra mulheres, feminicídio ou proteção às vítimas.
Quando o assunto é participação política feminina, porém, o cenário muda radicalmente.
Proteção mais do que poder
Apenas uma das 12 candidaturas analisadas apresentou uma proposta específica para ampliar a participação político-eleitoral feminina.
Entre as medidas estão o combate à violência política de gênero, a formação de candidatas e lideranças e regras relacionadas ao financiamento partidário. Quando o critério é ampliado para considerar mulheres em outros espaços de liderança e decisão, somente uma segunda candidatura entra no grupo.
A diferença chama atenção porque 72% das mulheres ouvidas pelo Instituto Update na pesquisa Mulheres em Diálogo concordam plenamente com o aumento da representação feminina em cargos políticos.
Divulgado em 2025, o estudo Mulheres em Diálogo ouviu 668 brasileiras de diferentes regiões, idades, classes sociais e orientações políticas. A coleta ocorreu entre 6 e 16 de dezembro de 2024, em parceria com o Instituto de Pesquisa IDEIA.
Ou seja, existe uma distância entre reconhecer os problemas que atingem as mulheres e criar mecanismos para colocá-las entre as pessoas que formulam as soluções.
Carol Althaller, diretora-executiva do Instituto Update, resume essa contradição ao apontar que os programas avançam menos quando precisam incorporar as mulheres como sujeitos de decisão.
Maioria nas urnas, minoria nas candidaturas
Os próprios números das eleições de 2026 reforçam a distância.
Em levantamento divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral para orientar a destinação dos recursos públicos de campanha, 20.560 candidaturas entraram no cálculo dos fundos partidário e eleitoral. Desse total, 7.165 eram de mulheres, o equivalente a 34,85%. Os homens representavam 65,15%.
Na disputa pela Câmara dos Deputados, outro dado chama atenção.
O número de candidaturas femininas caiu 24% em relação a 2022, passando de 3.717 para 2.820. Apesar da queda absoluta, a proporção feminina entre os concorrentes a deputado federal subiu de 35% para 36,7%, porque o número total de candidaturas também diminuiu, conforme levantamento divulgado pela Câmara dos Deputados.
Nas disputas pelos governos estaduais e do Distrito Federal, há 34 mulheres entre 198 concorrentes. Em 2022, eram 38 candidatas.
Assim, o Brasil chega a mais uma eleição com mulheres formando a maioria do eleitorado, mas ainda longe de uma presença equivalente entre quem disputa os principais espaços de poder.
Cuidado entra nos programas
Outra área com presença significativa nos planos presidenciais é a política de cuidado.
Sete das 12 candidaturas, ou 58%, relacionam explicitamente creches ou políticas de cuidado à vida econômica e social das mulheres.
Em alguns programas, o cuidado aparece como infraestrutura pública capaz de liberar tempo feminino e ampliar a participação das mulheres no mercado de trabalho. Em outros, permanece mais associado à maternidade, à família e às responsabilidades domésticas.
A diferença não é pequena.
Decidir se o cuidado deve permanecer essencialmente dentro das famílias ou ser tratado também como uma questão econômica e social interfere diretamente na autonomia feminina.
Afinal, tempo dedicado ao trabalho doméstico e ao cuidado significa menos disponibilidade para emprego, formação profissional, participação partidária, relacionamento profissional e construção de uma carreira política.
Esse impacto aparece também na matéria “Custo mulher: elas trabalham mais, ganham menos e pagam a conta duas vezes”, publicada pelo Misses. O texto mostra como a sobrecarga de cuidado, os salários menores e o acesso desigual ao crédito limitam a autonomia e a prosperidade das mulheres.
Segurança limita autonomia
A análise dos programas encontrou ainda uma diferença entre as políticas de proteção e a experiência cotidiana das mulheres nas cidades.
A pesquisa Mulheres, Polícia e Facções, realizada em 2026 pelo Instituto Update em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, mostrou que 79% das mulheres sentem medo ao sair à noite. Além disso, 59% já deixaram de frequentar determinados lugares por insegurança e 31,4% deixaram de usar algum meio de transporte pelo mesmo motivo.
Apesar disso, apenas uma candidatura relaciona explicitamente a segurança feminina à mobilidade e ao transporte urbano.
O dado mostra como a violência interfere não apenas na segurança física, mas também no direito de circular, trabalhar, estudar e ocupar o espaço público.
Quando o medo determina horários, trajetos e meios de transporte, ele também restringe oportunidades profissionais, participação política e acesso aos espaços nos quais decisões são tomadas.
Mulheres são pauta, mas não decisão
Os programas eleitorais mostram que temas historicamente relacionados às mulheres conquistaram espaço.
Violência, saúde, cuidado e autonomia econômica aparecem com muito mais frequência do que participação política.
Esse reconhecimento é importante. Porém, também revela um limite.
Quando mulheres aparecem prioritariamente como vítimas que precisam de proteção, mães que precisam de apoio ou trabalhadoras que precisam de oportunidades, parte da discussão permanece incompleta.
A pergunta seguinte é mais incômoda: quantas estarão entre as pessoas que decidirão como essas políticas serão formuladas?
Em 2026, as mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro.
Elas têm peso suficiente para decidir a eleição. O desafio continua sendo transformar essa maioria eleitoral em participação equivalente no poder.

