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Perdemos um pênalti. E se fosse uma mulher?

A eliminação masculina expõe como erros individuais ganham pesos diferentes quando quem falha é uma atleta

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O brasileiro é um sujeito de fé inabalável. A cada quatro anos, acredita que agora vai. Compra camisa nova, pinta a rua, faz promessa, briga com o cunhado por causa da escalação e, depois da eliminação, vira especialista em tática europeia no intervalo entre um meme e outro.

Desta vez, nem deu tempo de decorar o caminho até as quartas de final. A Seleção masculina resolveu fazer turismo de Copa e voltou para casa antes que o mata-mata esquentasse. A mala veio cheia de chuteiras, selfies e entrevistas explicando que “o grupo está de cabeça erguida”. Deve ser para enxergar melhor o voo de volta.

Como manda o protocolo nacional, começou a caça às bruxas. A culpa é do técnico. Do atacante. Do gramado. Do calendário. Da altitude. Da umidade. Do alinhamento dos planetas. Nunca da nossa mania de acreditar que camisa pesa mais do que futebol.

No meio de tudo isso, um fato: perdemos um pênalti.

Acontece. Futebol é isso. Os maiores jogadores da história já desperdiçaram cobranças decisivas. Uns levantaram taças depois. Outros voltaram para casa mais cedo. O esporte tem dessas.

Mas experimente fazer um exercício de imaginação. E se quem tivesse perdido aquele pênalti fosse uma mulher?

Será que ouviríamos o mesmo “acontece”? O mesmo “faz parte do jogo”? Ou o erro viraria manchete, meme, piada e, pior, argumento para desqualificar uma modalidade inteira?

Porque é assim que funciona.

Quando um homem falha, ele é um jogador que perdeu um pênalti. Quando uma mulher falha, há sempre alguém disposto a concluir que “mulher não sabe jogar futebol”.

O homem erra sozinho.

A mulher, injustamente, parece condenada a errar por todas.

Aliás, não é só no futebol.

Ainda vivemos num país em que um influenciador, neto do último presidente da ditadura militar, sente-se à vontade para dizer que mulheres — especialmente as solteiras — “votam muito mal”, como se a capacidade política delas dependesse do estado civil ou da tutela de um homem.

No mesmo Brasil, um governador e pré-candidato à Presidência defendeu que apenas os homens beneficiários do Bolsa Família deveriam ser obrigados a concluir os estudos. As mulheres, segundo ele, já teriam “outras atribuições em casa” e filhos para cuidar.

Percebe o padrão?

Quando um homem erra, ele continua sendo um indivíduo. Quando uma mulher erra, o erro vira prova de que ela não deveria estar ali.

É assim na política.

É assim no mercado de trabalho.

É assim no esporte.

E, ironicamente, agora é justamente delas que depende a nossa esperança.

A seleção masculina voltou para casa antes das quartas de final. Quem ainda pode fazer o país sonhar veste a camisa da Seleção Brasileira feminina.

E aí começa o verdadeiro teste da torcida brasileira.

Quero ver o mesmo entusiasmo. Quero ver as ruas pintadas, os bares lotados, as famílias reunidas na frente da televisão.

Quero ver o patrão liberando mais cedo. Quero ver o vizinho supersticioso usando a mesma camisa da sorte. Quero ver o especialista de sofá analisando impedimento, posse de bola e esquema tático com a mesma paixão que dedica aos homens.

Porque apoio não deveria depender do gênero de quem entra em campo.

As mulheres vivem um campeonato que começa muito antes do apito inicial.

Não basta vencer. Precisam convencer.

Não basta jogar bem. Precisam provar que merecem existir.

Precisam justificar audiência, patrocínio, investimento, espaço na televisão e respeito.

Elas treinam mais para receber menos. Enfrentam estruturas menores, menos visibilidade e cobranças infinitamente maiores. E, ainda assim, seguem entregando futebol.

 


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Talvez porque tenham aprendido, desde cedo, que para uma mulher o talento nunca basta.

É preciso excelência, constância, resiliência e uma paciência quase sobre-humana para lidar com quem espera o primeiro tropeço para dizer: “Eu sabia”.

Curiosamente, quando os homens perdem, dizem que “faz parte do futebol”. Quando as mulheres perdem, ainda aparece quem pergunte se futebol feminino deveria existir.

Esse é o jogo mais desigual de todos.

Por isso, agora que a esperança brasileira está nas mãos delas, fica o convite.

Torça.

Torça com a mesma emoção, com a mesma confiança, com o mesmo orgulho e, principalmente, com a mesma generosidade que sempre oferecemos aos homens quando eles falham.

Porque, no fim das contas, o problema nunca foi quem bate o pênalti.

O problema nunca foi quem vota.

O problema nunca foi quem estuda.

O problema sempre foi quem a sociedade considera digno de confiança, de oportunidade e de perdão quando erra.

E, curiosamente, para os homens esse perdão quase sempre vem mais cedo.

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.

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Afonso Abelhão

É sócio e CEO da agência BigBee e presidente da APP Brasil. Com mais de 28 anos de experiência no mercado publicitário, Afonso Abelhão atuou em renomadas agências no Brasil, como Almap/BBDO, AGE e LODUCCA, e também na Peugeot do Brasil. Primeiro profissional de mídia a fundar e comandar uma agência de publicidade independente no país.

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