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Custo mulher: elas trabalham mais, ganham menos e pagam a conta duas vezes

Estudo da Think Eva/Think Olga mostra como salários menores, sobrecarga de cuidado e crédito desigual limitam a construção de patrimônio feminino

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Por que as mulheres trabalham, empreendem e movimentam cada vez mais a economia, mas continuam com menos renda, menos patrimônio e menos acesso a crédito?

Essa é a pergunta que norteia o estudo “Elas Pagam a Conta — Mulheres, dinheiro e a conta que não fecha”, desenvolvido pela Think Eva e pela Think Olga. O levantamento reúne dados, referências históricas e entrevistas para mostrar que a relação das mulheres com o dinheiro não pode ser explicada apenas por escolhas pessoais, falta de planejamento ou pouco conhecimento sobre investimentos.

Nas últimas décadas, a presença feminina no mercado de trabalho avançou de forma significativa. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho e do G20 citados no estudo, a taxa de participação das mulheres passou de 34,8% em 1990 para 53% em 2023.

O empreendedorismo também cresceu. Em 2025, o Brasil ultrapassou a marca de 10 milhões de donas de negócio, de acordo com o Sebrae. Ainda assim, ocupar mais espaço na economia não tem significado participar dela em condições iguais — nem transformar trabalho em segurança financeira na mesma proporção.

É para essa distância entre produzir riqueza e conseguir acumulá-la que o estudo chama atenção.

A conta começa na renda

O chamado “custo mulher” costuma ser associado à taxa rosa, nome dado à diferença de preço entre produtos femininos e masculinos semelhantes. No Brasil, itens destinados às mulheres podem custar, em média, 12,3% mais do que seus equivalentes masculinos.

Mas o custo descrito pela pesquisa é muito mais amplo, e vai além de pagar mais caro por uma lâmina de barbear, um xampu ou uma mochila rosa.

Ele começa no dinheiro que não entra.

Mulheres recebem, em média, 21% menos do que os homens, segundo o Relatório de Transparência Salarial. A diferença reduz a capacidade de pagar as despesas atuais, mas também produz efeitos que se acumulam ao longo da vida: menos reserva para emergências, menos contribuições previdenciárias, menos recursos para investir e menor possibilidade de adquirir imóveis ou outros ativos.

A desigualdade é ainda mais profunda para mulheres negras. Dados reunidos pelo estudo mostram que 30,4% das mulheres pretas e pardas vivem em situação de pobreza e 4,5%, em extrema pobreza. Entre os homens brancos, os percentuais caem para 14,7% e 2,2%, respectivamente.

 


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O levantamento também aponta que uma em cada quatro mulheres no Brasil vive com menos de US$ 6 por dia, com base em dados do Banco Mundial e do IBGE. O número ajuda a colocar a discussão sobre educação financeira em perspectiva: para uma parcela expressiva da população feminina, a questão não é escolher entre poupar e consumir, mas fazer a renda chegar ao fim do mês.

O tempo que não sobra

A entrada das mulheres no mercado profissional não foi acompanhada por uma redistribuição equivalente do trabalho doméstico e de cuidado.

Elas realizam 76% das horas de cuidado não remunerado, segundo dados reunidos pelo estudo. Quando se somam o trabalho pago e o não pago, a jornada feminina chega a 58,1 horas semanais, diante de 50,3 horas entre os homens.

A diferença não aparece apenas no cansaço ou na falta de tempo. Ela interfere na possibilidade de aceitar jornadas maiores, disputar cargos de liderança, buscar qualificação, administrar um negócio e cuidar do próprio dinheiro. Cria-se assim o que o estudo descreve como pobreza de tempo.

A maternidade torna essa penalização ainda mais evidente. O nascimento do primeiro filho pode reduzir em até 24% o salário de uma mulher. Entre mães de três filhos ou mais, a perda chega a quase 40% na comparação com mulheres sem filhos.

O trabalho de cuidado sustenta famílias e permite que outras pessoas exerçam atividades remuneradas, mas raramente produz renda, proteção previdenciária ou patrimônio para quem o realiza. A desigualdade não está apenas no valor pago por uma hora de trabalho. Está também nas horas oferecidas gratuitamente antes, durante e depois do expediente.

Crédito para gastar

Existe ainda uma contradição na forma como o mercado se relaciona com o dinheiro feminino.

Mulheres são estimuladas a consumir continuamente. A pressão começa cedo e atravessa roupas, beleza, juventude, magreza, maternidade, organização da casa e cuidado com a família. A adequação a padrões estéticos e sociais tem custos financeiros, profissionais e emocionais.

Ao mesmo tempo, os gastos femininos costumam ser descritos como impulsivos, fúteis ou descontrolados. O consumo é incentivado e, depois, usado como argumento para questionar a capacidade das mulheres de administrar o próprio dinheiro.

Essa lógica também aparece no crédito. Para o consumo imediato, há cartões, carnês, parcelamentos e empréstimos com juros altos. Para expandir um negócio, investir ou construir patrimônio, as condições são mais restritivas.

Segundo os dados apresentados pela Think Eva, 47% das empreendedoras relatam dificuldades para obter crédito e 85% já tiveram algum pedido negado. Quando conseguem financiamento, a taxa média contratada por mulheres chega a 40,6% ao ano, diante de 36,8% entre donos de pequenos negócios em geral.

O tratamento desigual é particularmente contraditório porque as mulheres costumam apresentar bom histórico de pagamento. Elas são vistas como clientes confiáveis para assumir dívidas de consumo, mas não necessariamente como destinatárias de capital capaz de fazer seus negócios crescerem.

Enquanto o crédito oferecido aos homens aparece com maior frequência associado à expansão, ao investimento e à aquisição de ativos, o destinado às mulheres tende a financiar a sobrevivência cotidiana ou o consumo.

Negócios sem capital

O avanço do empreendedorismo feminino poderia ampliar renda, independência e mobilidade social. Em muitos casos, porém, o negócio próprio surge também como resposta à exclusão do emprego formal, à necessidade de horários flexíveis ou à falta de uma rede pública e privada de cuidado.

Isso significa que a mesma mulher administra a empresa, atende clientes, organiza as contas e continua responsável por grande parte do trabalho doméstico.

Sem acesso adequado a crédito, capital de giro, redes de contato e tempo para desenvolver o negócio, muitas empreendedoras permanecem concentradas em atividades menores, informais ou com baixa capacidade de expansão.

O empreendedorismo pode produzir autonomia, mas não elimina automaticamente as desigualdades que levaram tantas mulheres a empreender. Quando é tratado como solução individual para um problema estrutural, corre-se o risco de transferir para elas mais uma responsabilidade: superar sozinhas barreiras criadas pelo próprio mercado.

Infográfico sobre o custo mulher

Dinheiro também é poder

O estudo chama atenção ainda para a dimensão subjetiva dessa desigualdade.

Mulheres são socializadas para cuidar dos outros, não para priorizar a própria segurança financeira. Gastar com filhos, parceiros ou com a casa tende a ser visto como responsabilidade. Usar dinheiro consigo mesma pode despertar culpa.

A ambição financeira feminina também costuma ser julgada com mais rigor. Falar sobre dinheiro, negociar salário, desejar enriquecer ou assumir riscos pode gerar desconforto em um ambiente que, historicamente, associou provisão e patrimônio ao universo masculino.

Até 1962, brasileiras casadas dependiam da autorização do marido para trabalhar e administrar determinados bens. Antes disso, o acesso feminino à educação formal — especialmente ao ensino de matemática — também foi limitado. A legislação mudou, mas comportamentos e instituições não se transformam na mesma velocidade.

Por isso, a falta de familiaridade ou de segurança diante do dinheiro não deve ser tratada como incapacidade natural. Durante gerações, as mulheres foram afastadas das decisões financeiras, tiveram seu trabalho desvalorizado e foram ensinadas a delegar a gestão do patrimônio aos homens.

Educação financeira não basta

Ampliar o acesso à educação financeira é necessário. Entender juros, orçamento, previdência e investimentos aumenta a capacidade de tomar decisões e reduz a dependência de parceiros, familiares ou intermediários.

Mas ensinar mulheres a investir não corrige uma diferença salarial de 21%. Não cria tempo para quem concentra o trabalho de cuidado. Não oferece garantias a uma empreendedora que precisa de crédito. Tampouco produz patrimônio para quem utiliza quase toda a renda em despesas básicas.

Sem mudanças na remuneração, na divisão do cuidado, no acesso ao crédito e nas políticas de proteção social, a educação financeira corre o risco de apresentar um problema coletivo como uma falha de comportamento individual.

As mulheres já trabalham, administram casas, sustentam famílias, abrem empresas e movimentam parte expressiva do consumo. O que continua desigual é a possibilidade de converter todo esse trabalho em renda disponível, ativos e segurança para o futuro.

Não se trata apenas de ensinar mulheres a fazer escolhas melhores com o dinheiro que possuem. É preciso discutir por que, apesar de produzirem tanto, tão pouco permanece com elas.




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Danae Stephan

Editora, produtora, leitora compulsiva e inimiga do lugar-comum há mais de 30 anos. Hoje à frente do "Misses at News", já passou por "Folha de S.Paulo", Editora Abril, Editora Globo, "UOL" e "Glamurama", entre outros.

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