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Como sobreviver ao século antissocial

Trabalho remoto, delivery e telas nos ajudam a evitar o contato; o problema é que carreira nenhuma se constrói inteiramente sozinha

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A expressão, até onde eu sei, foi criada pelo jornalista Derek Thompson, em um artigo para a revista The Atlantic de 2025. Thompson é conhecido por várias obras sobre interação na sociedade contemporânea, incluindo o best-seller Hit Makers – Como se dar bem na era da distração.

A ideia parece ter surgido quando Thompson leu o estudo de Enghin Atalay, economista do FED (o Banco Central norte-americano): Século 21 – o século da solitude?.

O termo em inglês se refere ao estado de estar sozinho, em contraposição a “loneliness”, que é a situação indesejada, a falta que causa sofrimento – a nossa “solidão” brasileira. Todos os dados mencionados se referem aos EUA, mas desconfio que no Brasil (e em outros países) não tenha sido muito diferente.

O século 20 foi o século da interação social. De 1900 a 1960, várias formas de socialização se desenvolveram demais: a frequência a igrejas; a matrícula em sindicatos; a inscrição em vários grupos, como clubes de leitura, clubes esportivos e grupos de atividades ao ar livre (tipo escoteiros); o número de casamentos explodiu, assim como de nascimentos; ações governamentais e também comunitárias fizeram nascer locais de convivência, como parques, centros comunitários, casas de show, estádios esportivos.

A onda começou a virar nos anos 1970, e a culpa seria de dois artefatos massificados naquela década: o automóvel e a televisão. O carro fez as pessoas habitarem subúrbios distantes, e esvaziou os centros urbanos; a TV aumentou a vontade de ficar em casa. Recentemente a tendência se acentuou: de 2003 a 2019, a parcela do tempo livre que os norte-americanos passavam sozinhos subiu de 43,5% para 48,7%. Em 2020, já passava da metade: 50,7%. Estamos no século antissocial.

Fechados para balanço

Não é como se esse tempo maior de isolamento fosse imposto. Ao serem perguntadas, as pessoas garantem tratar-se de preferência – elas preferem ficar em casa com a família que conhecer gente nova, preferem o automóvel ao transporte público, preferem a reunião por Zoom à reunião presencial, preferem o home office ao escritório. Mas, como todo mundo sabe, muitas vezes a gente escolhe o que não faz bem, e várias pesquisas mostram isso de forma clara.

Uma investigação de psicólogos da Universidade de Chicago perguntava a passageiros que usavam o trem para ir ao trabalho se uma viagem conversando com estranhos seria mais ou menos agradável – a grande maioria afirmou que preferia ficar na sua e fazer o trajeto sem falar com ninguém.

Depois a equipe pediu a parte dos viajantes que fizesse o trajeto em silêncio e a outra parte que puxasse papo com estranhos, quanto mais tempo melhor.

O experimento durou alguns dias, e ao final os pesquisadores perguntaram sobre o nível de satisfação: apesar da previsão de que a viagem em silêncio seria mais prazerosa, quem fez o esforço de conversar com os vizinhos de assento declarou que gostou mais da viagem – muito mais.

O estudo foi refeito várias vezes, com pequenas variações. Um exemplo: pesquisadores da Universidade da Califórnia – Riverside juntaram um grupo de estudantes e pediram que se comportassem por uma semana como “extrovertidos”: eles e elas deveriam ser mais assertivos, espontâneos, mostrar as emoções e passar mais tempo em grupo.

Na semana seguinte as pessoas deveriam se comportar como “introvertidas”: ser mais quietas, mais reservadas, passar mais tempo sozinhas e se dedicar mais a atividades introspectivas. Os participantes relataram ter sentido mais emoções positivas ao final da semana extrovertida, e mais emoções negativas ao final da semana introvertida.

Modo avião

A economia moderna, baseada no trabalho remoto via Zoom, no delivery de comida e no e-commerce, todos cravados numa dependência absurda de telas, está nos transformando em agorafóbicos – temos ódio e nojo de sair de casa, de compartilhar espaços comuns, de conhecer gente nova.

E essa aversão a contato tem impactos profissionais profundos. Afinal, precisamos dos outros não só para entregar o trabalho (cada vez existem menos atividades que um indivíduo cuide sozinho do começo ao final), como também para nos ajudar nas transições entre uma atividade remunerada e outra.

Fora da bolha

A boa notícia: as pesquisas mostram que, assim como estamos sendo manipulados para nos fecharmos na nossa concha, também podemos ser manipulados no sentido oposto. Criado um ambiente que incentive sair de casa, estar mais aberto a conversas com estranhos, mostrar as emoções e passar mais tempo em grupo, a gente topa. E, inclusive, curte.

Esses incentivos, infelizmente, já não vêm de fora. Poucas empresas oferecem um espaço de trabalho a semana inteira (ainda que algumas poucas obriguem). Happy hours estão raros. A firma faz uma festa anual, e olha lá.

Existem raríssimas oportunidades de encontrar profissionalmente gente que faz o que a gente faz – existem eventos, mas são caros ou voltados para lideranças, não para quem está começando e precisa criar uma rede de relações profissionais. E quem você conhece que frequenta um sindicato? No máximo fazemos grupinhos de zap – e isso aí em termos de ajudar a desenvolver relações ricas e proveitosas é zero. À esquerda.

Manual da rebelião

O único jeito de sobreviver – e se dar bem profissionalmente – no século antissocial é se rebelar. Mas não precisa fazer como aquela moça do filme “Uma Batalha Após a Outra” e sair por aí com uma metralhadora numa mão e uma granada na outra. Vou tentar ajudar com algumas ideias.

1. Puxe conversa

Muitas vezes a gente acha que os outros não estão interessados em se conectar, que vão interpretar nossa tentativa de aproximação como invasão ou estorvo. Isso acontece, mas não muito: a lei da reciprocidade é muito importante nas relações humanas. Basta você perguntar “como vai?” para um estranho para descobrir que a maioria vai responder “tudo bem” e ainda retrucar: “E você?”

2. Hay grupo, estoy dentro

Especialmente se esse grupo se encontrar pessoalmente, ainda que às vezes. Grupinho de zap não gera relação consistente, no máximo a gente se irrita, arruma uma briga e arruína a relação. Mas grupo de verdade, desses que de vez em quando faz um happy, vai num jogo, organiza um churras, esses valem a pena.

3. Diminua o tempo de tela

Existem estantes e mais estantes de livros sobre a relação entre saúde mental, produtividade profissional e tempo de tela. Por que a gente fica insistindo? Talvez a gente seja obrigado a bater ponto no LinkedIn, por temas profissionais. O resto dá pra diminuir, ou até desinstalar.

4. Nunca almoce sozinho

Você não tem que almoçar todo dia? Chame alguém – não espere que as pessoas te chamem. Meu amigo Ricardo precisava desenvolver sua rede e não podia gastar muito, então convidava para jantar em duas ou três pizzarias de bairro que ele conhecia. Cinquenta contos por cabeça, incluindo os chopes e a gorjeta, e era uma noite sozinho a menos.

5. Exercite a generosidade

Não estou falando em dar alguma coisa tendo em vista o que vamos receber em troca – isso não é generosidade. A gente ajuda porque a generosidade faz da gente pessoas melhores, e são as pessoas melhores que têm mais amigos. Proximidade com gente ruim tem nome: chama relação abusiva.

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.

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Foto de Enor Paiano

Enor Paiano

Pioneiro da internet brasileira e experiente gestor de equipes de vendas, dirige a MidiaBizz, consultoria de RH focada no mercado de mídia.

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