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Morre Gloria Steinem, a jornalista que mudou a forma de contar a história das mulheres

Cofundadora da revista "Ms." e uma das principais vozes do feminismo, Gloria Steinem morreu aos 92 anos e deixa marcas no jornalismo, na publicidade e na luta pelos direitos das mulheres

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Gloria Steinem entendeu cedo que mudar a vida das mulheres também exigia transformar as histórias contadas sobre elas. Jornalista, escritora e uma das figuras mais influentes do feminismo contemporâneo, ela usou a imprensa para questionar padrões, revelar desigualdades e abrir espaço para assuntos que, durante décadas, foram tratados como questões privadas.

Steinem morreu em 2 de setembro de 2026, aos 92 anos, em sua casa, em Nova York. Ela estava cercada por pessoas próximas. A causa da morte não foi divulgada. A informação foi confirmada pela Reuters e pela Associated Press.

Durante mais de seis décadas, a jornalista levou experiências femininas para o debate público. Escreveu sobre aborto, violência doméstica, assédio, desigualdade salarial e participação política. Na época, esses temas ainda encontravam pouco espaço nas grandes publicações.

Além disso, Steinem percebeu que as reportagens não eram as únicas responsáveis pela imagem das mulheres. A publicidade também ocupava um lugar importante nessa engrenagem. Afinal, os anúncios podiam reforçar estereótipos e até influenciar os assuntos publicados pelas revistas femininas.

Por trás da fantasia

Um dos trabalhos mais conhecidos de Gloria Steinem começou em 1963, quando ela tinha 28 anos. Para investigar as condições de trabalho no Playboy Club de Nova York, candidatou-se a uma vaga de garçonete. Em seguida, passou 11 dias trabalhando como uma das chamadas coelhinhas.

A experiência deu origem a A Bunny’s Tale, reportagem publicada em duas partes pela revista Show. Durante a apuração, Steinem encontrou baixos salários, uniformes apertados, regras rígidas de trabalho e um tratamento marcado pelo sexismo.

O material está preservado no acervo de jornalismo investigativo da Universidade de Nova York.

A reportagem chamou atenção, mas também trouxe um efeito inesperado. Durante algum tempo, alguns editores deixaram de enxergar Steinem como repórter. Em vez disso, passaram a associá-la ao uniforme usado durante a investigação.

Assim, a jornalista que havia revelado as condições de trabalho das funcionárias ficou presa à própria imagem. O episódio dizia muito sobre o mercado editorial daquele período. Mesmo quando uma mulher produzia uma reportagem relevante, sua aparência podia receber mais atenção do que seu trabalho.

Uma revista própria

Em dezembro de 1971, Gloria Steinem participou da criação da revista Ms.. Primeiro, a publicação surgiu como uma edição experimental encartada na New York. Depois, em julho de 1972, chegou às bancas com sua primeira edição regular.

A proposta rompia com o modelo das revistas femininas da época. A Ms. tratava as mulheres como leitoras interessadas em política, trabalho, direitos, cultura e economia. Portanto, não limitava seu conteúdo ao casamento, à beleza e à vida doméstica.

Aborto, violência, desigualdade salarial, assédio, sexualidade e divisão das tarefas de casa entraram em pauta. Embora fizessem parte da vida de milhões de mulheres, esses assuntos raramente recebiam a devida atenção da imprensa.

A revista também abriu espaço para mulheres na produção das reportagens e nas decisões editoriais. Dessa forma, mostrou como a composição de uma redação interfere nas histórias que chegam ao público.

A resposta das leitoras foi rápida. Segundo a própria publicação, as 300 mil cópias da edição experimental se esgotaram em oito dias. Nas semanas seguintes, a revista recebeu 26 mil pedidos de assinatura e mais de 20 mil cartas. Os dados estão disponíveis na história oficial da Ms..

O poder dos anúncios

O trabalho na Ms. colocou Gloria Steinem diante de outro problema: a influência dos anunciantes sobre as revistas femininas.

Em 1990, ela publicou o ensaio Sex, Lies and Advertising. No texto, contou as dificuldades enfrentadas pela revista para atrair publicidade sem aceitar interferências no conteúdo editorial.

Segundo Steinem, empresas de alimentos, roupas, cosméticos, perfumes e produtos de beleza esperavam receber algo além do espaço publicitário. Muitas queriam que suas campanhas aparecessem perto de receitas, editoriais de moda ou matérias favoráveis aos produtos vendidos.

No entanto, essas mesmas exigências nem sempre eram feitas às publicações de interesse geral. Uma empresa de alimentos, por exemplo, podia anunciar em uma revista sem exigir a publicação de receitas.

Também havia pressão sobre a posição dos anúncios. Algumas marcas não queriam ter suas campanhas próximas a reportagens sobre aborto, violência, doenças ou outros assuntos considerados negativos.

Como consequência, o investimento publicitário ajudava a definir o conteúdo das revistas. Temas difíceis perdiam espaço. Enquanto isso, moda, beleza, decoração e comportamento recebiam um tratamento mais favorável.

Steinem argumentou que essas exigências colocavam a independência editorial em risco. Afinal, os anunciantes não estavam apenas comprando páginas. Eles também tentavam controlar o ambiente no qual suas campanhas apareciam.

Posteriormente, a Ms. adotou um modelo sem publicidade comercial. A mudança está registrada na história oficial da revista.

Em 2025, a Gloria’s Foundation republicou Sex, Lies and Advertising. Mesmo escrito há mais de três décadas, o ensaio ainda conversa com um mercado que debate os limites entre conteúdo, publicidade e interesses comerciais.

Antes de diversidade e propósito se tornarem palavras comuns no discurso das marcas, Steinem já cobrava uma relação mais honesta com as mulheres. Para ela, os anúncios também ajudavam a definir quem podia ocupar determinados espaços, tomar decisões e exercer poder.

O pessoal era político

Outro momento decisivo aconteceu em 1969. Naquele ano, Gloria Steinem acompanhou um encontro público sobre aborto em uma igreja de Nova York. Ao ouvir mulheres contarem suas experiências, percebeu que também precisava falar sobre o procedimento que havia realizado aos 22 anos, durante uma temporada em Londres.

Mais tarde, ela descreveu aquele encontro como o início de sua vida como feminista ativa. A partir dali, os direitos reprodutivos passaram a ocupar um lugar central em seu trabalho.

A jornalista ajudou a levar para o debate público questões cercadas por silêncio e culpa. Escreveu sobre maternidade, casamento, trabalho, sexualidade e violência. Com isso, mostrou que muitos problemas vistos como dramas individuais tinham raízes sociais e políticas.

Steinem também participou da criação de organizações como a National Women’s Political Caucus, a Ms. Foundation for Women e o Women’s Media Center. As informações constam em sua biografia oficial.

Em 2013, Barack Obama concedeu a ela a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior honraria civil dos Estados Unidos. O reconhecimento está registrado no arquivo da Casa Branca.

Uma figura contestada

A projeção de Gloria Steinem também gerou críticas. Durante anos, parte da imprensa a apresentou como o principal rosto do feminismo norte-americano.

Essa exposição acabou concentrando um movimento amplo e diverso na imagem de uma mulher branca, famosa e próxima do padrão de beleza valorizado naquele período. Steinem, por sua vez, reconheceu a contribuição de feministas negras, indígenas, lésbicas e trabalhadoras para sua formação política.

Entre suas parcerias mais conhecidas estava Dorothy Pitman Hughes. A ativista negra acompanhou Steinem em viagens, debates e projetos ligados aos direitos das mulheres.

A jornalista também recebeu críticas por um artigo publicado em 1998 no The New York Times. No texto, abordou as acusações contra o então presidente Bill Clinton. Em 2017, ao voltar ao assunto, afirmou que não escreveria o mesmo artigo novamente.

As controvérsias não apagam sua contribuição. Porém, ajudam a apresentar uma história menos idealizada e marcada também pela revisão de algumas posições.

A última memória

A morte de Gloria Steinem aconteceu poucas semanas antes da data prevista para o lançamento de seu último livro. Segundo a Penguin Random House, An Unexpected Life: A Memoir será publicado em 22 de setembro de 2026 nos Estados Unidos.

A editora anunciou a obra em março, quando Steinem completou 92 anos. No livro, ela revisita a infância, o período vivido na Índia, a entrada no jornalismo e os acontecimentos que despertaram sua consciência política.

Sua história também chegou às telas. O filme The Glorias, dirigido por Julie Taymor, foi inspirado no livro My Life on the Road. Já na série Mrs. America, Steinem foi interpretada por Rose Byrne. Em 2025, ela participou do documentário Dear Ms.: A Revolution in Print, sobre a revista que ajudou a criar.

Gloria Steinem deixa uma trajetória construída por reportagens, livros, discursos e organizações. Sua contribuição permanece na defesa de uma mídia capaz de enxergar as mulheres em toda a sua complexidade.

Ela queria que as mulheres pudessem contar as próprias histórias, participar das decisões e questionar as imagens criadas sobre elas. Ao enfrentar redações, anunciantes e instituições políticas, mostrou que mudar a sociedade também exige mudar quem escolhe as histórias que merecem ser ouvidas.

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Foto de Marina Paes

Marina Paes

Marina von Glehn Paes é jornalista especializada em publicidade, marketing, comunicação e inovação. Foi editora-chefe do portal Adnews, onde acompanhou os principais movimentos do mercado, tendências de consumo, mídia, criatividade e negócios. Ao longo de sua trajetória, dedica-se à cobertura do setor de comunicação, com entrevistas, análises e reportagens sobre marcas, agências, veículos, tecnologia e as transformações que impactam a indústria.

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