Passar o microfone: quando diversidade também significa saber ouvir
Representar melhor exige mais do que falar sobre diversidade: é preciso abrir espaço para diferentes vozes participarem da criação e das decisões

Abrir espaço também é parte da conversa: diversidade exige escuta, participação e lugar nas decisões
No sábado, dia 15 de agosto, no Fest’Up Araçatuba, acompanhei um painel em que Rafaela Candido, Kelly Oliveira e Jef Martins falavam e debatiam sobre diversidade, inclusão e representatividade. Em determinado momento, Jef usou uma expressão que me provocou: “passar o microfone”.
No debate, surgiu a questão das pessoas trans e o dado de que sua expectativa de vida no Brasil seria de apenas 35 anos. É um número que assusta e que precisa ser compreendido dentro de sua origem e metodologia, mas a realidade que ele procura retratar não pode ser ignorada. Estamos falando de pessoas que ainda convivem com violência, preconceito, exclusão e enormes dificuldades de acesso ao mercado de trabalho.
Mas uma questão daquele debate ficou particularmente comigo: quantas vezes nós, mesmo com a melhor das intenções, queremos falar pelo outro?
Na propaganda fazemos isso o tempo todo. Buscamos entender públicos, comportamentos, desejos, dores e diferenças e transformamos tudo em pesquisa, briefing, planejamento, personas e campanhas. Faz parte do nosso trabalho. O problema começa quando imaginamos que estudar a vivência do outro nos permite falar como se aquela experiência também fosse nossa. Não é.
Espaço para falar
É aí que entra o “passar o microfone”. Em vez de apenas interpretar a realidade dessas pessoas, precisamos abrir espaço para que elas tragam seus próprios olhares, suas experiências e suas vivências.
Não gosto muito da expressão “dar voz”, porque ninguém precisa que a gente dê uma voz que já existe. O que muitas vezes falta é espaço para falar e, principalmente, disposição de quem está do outro lado para ouvir.
Isso vale para pessoas trans, mulheres, negros, pessoas com deficiência e tantos outros grupos que, durante muito tempo, foram muito mais retratados pela propaganda do que participantes da construção dessa propaganda. E não estou falando apenas de quem aparece na frente das câmeras. Estou falando de quem cria, atende, planeja, produz, aprova, lidera e decide.
Quem está na sala?
Se queremos uma propaganda que represente melhor a sociedade brasileira, precisamos ter mais da sociedade brasileira dentro das nossas agências, produtoras e empresas.
Isso não é apenas uma questão de inclusão. É também repertório e negócio. Pessoas com experiências diferentes enxergam coisas diferentes e podem nos ajudar a evitar aquela pergunta que aparece depois de algumas campanhas: “Como ninguém percebeu isso antes?”
Talvez ninguém tenha percebido porque todo mundo naquela sala enxergava o mundo mais ou menos do mesmo lugar.
Foi uma das boas provocações que trouxe do Fest’Up Araçatuba. Talvez diversidade seja menos sobre falar em nome de alguém e muito mais sobre criar condições para que diferentes pessoas estejam na conversa, participem das decisões e tragam seus próprios olhares.
E, para isso, precisamos também aprender a hora de passar o microfone.
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