Dez mil horas de dedicação não levam a lugar nenhum se você estiver sozinho
Dedicação importa, mas excelência também depende de referências, oportunidades e pessoas dispostas a ensinar, apoiar e incentivar
Em “Fora de Série”, Malcolm Gladwell defende que, para alcançar a excelência em quase qualquer atividade, é preciso dedicar cerca de 10 mil horas àquele ofício. Seus exemplos incluem jogadores de hóquei do Canadá, os Beatles e Bill Gates, entre outros.
Batalhe, não titubeie, não desista, não perca o foco, nunca abra mão do seu sonho. Gurus, coaches e mentores de internet baseiam seus “métodos” em variações desse conceito.
Nossa sociedade cultua o menino prodígio, o gênio autossuficiente, o líder independente, o pensador de Rodin em sua meditação soberba. É uma mensagem tão repetida — ou tão batida — que a gente nem percebe que se trata de uma construção.
Quer ver um exemplo? Nas transmissões da Copa do Mundo de 2026, o foco recai sobre os “protagonistas”. Não existe Noruega, existe Haaland. Não existe Inglaterra, existe Kane. Não existe Espanha, existe Lamine Yamal. Ninguém contou para esses “especialistas” que esporte coletivo se vence na base da tática?
O trabalho duro e focado é necessário, sim. Mas normalmente não se trata de um sujeito trancado numa caverna, sem conversar, sem trocar, sem receber nem oferecer ajuda.
Por trás das horas
Vou usar como exemplo André Agassi. Sabemos, por sua autobiografia, que seu pai, um ex-boxeador iraniano que pediu asilo nos Estados Unidos, era fanático por tênis. Construiu uma quadra na casa da família, em Las Vegas, e fazia os filhos — Agassi, o irmão e a irmã — rebaterem milhares de bolinhas todos os dias, lançadas por uma engenhoca que ele mesmo inventou.
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Agassi odiava o instrumento e o apelidou de “dragão”.
Graças à dedicação — doentia, é verdade — do pai, Agassi rapidamente virou uma estrela do tênis infantil. Aos 14 anos, foi enviado para a academia de Nick Bollettieri, uma das primeiras do gênero nos Estados Unidos, onde treinava o dia inteiro sob a orientação de um grande especialista.
Quando se profissionalizou, aos 17 anos, André Agassi provavelmente já havia treinado perto de 10 mil horas. Mas, sem esses dois personagens fundamentais, as horas de dedicação talvez não tivessem produzido o mesmo resultado.
A visão de Adam Grant, no livro “Potencial oculto”, parece-me mais fiel à realidade:
“Em momentos difíceis, somos aconselhados a nos virar sozinhos. A mensagem é que precisamos olhar para dentro de nós e encontrar reservas ocultas de confiança e conhecimento. Mas é olhando para fora, para buscar recursos externos com os outros e para os outros, que descobrimos e desenvolvemos o nosso potencial oculto.”
Quando analisamos com cuidado, muitas grandes conquistas nas artes, nas ciências, na sociedade e até nos esportes individuais, tratadas como feitos de algum super-homem ou mulher-maravilha, são, na verdade, trabalhos coletivos. Mesmo que, na hora H, lá dentro das quatro linhas, a gente esteja sozinho.
Um sonho emprestado
Vou dar outro exemplo, este da vida de Arnold Schwarzenegger.
Na Áustria do início dos anos 1960, o jovem Arnold percebeu que sujeitos musculosos faziam sucesso com as garotas. Começou a malhar e encontrou, na academia, uma revista com o halterofilista britânico Reg Park — que Schwarzenegger já admirava desde que o vira no cinema, estrelando uma produção italiana de Hércules.
O jovem Arnold pediu que lhe traduzissem a reportagem e a decorou. Naquele dia, aos 15 anos, fez o plano de sua vida inteira: o fisiculturismo o levaria aos Estados Unidos, de lá para Hollywood e, depois, para o estrelato.
“Eu refinei essa visão até que ela ficasse bem específica. Eu ia buscar o título de Mr. Universo; eu ia quebrar recordes em levantamento de peso; eu ia para Hollywood; eu seria como Reg Park. A visão se tornou tão clara na minha cabeça que eu sentia que ela tinha que se tornar realidade. Não havia alternativa — era isso ou nada.”
Mais tarde, já despontando no esporte, Schwarzenegger foi apresentado a Park, e os dois fizeram algumas apresentações juntos. Divertido com aquela ambição absurda, Park prometeu que, se o jovem vencesse a maior competição de fisiculturismo da Europa, mandaria uma passagem para Arnold visitá-lo na África do Sul, onde morava.
Poucos meses depois, Schwarzenegger, vitorioso, mandou um telegrama:
“Ganhei ponto quando embarco interrogação.”
Malcolm Gladwell não cita a história de Schwarzenegger, mas poderia. Fazendo alguns cálculos com a autobiografia “Total Recall” em mãos, avalio que ele tinha perto de 10 mil horas de treino quando começou a ganhar os principais prêmios do fisiculturismo.
Mas essas horas vieram depois — e como consequência — de Park ter fornecido um exemplo. Ou melhor, um sonho.
Reg Park, mesmo sem saber, apresentou esse sonho. Daí veio o combustível para Schwarzenegger passar 10 mil horas levantando pesos.
Ninguém chega só
Resumindo meu ponto: as 10 mil horas de dedicação fazem parte do processo. Mas, sem um sonho, dificilmente conseguimos cumpri-las. E, sem gente ao nosso lado incentivando, ensinando, dando exemplo e puxando nossa orelha, fica muito mais difícil alcançar a excelência.
Não é que o sucesso totalmente individual seja impossível — não tenho dados para sustentar essa afirmação.
Mas é muito mais difícil.
Além de chato demais.
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