Mulheres não brotaram do ralo do sufragismo
Um ensaio material do que fazemos, do que produzimos e de como tentam, há milênio e nos dias de hoje, nos apagar da nossa própria narrativa
Mulheres não apareceram do nada, nem brotaram feministas do ralo do sufragismo. Essa sensação de que nossa história de luta começa no início do século XX é confortável para quem prefere acreditar que antes “não havia nada”, só silêncio e submissão.
Mas quando a gente puxa o fio do tempo, muito antes de existir Estado ou sequer a palavra “sociedade”, mulheres estavam trabalhando, criando, sustentando a vida coletiva de um jeito que raramente entra na narrativa oficial.
Só lembrar uma frase que uso sempre: “Todos que caminham, que caminharam e que caminharão sobre a Terra são nossos frutos”.
O mito do homem caçador
Se voltarmos mais de 10 mil anos, aos primeiros grupos humanos, o que existe são indícios: ossos, ferramentas, restos de moradia. Não há prova desse roteiro preguiçoso do “homem caçador” heroico e da “mulher doméstica” esperando na caverna.
Em comunidades de caça e coleta, todas as mãos eram necessárias. Cuidar de crianças, velhos, doentes, preparar alimentos, produzir ferramentas, participar de rituais; tudo isso era vital para a sobrevivência. Ou seja, o que hoje a gente chama de “cuidado” não era um apêndice da vida – era o centro. E as mulheres estavam ali, desde sempre, segurando esse núcleo com as duas mãos.
A grande virada acontece quando passamos a ter agricultura, domesticação de animais, acúmulo de excedente, propriedade e herança. À medida que o alimento e a terra começam a ser apropriados, o corpo das mulheres também passa a ser regulado com mais rigor.
Seu útero, minhas regras
Controlar a sexualidade feminina, a fertilidade, a fidelidade e a descendência vira parte do mesmo pacote de proteger a propriedade e garantir quem herda o quê. De repente, o útero entra oficialmente na planilha do patrimônio familiar.
E é irônico perceber que, justamente nessa fase em que o corpo feminino começa a ser mais policiado, a base da vida cotidiana continua sendo produzida pelas mãos de mulheres. Tudo o que se come e se bebe no dia a dia até hoje – o pão que fermenta, a cerveja produzida em casa, preparos que depois virariam o nosso macarrão – nasce dessa espécie de alquimia doméstica feminina.
Enquanto os homens aparecem nos registros como proprietários de terras e rebanhos, são as mulheres que, na cozinha e no quintal, transformam grãos, água e fogo em alimento, cultura e celebração.
A dona de casa é uma ficção
Esse movimento se aprofunda nas sociedades clássicas. Na famosa democracia ateniense, por exemplo, a cidadania era privilégio masculino, livre e proprietário. Isso não quer dizer que as mulheres não tivessem papel social; significa apenas que seu trabalho e sua presença estavam sendo empurrados para outros lugares.
Elas geriam casas complexas, administravam escravos, produziam tecidos e alimentos, transmitiam cultura às crianças. Mas tudo isso soava como um eco distante, enquanto a “voz pública” era reservada a poucos. A fronteira entre o que conta como político e o que é rotulado como “apenas doméstico” começa a ficar cada vez mais nítida.
Bruxas x donas de casa
Ao longo da Idade Média, a história real continua bem longe da caricatura da mulher eternamente invisível. Camponesas trabalham na terra lado a lado com homens; artesãs circulam pelas cidades; mulheres ligadas à cura atuam com saberes que misturam religião, experiência, corpo, planta, tentativa e erro.
Conventos se tornam lugares ambíguos: por um lado, espaços de controle religioso; por outro, brechas para estudo, escrita, redes femininas. Quando o sistema econômico começa a se mover em direção ao capitalismo, não por acaso vemos também uma tentativa brutal de disciplinar o corpo e o saber dessas mulheres. As perseguições às “bruxas” fazem parte desse pacote de controle, não são só um surto místico isolado.
Com a industrialização, já na modernidade, a contradição fica ainda mais escancarada. De um lado, fábricas lotadas de mulheres e crianças, jornadas exaustivas, salários miseráveis, greves, adoecimentos, revoltas. De outro, nasce a figura idealizada da “dona de casa” de classe média: frágil, protegida, dependente do marido, encarregada de cuidar do trabalhador e dos futuros cidadãos.
Essa imagem vendida como “natural” nunca foi experiência universal. Enquanto se exaltava o “lar sagrado” nos discursos, milhões de mulheres, sobretudo pobres, negras, racializadas, seguiam limpando, cozinhando, amamentando, costurando, dentro e fora de casas que não eram as suas.
O voto não foi o começo
É justamente nesse contexto que a luta pelo voto feminino ganha corpo. O sufragismo não cai do céu; é o momento em que um incômodo acumulado encontra uma forma política explícita. Mulheres já estavam trabalhando, estudando, circulando, organizando-se muito antes das fotos com faixas e chapéus. O direito ao voto marca, sim, uma virada importante, mas não um começo. É só a parte visível de um iceberg feito de séculos de presença, conflito e participação na vida social.
As feministas materialistas, de modo bem geral, ajudam a enxergar esse fio contínuo com mais nitidez. Elas fazem uma pergunta simples e incômoda: quem produz a riqueza, e em que condições? Quando olham para a história das mulheres, não se contentam com a explicação fácil de “tradição” ou “natureza feminina”.
Chamam atenção para o fato de que a forma como uma sociedade se organiza economicamente: quem planta, quem cuida, quem herda, quem manda, quem limpa, e define também o que se espera de homens e de mulheres. O gênero, nessa chave, não é só um conjunto de costumes; é uma peça importante da engrenagem social.
O trabalho que sustenta o mundo
Quando a gente leva essa lente para o presente, o quadro ganha profundidade. Ao longo do século XX, as mulheres entram em massa no ensino superior, nas profissões qualificadas, nos espaços de decisão. Mas, ao mesmo tempo, continuam responsáveis pela maior parte do trabalho doméstico e de cuidado, quase sempre sem remuneração ou com remunerações mais baixas.
A famosa “múltipla jornada” não é um slogan bonito: é a descrição concreta de um arranjo social em que o tempo feminino segue sendo apropriado, de forma desigual, para manter tudo funcionando.
Quando nos contam que nossa história começa no sufrágio, ou que “agora está tudo resolvido”, o que se apaga é justamente essa longa linha de continuidade. Desde as comunidades mais antigas até a vida urbana hiperconectada, as mulheres estavam presentes como produtoras de alimento, de cuidado, de cultura, de saber.
O que mudou, ao longo dos milênios, foi a forma de enquadrar esse trabalho, de valorizá-lo ou de escondê-lo, de reconhecê-lo como público ou de jogá-lo na gaveta do “privado”. Não brotamos do ralo do sufragismo: persistimos, nos adaptamos, resistimos e reinventamos nosso lugar sempre que o chão histórico mudou de forma.
Apagar para governar
Hoje, vivemos um momento especialmente delicado. Em certos recortes da cultura atual, há uma tendência de dissolver a materialidade feminina em identidades fluídas, como se o corpo biológico, o trabalho reprodutivo e a experiência histórica das mulheres fossem apenas construções discursivas, facilmente descartáveis, quando não ridicularizadas ou apropriadas em estereótipos.
Levado ao extremo, esse movimento corre o risco de apagar justamente o que explica a opressão feminina ao longo dos milênios: o controle sobre o útero, o trabalho não pago, a gestão da vida cotidiana. Não se combate o patriarcado negando a base material que o sustenta. Enfrenta-se isso de frente, com nome e sobrenome, garantindo que os espaços e as pautas das mulheres permaneçam nas mãos de quem vive, no corpo, essas consequências, não como concessão, mas como direito.
Olhar para essa trajetória com uma lente mais material do que mitológica não é luxo acadêmico. É uma forma de recusar a narrativa de que “foi como foi e pronto” e de recolocar as perguntas incômodas no centro: quem cuida de quem, quem paga o preço do progresso, quem tem tempo para o trabalho remunerado, para a política, para o lazer, para o próprio corpo, para os espaços conquistados, para diluição do que é a fêmea na história. E, sobretudo, quem continua sendo tratada como novidade em uma narrativa que, no fundo, sempre foi também nossa.
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