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De Haaland a Neymar: a Copa que também foi disputada nos memes

Como a inteligência artificial, as paródias de IA e o engajamento dos próprios atletas transformaram o maior torneio de futebol do planeta em um fenômeno da cultura pop

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Nesta Copa do Mundo, os memes assumiram um papel central na forma como a competição foi acompanhada. Casemiro comemorou um gol reproduzindo o gesto do meme “67”, enquanto Kylian Mbappé entrou na brincadeira com o “Kylian Ditador”.

Erling Haaland tornou-se uma das figuras mais reproduzidas do torneio. Fãs compararam sua aparência à do vilão Majin Boo, de “Dragon Ball Z”, e o próprio atacante admitiu não ter como discordar.

Fora de campo, uma música que ele havia gravado aos 16 anos com dois amigos voltou a viralizar. Kygo Jo” ganhou um remix do DJ Kygo e chegou ao topo das canções mais ouvidas da Noruega no Spotify.

No mesmo período, o goleiro Vozinha, de Cabo Verde, ganhou protagonismo nas redes depois de ajudar a segurar o empate com a Espanha.

Até a transmissão brasileira entrou no circuito: a narração da Globo virou piada ao chamar os bonecos Labubu de “mascotes da Copa” durante a abertura.

Haaland em Hollywood

Nenhum desses casos, porém, alcançou a proporção da paródia que colocou Haaland e Vinicius Jr. na icônica cena do filme “As Branquelas”.

Produzido com inteligência artificial, o vídeo se tornou um dos conteúdos mais compartilhados da competição. A montagem chegou a Terry Crews, um dos protagonistas do filme original, e ganhou uma reação publicada pela própria
https://www.instagram.com/reel/DaeBYWRBZ5P/
.

No vídeo, o ator afirma que o meme representa “a combinação perfeita entre entretenimento e esporte” e se diz impressionado com o resultado. “Eu fiz esse filme há 20 anos e agora ele está mais popular do que nunca.”

À medida que o mata-mata avançou, a montagem de As Branquelas” foi refeita com novos protagonistas. Depois da versão com Vinicius Jr. e Haaland, os criadores atualizaram o vídeo a cada fase. Às vésperas de Inglaterra x Argentina, produziram uma edição com Lionel Messi no papel da loira e Jude Bellingham no lugar de Terry Crews.

Quando a Copa ficou reduzida a Inglaterra, França, Espanha e Argentina, a brincadeira passou a orbitar os principais nomes de cada seleção.

Pela Inglaterra, os protagonistas eram Harry Kane e Bellingham, autor dos dois gols que eliminaram a Noruega nas quartas de final. Mbappé representava a França, enquanto Lamine Yamal e o capitão Rodri apareciam pela Espanha. Do lado argentino, Messi continuava no centro das conversas.

Piada e suspeita

A Argentina também rendeu um dos memes mais persistentes da competição. A partir de declarações do presidente da FIFA, Gianni Infantino, e de decisões de arbitragem contestadas, internautas produziram montagens satíricas sobre uma suposta preferência da entidade por Messi.

As criações foram do apelido “VARgentina” a imagens feitas com inteligência artificial nas quais Infantino aparece cuidando do camisa 10 como um bebê.

As acusações nunca foram comprovadas e os próprios conteúdos se apresentavam como piada. A repercussão, no entanto, mostra como o humor passou a funcionar também como uma forma de comentar arbitragem, rivalidades e bastidores do torneio.

Para a Antro, hub de entretenimento, mídia e comunidades especializado em cultura digital, o alcance dessas criações ajuda a explicar uma mudança importante na internet: os memes deixaram de ser apenas reações espontâneas e passaram a influenciar a maneira como grandes eventos são consumidos, comentados e lembrados.

“O sucesso desse conteúdo não está na inteligência artificial. Ela foi apenas a ferramenta. O que realmente conecta as pessoas é uma referência cultural compartilhada por diferentes gerações, que ganhou um novo significado dentro da Copa do Mundo. Hoje, os memes não apenas comentam os acontecimentos; eles ajudam a construir a narrativa deles”, afirma Wangler Bastos, cofundador e CMO da Antro.

Do público ao campo

Na avaliação da empresa, esse comportamento se repetiu ao longo do torneio. Quando jogadores levaram para o gramado piadas nascidas nas redes, como fizeram Casemiro e Mbappé, ou quando o próprio alvo da brincadeira respondeu e alimentou o viral, como Haaland, atletas, criadores de conteúdo e torcedores passaram a dialogar por meio das mesmas referências.

“Durante muito tempo, o meme era consequência de um grande acontecimento. Hoje, ele também ajuda a determinar quais acontecimentos permanecem vivos na conversa pública”, diz Bastos.

“Quando atletas, influenciadores e organizações entram na brincadeira, o meme deixa de ser apenas humor e passa a fazer parte da experiência do evento. A Copa continua sendo decidida dentro de campo, mas uma parte importante da disputa pela atenção acontece nas redes sociais.”

Outro fator decisivo, segundo a Antro, foi a sequência de validações recebidas por esses conteúdos.

No caso de As Branquelas, a brincadeira nasceu nas redes, foi abraçada pelos torcedores, repercutiu entre os jogadores, chegou ao ator da cena original e, por fim, foi incorporada pela FIFA.

“Cada uma dessas etapas ampliou o alcance do conteúdo e transformou uma criação da comunidade em um fenômeno global, reforçando o poder dos memes como uma das principais linguagens da cultura digital”, afirma Bastos.

O Neymar do futuro

Outro vídeo feito com inteligência artificial mobilizou os torcedores brasileiros ao apostar menos no humor e mais na emoção.

Criada pelo perfil @nerdsoul.ai, a produção imagina um encontro entre diferentes versões de Neymar Jr.: o jogador adulto, um Neymar mais velho e o menino que ainda vestia as cores do Santos.

Na conversa, a criança pergunta com quantos anos eles conquistaram a Copa do Mundo. O Neymar do futuro responde que isso não aconteceu e pede ajuda para uma última tentativa.

“Eu dei tudo de mim. Esgotei todas as minhas forças, mas não consegui. Sozinho, eu nunca conseguiria. É por isso que estou aqui. Eu preciso da sua ajuda. Você quer que eu tente uma última vez?”

A história faz referência a uma possível participação de Neymar na Copa de 2030, quando terá 38 anos. O jogador reagiu à publicação com emojis emocionados, ampliando ainda mais o alcance do conteúdo.

Não demorou para que a mesma narrativa ganhasse uma paródia. Usando vozes simuladas por inteligência artificial, criadores transformaram o diálogo melancólico em uma bronca que manda as diferentes versões de Neymar abandonarem o campo para jogar pôquer.

Assista aos vídeos

Com Meme

O contraste entre as duas versões ajuda a explicar o papel da inteligência artificial na cultura digital. Com a mesma tecnologia, é possível produzir uma narrativa emocional, provocar nostalgia e, poucos minutos depois, transformar tudo em piada.

A ferramenta acelera a criação e torna as montagens mais convincentes. Mas o que faz um vídeo circular continua sendo o repertório compartilhado pelo público: um filme conhecido, uma rivalidade esportiva, a história de um jogador ou uma piada que já pertence à comunidade.

A Copa é decidida no gramado. A internet, porém, participa da escolha do que será lembrado.

Quando atletas, atores, marcas e a própria FIFA passam a responder aos virais, o meme deixa de funcionar apenas como comentário. Torna-se parte da narrativa do evento — e da memória cultural criada ao redor dele.

 


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Cathy Birle

Cathy Birle é Head de Conteúdo e Eventos do Misses at Work, Fundadora do Be Hunter (The Brand Experience Hunter), além de Business Development da Fast Company Brasil.

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