Eu estava completamente errada…
Às vezes, só descobrimos que carregamos uma crença limitante quando encontramos alguém que prova que ela não era verdadeira
Recentemente, assisti a um vídeo que trazia uma reflexão de Carl Jung que ficou ecoando na minha cabeça por dias. Ele dizia que aquilo que mais nos incomoda nos outros pode revelar algo sobre nós mesmos.
Confesso que, na hora, pensei: “Lá vem aquela frase que todo mundo repete”. Mas, quanto mais eu refletia sobre ela, mais percebi que talvez eu nunca tivesse realmente entendido o que isso significava.
Porque não estou falando daquela pessoa grosseira, desrespeitosa ou difícil de conviver. Essas existem, e reconhecer isso também faz parte da vida.
Estou falando daquela mulher que, sem ter feito absolutamente nada contra você, desperta um desconforto difícil de explicar. Ela fala das próprias conquistas com naturalidade. Ela diz “não” sem culpa. Ela ocupa espaço. Ela parece não pedir permissão para ser quem é. E, por algum motivo, aquilo mexe com você.
Há alguns anos, trabalhei com uma mulher que ocupava um cargo muito parecido com o meu. Enquanto construía uma carreira sólida no mundo corporativo, ela também produzia conteúdo nas redes sociais.
Falava de moda, lifestyle, viagens… Assuntos que, na minha cabeça, não tinham absolutamente nada a ver com o trabalho. Lembro de pensar: “Será que isso não atrapalha a credibilidade dela?”.
Eu realmente acreditava que, para ser levada a sério no ambiente corporativo, uma mulher precisava separar completamente a vida profissional da vida pessoal. Existia uma espécie de manual invisível que dizia como uma profissional deveria se comportar para ser respeitada. Na minha lógica, aquelas duas versões não combinavam.
O tempo passou. E aconteceu exatamente o contrário do que eu imaginava. Ela não perdeu autoridade. Não deixou de ser respeitada. Não prejudicou a carreira. Pelo contrário. Conseguiu construir uma marca pessoal tão forte que uma trajetória passou a impulsionar a outra.
O trabalho fortaleceu a presença digital.
A presença digital fortaleceu a carreira.
E ela fez isso de uma forma tão autêntica que nunca deixou de ser admirada por quem trabalhava com ela.
Foi aí que percebi uma coisa que me deixou um pouco sem graça. Talvez eu nunca tivesse julgado o trabalho dela. Talvez eu estivesse apenas protegendo uma crença que eu carregava havia anos. A crença de que eu também gostaria de construir algo além do crachá, mas não me sentia autorizada a fazer isso.
Hoje consigo admitir, sem constrangimento, que o sentimento nunca foi julgamento. Era admiração.
E, se eu for completamente honesta, também era um desejo silencioso de encontrar uma forma de fazer o mesmo.
Essa percepção me fez entender a reflexão de Jung de um jeito completamente diferente. Talvez nem sempre o outro nos incomode por causa dele. Às vezes, ele apenas desafia uma regra que aprendemos a seguir sem nunca questioná-la. E nós, mulheres, crescemos cercadas por muitas delas.
Que não devemos parecer ambiciosas demais.
Que falar sobre as próprias conquistas é falta de humildade.
Que ocupar espaço pode soar arrogante.
Que, para sermos levadas a sério, precisamos caber em uma única versão de nós mesmas.
Quantas dessas regras ainda carregamos sem perceber? O filósofo Friedrich Nietzsche escreveu que, muitas vezes, não criticamos aquilo que é errado. Criticamos aquilo que ameaça a forma como enxergamos o mundo.
E acho que essa ideia conversa muito com a nossa vida. Porque, às vezes, aquela mulher que parece “exagerada” só está fazendo algo que nós nunca nos permitimos fazer.
Isso não significa que toda crítica seja inveja. Nem que toda pessoa que nos incomoda esteja certa. Significa apenas que vale a pena fazer uma pausa antes de concluir que o problema está nela.
Hoje, quando alguém desperta uma reação muito forte em mim, tento fazer um exercício simples. Primeiro, me pergunto: o que exatamente essa pessoa fez? Depois, tento separar o fato da história que eu comecei a contar na minha cabeça.
E, por fim, faço três perguntas:
- Ela está fazendo algo que eu gostaria de me permitir fazer?
- Ela está desafiando alguma crença que eu sempre considerei uma verdade?
- Existe alguma liberdade nela que eu ainda não encontrei em mim?
Nem sempre a resposta é “sim”. Mas, quando é, ela costuma ensinar muito mais sobre mim do que sobre a outra pessoa.
Hoje acredito que algumas pessoas entram na nossa vida como espelhos. Não porque sejam perfeitas. Nem porque devamos ser iguais a elas. Mas porque ampliam aquilo que acreditávamos ser possível.
E talvez esse seja um dos maiores presentes dos encontros. Eles não revelam apenas quem o outro é. Revelam, aos poucos, quem nós também podemos nos tornar.
As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.





