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O que aprendi sobre autenticidade no trabalho

Em sua coluna de estreia, Maria Renda compartilha como descobriu que defender suas ideias não exige abrir mão da própria essência

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Prazer, sou Maria Renda. Mais conhecida como Renda.

Trabalho com marketing há mais de duas décadas. Ao longo da minha trajetória, passei por diferentes empresas, mercados e desafios, acumulando conquistas, erros, aprendizados e algumas boas cicatrizes pelo caminho.

Acredito que carreiras extraordinárias não são construídas apenas por títulos ou resultados, mas também pelas escolhas que fazemos, pelas conversas difíceis que enfrentamos e pela coragem de sermos quem realmente somos.

Recebi com muita alegria o convite para escrever esta coluna quinzenal no Misses at News. Espero que este espaço seja um encontro entre mulheres que desejam crescer profissionalmente sem abrir mão da própria essência.

E, para nossa primeira conversa, quero falar justamente sobre isso.

Onde tudo começou

Durante muitos anos ouvi a mesma frase: “Você é muito autêntica”. Curiosamente, ela quase nunca vinha como um elogio. Na maior parte das vezes, era uma forma elegante de dizer que eu era direta demais, intensa demais ou difícil de lidar.

Levei tempo para entender isso. Mais tempo ainda para perceber que autenticidade, sozinha, não resolve tudo.

Tenho 42 anos e passei praticamente toda a vida trabalhando. Meu primeiro emprego foi aos 14 anos, em uma lanchonete chamada Baked Potato, dentro de um shopping em Boca Raton, na Flórida. Eu anotava pedidos, assava batatas e passava troco. Nada glamouroso. Era só uma adolescente querendo aprender e ganhar o próprio dinheiro.

Um ano antes, eu havia chegado aos Estados Unidos vinda do Nordeste. Falava pouco mais do que please e thank you. O resto eu tentava adivinhar.


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No meu primeiro dia em uma escola americana, levei um tapa no rosto na parada do ônibus. Foi meu comitê de boas-vindas.

Hoje consigo contar essa história com certo humor. Na época, não teve graça nenhuma.

Foi ali que comecei a construir uma armadura. Aprendi rapidamente que não podia demonstrar fragilidade. Passei a responder antes de ser atacada, a desconfiar das pessoas e a acreditar que vulnerabilidade era um luxo que eu não podia me permitir.

Durante muito tempo, esse jeito de sobreviver também foi meu jeito de trabalhar.

Eu dizia exatamente o que pensava. Defendia minhas ideias com unhas e dentes. Comprava brigas quando acreditava que algo estava errado. Se precisasse escolher entre ser sincera ou ser conveniente, a sinceridade sempre vencia.

Na minha cabeça, aquilo era integridade. Hoje sei que, muitas vezes, também era falta de habilidade.

Autenticidade também se aprende

Com os anos, vieram as promoções, algumas demissões, muitos acertos, erros memoráveis, terapia, coaching e uma boa dose de autoconhecimento.

Aos poucos, comecei a perceber que existia uma diferença importante entre falar a verdade e conseguir fazer com que ela fosse ouvida.

Foi quando a palavra “política” ganhou um novo significado para mim.

Durante muito tempo, eu associava política à falsidade. Achava que pessoas políticas eram aquelas que agradavam todo mundo, mudavam de opinião conforme a plateia ou escondiam o que realmente pensavam.

Hoje penso exatamente o contrário. Ser política não é deixar de ser quem você é. É entender que a forma como uma mensagem é dita pode ser tão importante quanto a própria mensagem. É perceber que firmeza não precisa vir acompanhada de dureza.

É saber ler o ambiente antes de abrir a boca. É escolher o momento certo para uma conversa difícil. É defender uma ideia sem transformar quem pensa diferente em adversário.

Demorei muitos anos para compreender isso. E, para ser sincera, ainda estou aprendendo. Ainda erro.

Tem dias em que acho que fui apenas objetiva e descubro que pareci dura. Em outros, escolho as palavras com tanto cuidado que saio de uma reunião pensando se poderia ter sido mais firme.

Talvez esse seja o preço de amadurecer. A gente percebe que quase nada é tão simples quanto parecia aos 20 anos.

Hoje continuo valorizando a autenticidade, mas já não a confundo com impulsividade. Aprendi que sinceridade não exige brutalidade. E que gentileza não é sinônimo de submissão.

Comunicar não é renunciar

Existe uma diferença enorme entre adaptar a forma de comunicar uma ideia e abrir mão dela. A primeira é maturidade. A segunda é renúncia. Demorei muitos anos para entender essa diferença.

Passei boa parte da vida acreditando que, para ser fiel a mim mesma, eu precisava dizer exatamente o que pensava, do jeito que pensava e no momento em que pensava. Hoje sei que não.

Continuo defendendo minhas convicções. Continuo sendo uma mulher intensa, direta e apaixonada pelo que faz. Mas descobri que, quando aprendemos a ouvir antes de responder e a compreender antes de convencer, nossa voz ganha muito mais força.

No fim das contas, autenticidade não é falar tudo o que passa pela cabeça.

É conseguir atravessar os anos, as empresas, os cargos, as conquistas e as decepções sem perder aquilo que faz de você, você.

O mercado vai tentar enquadrar você. Algumas pessoas vão achar que você fala demais. Outras, que fala de menos. Haverá quem considere você intensa, difícil, sensível, exigente ou ambiciosa demais.

Tudo bem. As opiniões mudam conforme a sala. A essência não deveria mudar.

Não existe uma fórmula para construir uma carreira, um negócio ou uma vida. Cada mulher faz escolhas diferentes e paga preços diferentes por elas.

Mas existe uma decisão que, para mim, nunca mais esteve em negociação. Prefiro aprender a me comunicar melhor do que aprender a ser outra pessoa.

Essa é a mulher que ainda estou me tornando. E, sinceramente, espero nunca terminar essa construção.

 


Maria Renda também produz conteúdos sobre carreira, liderança e empreendedorismo no podcast “Se Renda” e em seu perfil no Instagram.

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.

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Maria Renda

Especialista em branding, marketing e comunicação, tem mais de duas décadas de experiência à frente de estratégias para marcas como Azzas 2154/Schutz, Levi's Europe, Iguatemi e ViX Paula Hermany. Ao longo da carreira, liderou projetos no Brasil, Europa e Estados Unidos, sempre com foco em posicionamento de marca, inovação e crescimento dos negócios. Também apresenta o podcast Se-Renda, dedicado a carreira e educação financeira.

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