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Deepfake nas eleições (e na vida): 4 sinais para não cair em vídeos falsos

Sete em cada dez internautas brasileiros já confundiram uma gravação manipulada com uma real; emoção, procedência e repercussão ajudam na checagem

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O horário eleitoral gratuito começou nesta sexta-feira (28), colocando partidos, federações e coligações na programação diária de rádio e televisão. Nas redes sociais, onde a propaganda eleitoral está liberada desde 16 de agosto, a disputa pela atenção do eleitor também se intensifica — acompanhada de um desafio adicional: distinguir conteúdos reais daqueles fabricados ou manipulados por inteligência artificial. O horário gratuito segue até 1º de outubro, antevéspera do primeiro turno.

Vídeos em que candidatos parecem fazer declarações que nunca fizeram, áudios que reproduzem vozes e imagens adulteradas são cada vez mais convincentes. E a dificuldade para reconhecê-los já aparece nos números: sete em cada dez internautas brasileiros, ou 70,2%, afirmam ter acreditado que um vídeo era verdadeiro para depois descobrir que se tratava de um deepfake.

Apenas 18,7% dizem conseguir reconhecer imediatamente uma gravação criada ou alterada por IA. Outros 72,1% percebem a manipulação apenas em algumas situações, segundo a pesquisa Super Panorama Mobile Time/Opinion Box. O levantamento ouviu 4.138 brasileiros com mais de 16 anos que possuem smartphone, entre 4 e 24 de março de 2026, e tem margem de erro de 1,5 ponto percentual.

O problema encontra terreno fértil em um ambiente digital já marcado pela desinformação. O número de conteúdos falsos produzidos com IA identificados pelo Observatório Lupa passou de 39, em 2024, para 159, em 2025 — alta de aproximadamente 308%. No último ano, quase 45% dessas peças apresentavam viés ideológico, ante 33% no período anterior, segundo o 1º Panorama da Desinformação no Brasil.

O impulso é uma pista

Vídeos falsos costumam ser construídos para provocar uma reação rápida. Indignação, medo, choque e surpresa reduzem o tempo dedicado à análise e aumentam a vontade de compartilhar.

“Se um vídeo desperta uma reação muito forte e uma vontade imediata de compartilhar, esse é justamente o momento de parar e verificar”, afirma Camila Renaux, especialista em marketing e inteligência artificial.

A recomendação é adotar uma espécie de regra dos 30 segundos: interromper o impulso, assistir novamente, observar a publicação e buscar alguma confirmação antes de encaminhar o material.

A pausa não serve apenas para evitar um erro individual. Publicações que recebem comentários, compartilhamentos e outras interações tendem a ganhar mais alcance — inclusive quando a pessoa interage somente para criticar ou demonstrar indignação.

Procure a origem

O segundo passo é identificar de onde veio a gravação. Uma conta recém-criada, um perfil que imita uma página oficial ou um vídeo recebido sem qualquer indicação de autoria exigem cuidado redobrado.

Antes de compartilhar, vale responder a algumas perguntas: quem publicou? O perfil é oficial? Qual é a data da postagem? O vídeo completo está disponível? A mesma declaração foi registrada por veículos jornalísticos ou canais institucionais?

Conteúdos manipulados frequentemente começam a circular em grupos fechados, aplicativos de mensagens ou contas sem histórico confiável. Quando chegam a espaços públicos, já podem estar separados de sua origem e acompanhados de descrições inventadas.

Também é importante verificar o contexto. Um vídeo verdadeiro pode ter sido cortado, acelerado, dublado ou retirado de outro momento para transmitir uma mensagem diferente da original.

Observe os detalhes

A tecnologia evoluiu, mas algumas produções ainda apresentam falhas. Movimentos pouco naturais da boca, alterações repentinas na expressão, piscadas irregulares e falta de sincronização entre áudio e imagem podem indicar manipulação.

Incoerências na iluminação também merecem atenção. Sombras que mudam sem motivo, contornos borrados ao redor do rosto, dentes deformados, brincos que desaparecem e elementos do cenário que se transformam entre um quadro e outro são alguns dos sinais possíveis.

Nenhuma dessas falhas, isoladamente, comprova que o vídeo seja falso. Da mesma forma, uma gravação aparentemente perfeita não deve ser considerada verdadeira apenas porque não apresenta defeitos visíveis. Com ferramentas cada vez mais sofisticadas, procurar a origem e o contexto do conteúdo é mais seguro do que confiar apenas no olhar.

Veja quem repercutiu

Um suposto escândalo capaz de influenciar uma eleição dificilmente permanecerá restrito a uma única conta. Se apenas um perfil desconhecido publicou o vídeo e nenhuma redação, agência de checagem ou fonte oficial confirmou a informação, é prudente esperar.

“Se um conteúdo tem potencial para impactar uma eleição, provavelmente também estará sendo verificado por jornalistas, agências de checagem e veículos de comunicação”, diz Camila.

A ausência de repercussão não prova, por si só, que algo seja falso. Mas funciona como sinal de alerta, especialmente quando a publicação afirma revelar um acontecimento grave, exclusivo e urgente sem apresentar documentos, fontes ou registros independentes.

Fora da bolha

A desinformação não depende apenas de uma gravação convincente. Ela também se beneficia das bolhas algorítmicas, formadas quando as plataformas passam a entregar ao usuário mais conteúdos semelhantes àqueles com os quais ele já costuma interagir.

Essa seleção pode criar a impressão de que determinada opinião é unânime, de que um assunto domina todo o debate público ou de que apenas um lado apresenta informações confiáveis.

Diversificar as fontes é uma forma de reduzir esse efeito. Isso inclui consultar veículos diferentes, acompanhar canais oficiais, ler além das manchetes e procurar a cobertura completa antes de formar uma conclusão.

Também é possível interferir no que o algoritmo recomenda. Marcar uma publicação enganosa como “não tenho interesse”, deixar de acompanhar contas que divulgam falsidades e evitar comentar ou compartilhar o conteúdo — mesmo em tom de crítica — reduz os sinais de engajamento enviados à plataforma.

O que dizem as regras

As eleições de 2026 têm regras específicas para o uso de inteligência artificial na propaganda. Conteúdos sintéticos multimídia criados ou alterados com IA devem informar, de maneira explícita, destacada e acessível, que houve fabricação ou manipulação e qual tecnologia foi utilizada. As exigências constam da Resolução nº 23.610 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), atualizada para o pleito deste ano pela Resolução nº 23.755/2026.

Isso não significa, porém, que basta identificar qualquer conteúdo manipulado para que seu uso seja permitido. A norma prevê restrições a materiais falsos ou gravemente descontextualizados e estabelece uma vedação adicional perto da votação: entre as 72 horas anteriores e as 24 horas posteriores ao fim do pleito, não podem ser publicados ou republicados novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas, mesmo que estejam rotulados como produzidos com IA.

As regras ampliam a responsabilidade de campanhas e plataformas, mas não eliminam a necessidade de atenção de quem recebe o conteúdo. Em uma eleição atravessada por imagens e vozes cada vez mais convincentes, checar aquilo que parece confirmar perfeitamente as próprias crenças pode ser tão importante quanto procurar defeitos no vídeo.

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Foto de Danae Stephan

Danae Stephan

Editora, produtora, leitora compulsiva e inimiga do lugar-comum há mais de 30 anos. Hoje à frente do "Misses at News", já passou por "Folha de S.Paulo", Editora Abril, Editora Globo, "UOL" e "Glamurama", entre outros.

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