Hora do reclame: relembre 8 bordões que não esqueceremos jamais
Comerciais de Bombril, Brastemp, Valisère e outras marcas mostram como uma boa frase pode atravessar décadas
Antes do streaming, havia um pequeno ritual doméstico chamado intervalo comercial. Naquele momento, o espectador podia buscar água, atacar a geladeira ou continuar diante da televisão, já que algumas propagandas eram quase tão aguardadas quanto o próprio programa.
Foi nessa época, quando ninguém pulava anúncios depois de cinco segundos, que a publicidade brasileira colocou uma coleção de frases na boca do público. Algumas nasceram como slogans, enquanto outras surgiram como falas de personagens ou trechos de campanhas. No entanto, todas conquistaram o posto de bordão.
Na estreia da seção “Hora do Reclame”, reunimos oito bordões da publicidade brasileira que saíram dos comerciais e entraram nas conversas. Portanto, se você reconhece a maioria deles, não se preocupe: isso não revela a idade, mas confirma que sua memória publicitária continua em ótima forma.
1. “1001 utilidades”
Muito antes de alguém ser chamado de multitarefa, essa pessoa era comparada a uma esponja de aço. Talvez não pareça exatamente um elogio, mas era.
A expressão “1001 utilidades” ficou ligada à Bombril e ao personagem interpretado por Carlos Moreno. Criada pela DPZ em 1978, a campanha tinha Washington Olivetto na redação e Francesc Petit na direção de arte. Em vez de mostrar a tradicional dona de casa em uma cozinha, os filmes colocavam um homem tímido atrás de uma bancada, falando diretamente com o público.
Ao longo dos anos, Carlos Moreno estrelou centenas de comerciais e entrou para o Guinness Book pela longevidade como garoto-propaganda. Para muitos brasileiros, portanto, ele não anunciava apenas a Bombril: era quase um parente que aparecia de vez em quando na sala.
Relembre os comerciais do Garoto Bombril
2. “Não esqueça a minha Caloi”
Antes das listas compartilhadas por aplicativo, as crianças recorriam a métodos analógicos de persuasão. Entre eles, estava o hábito de espalhar bilhetes pela casa com uma mensagem bastante direta: “Não esqueça a minha Caloi”.
Lançada em 1978, a campanha de Natal usava o personagem animado Zigbim para incentivar os pequenos a deixar recados aos pais. A Integral Propaganda realizou a peça, enquanto a criação do slogan é atribuída ao publicitário José Estevão Cocco.
A estratégia era simples, eficiente e potencialmente enlouquecedora. Afinal, qualquer adulto podia encontrar o mesmo pedido no espelho, na geladeira, no travesseiro e, com alguma criatividade infantil, dentro do sapato.
Assista a “Não esqueça a minha Caloi”
3. “Tomou Doril, a dor sumiu”
Poucos slogans foram tão econômicos. Havia a dor, entrava o Doril e, em uma única frase, o problema deixava o recinto.
Criado pelo publicitário Agnelo Pacheco, então na Norton, o bordão surgiu no fim dos anos 1970. Em um dos primeiros filmes, a atriz Cláudia Mello saía de uma farmácia e contava à câmera que estava com dor de cabeça. Depois do comprimido, claro, a dor havia sumido.
Logo, a frase ultrapassou os limites da propaganda e ganhou novos usos. Quando alguém desaparecia de uma festa, de uma reunião ou de um grupo sem se despedir, dizia-se que tinha “tomado Doril”. Assim, o remédio conquistou uma utilidade que nem a bula previa.
Assista ao comercial “Tomou Doril, a dor sumiu”
4. “Bonita camisa, Fernandinho”
Uma reunião de trabalho, vários executivos vestidos de maneira parecida e um funcionário que ousava aparecer com uma camisa diferente. Com essa cena, a USTOP mostrou, em 1984, que até a rebeldia corporativa podia começar pelo guarda-roupa.
No comercial “Que novidade é essa?”, o chefe estranha a camisa de Fernando. Entretanto, ao descobrir que a peça pertence à nova coleção da marca, muda o tom e solta o elogio: “Bonita camisa, Fernandinho”. No dia seguinte, naturalmente, todos aparecem vestidos como ele. A exceção é Fernandinho, que já havia escolhido outro modelo.
Criada pela Talent, a campanha teve entre seus responsáveis Ana Carmen Longobardi, Ruy Lindenberg e Marco Eagin. Como resultado, o bordão perseguiu durante anos os homens chamados Fernando. Quem recebeu o nome mais tarde talvez tenha escapado. Talvez.
Assista a “Bonita camisa, Fernandinho”
5. “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”
Lançado em 1987, o comercial da Valisère acompanhava uma menina que encontrava sobre a cama uma caixa com seu primeiro sutiã. A partir dali, o filme mostrava, com delicadeza, um momento de passagem da infância para a adolescência.
A campanha foi criada pela W/GGK, que mais tarde se tornaria W/Brasil, e teve direção de criação de Washington Olivetto. Já Patrícia Lucchesi, então com 11 anos, protagonizou a peça. Sem diálogos, a narrativa transformava uma descoberta íntima em uma história compreendida por diferentes gerações.
Além de ganhar o Leão de Ouro em Cannes, o comercial levou para a linguagem popular a frase “o primeiro a gente nunca esquece”. Desde então, ela foi repetida e parodiada em inúmeras situações que nada tinham a ver com lingerie.
Assista ao comercial “Meu primeiro sutiã”, da Valisère
6. “Abuse e use C&A”
Bastavam os primeiros acordes, algumas cores e Sebastian entrando em cena para o público reconhecer a marca. Por isso, “Abuse e use C&A” tornou-se muito mais do que uma assinatura: virou parte da trilha sonora dos anos 1990.
Criada pelos publicitários Woody Gebara, Ralph Choate e Waldir Costa, a campanha apresentou Sebastian em 1989. Nome artístico de Sebastião Fonseca, ele reunia dança, música, moda e uma presença difícil de ignorar.
Durante cerca de duas décadas, o personagem permaneceu ligado à C&A e se tornou um dos poucos protagonistas negros da publicidade brasileira de massa naquele período. Enquanto o bordão convidava o público a experimentar a moda, Sebastian fazia tudo parecer possível com passos de dança e uma máquina de vento estrategicamente posicionada.
Assista ao comercial “Abuse e use C&A”
7. “Não é assim uma Brastemp”
Quando alguém dizia que uma coisa “não era nenhuma Brastemp”, todos entendiam o recado: podia até funcionar, mas faltava um pouco para impressionar.
A expressão nasceu em 1991, na campanha “Não tem comparação”, criada pela Talent. Nos comerciais, Arthur Kohl e Wandi Doratiotto conversavam em um sofá sobre produtos que eram bons, embora não chegassem ao padrão Brastemp.
Fernando Meirelles dirigiu os filmes quando ainda não era o cineasta indicado ao Oscar que o mundo conheceria anos depois. Além de conquistar prêmios, a campanha transformou o nome da marca em sinônimo de excelência. Nada mal. Aliás, bem Brastemp.
Assista ao comercial “Não é assim uma Brastemp”
8. “Compre Baton”
“Compre Baton, compre Baton, seu filho merece Baton.”
Se você leu a frase ouvindo uma voz infantil em sua cabeça, a campanha cumpriu a missão com mais de três décadas de atraso.
Criado pela W/Brasil em 1992, o comercial mostrava uma criança balançando um chocolate como se fosse um pêndulo. Diante da câmera, ela tentava hipnotizar quem estava do outro lado da tela. Tratava-se de uma ordem de compra sem nenhum disfarce, repetida com tamanha convicção que o anúncio se transformou em um clássico dos anos 1990.
Esta é para os millennials que cresceram acreditando que bastava balançar um chocolate diante dos pais para garantir a sobremesa. Na prática, não bastava. Ainda assim, a tentativa era válida.
Assista ao comercial “Compre Baton”
Esses bordões da publicidade brasileira mostram como uma frase simples, ao encontrar o personagem e o momento certos, pode continuar circulando muito depois que o comercial deixa a televisão. Além disso, ajudam a contar parte da história da propaganda e da relação do público com as marcas.
Mas a nossa memória publicitária ainda tem espaço. Na próxima viagem pelo túnel do tempo, o Misses at News relembra outras marcas que entraram para a história com bordões inesquecíveis. Entre elas estão Havaianas, Skol, Sukita, Casas Bahia, Twix e Posto Ipiranga. Também reaparecem os pequenos responsáveis por uma das músicas mais grudentas dos anos 2010: os pôneis malditos.





