A maternidade me transformou — e quase me fez desaparecer
Em sua coluna de estreia, Raquel Poiano reflete sobre a maternidade, a perda de identidade, os desafios profissionais e a força das redes de apoio
A maternidade não tem volta.
Essa foi a frase que escutei da minha terapeuta durante uma sessão. Isso me atordoou por dias, até que resolvi parar e escrever sobre isso.
A maternidade é um abismo tão grande que eu me perdi por completo e ainda não me achei. São muitas as questões que envolvem esse “se perder”, e estou certa em dizer que para mim aconteceu em tudo. Me perdi mentalmente, emocionalmente, psicologicamente e profissionalmente.
Quando chega a maternidade, ela te transborda, mas também te assombra. Perdi o controle total da minha vida, do meu casamento, das minhas necessidades e do meu trabalho.
Ainda durante a gravidez, fui diversas vezes rejeitada por estar grávida, e depois do nascimento do Mallik, tudo ficou ainda mais difícil. As negativas só foram aumentando e a frustração também.
A sensação de impotência é tão absurda que chega a ser constrangedora. Daí vem a ideia de que nada mais faz sentido, mas você tem um ser humano que depende 24 horas de você, para absolutamente tudo.
Como manter a sanidade mental e psicológica se basicamente tudo se resume à frustração e impotência?
A verdade é que o mercado de trabalho pune a mãe antes mesmo de ela tentar voltar. Existe um muro invisível que diz que, agora que temos um filho, nossa capacidade intelectual, nosso foco e nossa ambição sumiram.

A falta de perspectiva sufoca. Você envia currículos, faz entrevistas e sente o julgamento silencioso a cada menção à rotina com uma criança. É um ciclo que tenta nos convencer de que não há mais espaço para nós no mundo profissional.
Mas o caos não dura para sempre. Eu sobrevivi a ele.
Quando parecia que as portas estavam definitivamente trancadas, a engrenagem mudou. Algumas mulheres, movidas por uma empatia real e pela compreensão da nossa potência, decidiram abrir caminhos para mim. Elas olharam além do estereótipo e enxergaram a profissional que eu continuava sendo.
Hoje, ocupo o cargo de Head de Comunicação do coletivo Misses at Work. Essa virada me mostrou que, embora o cenário geral ainda seja duro, existem redes que acolhem e impulsionam.
Obrigada Cathy, Dani, Kika e Danae por me acolherem e me apoiarem em um momento tão instável, dolorido e cheio de incertezas.
A maternidade transforma, desestrutura e assusta, mas também nos conecta a quem entende que o nosso valor só aumenta com a bagagem que carregamos.


