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Deu saudade? Nostalgia impulsiona marcas a renovar produtos clássicos

De Moranguete e Turma da Mônica a Granado, Phebo e Fofolete, empresas transformam sabores, aromas, personagens e lembranças de infância em novos produtos

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Em um mercado que lança novidades o tempo todo, algumas marcas encontraram no passado uma maneira de continuar relevantes. Sabores da infância, personagens conhecidos, embalagens antigas e rostos que marcaram a publicidade voltam às prateleiras e às campanhas. Quase sempre, porém, reaparecem com alguma novidade.

A estratégia encontra respaldo no comportamento do brasileiro. Uma pesquisa da PiniOn sobre nostalgia, realizada  com 1.543 pessoas de todas as regiões do país, mostrou que 56,8% dos entrevistados já compraram produtos ou serviços motivados por lembranças do passado. Além disso, 44,4% afirmaram que a nostalgia está muito presente em sua rotina.

As mulheres e os moradores da região Norte aparecem entre os grupos mais sensíveis a esse sentimento. O dado ajuda a explicar por que tantas campanhas recorrem a memórias ligadas à infância, à família, aos cuidados pessoais e às experiências compartilhadas.

A pesquisa também revelou que 80,3% dos brasileiros já compraram, na vida adulta, alguma coisa que desejavam durante a infância ou a adolescência. Brinquedos e jogos retrô lideram a lista, com 37,1%. Em seguida, aparecem roupas e acessórios inspirados em outras décadas, com 26,1%, e relançamentos de comidas e bebidas, citados por 24,3%.

A força das redes

As redes sociais cumprem um papel importante na transformação dessas lembranças em desejo de compra. Segundo a PiniOn, 56,1% dos participantes preferem consumir conteúdos nostálgicos nessas plataformas. Já os comerciais antigos reprisados ou adaptados aparecem como os formatos de maior impacto, mencionados por 36,9% dos entrevistados.

É justamente nas redes que campanhas antigas voltam a circular, jingles ganham novas versões e consumidores comparam produtos atuais com aqueles que conheceram na infância. Assim, uma marca criada há décadas consegue participar das conversas atuais sem precisar reconstruir toda a sua história.

Quase metade dos entrevistados, 45%, declarou sentir mais vontade de comprar quando uma empresa utiliza referências nostálgicas em sua comunicação.

O Moranguete cresceu

É nesse movimento que a ZD Alimentos aposta para renovar o Moranguete. Lançado há 35 anos, o bombom com recheio sabor morango e cobertura sabor chocolate deixou de ocupar apenas o lugar de doce da infância. Agora, aparece em diferentes categorias e momentos de consumo.

Em vez de simplesmente relançar o produto original, a empresa levou o sabor do Moranguete para outros formatos. A linha inclui as Pipocas Prontas Pop Up!, produzidas com milho Mushroom e fórmula sem lactose e sem glúten, além do Moranguete Jelly e do TopBel Moranguete.

A marca também entrou no segmento de alimentos proteicos. A barra Moranguete Pro oferece 12 gramas de proteína, não tem adição de açúcar e é livre de glúten. Já a bebida láctea Hércules Moranguete Pro apresenta 15 gramas de proteína por porção, zero lactose e nenhum açúcar adicionado.

Dessa maneira, a empresa preserva o sabor reconhecido pelo público, mas o adapta à procura por praticidade e alimentos proteicos. A lembrança chama a atenção, enquanto os novos formatos ampliam as possibilidades de consumo.

“O portfólio da ZD Alimentos une inovação e memória afetiva, o que torna a comemoração dos 50 anos da empresa ainda mais simbólica. Neste tempo, sempre estivemos atentos para manter a experiência de sabor que conquistou gerações, sem deixar de lado a renovação do nosso portfólio, que acompanha os desejos dos brasileiros”, afirma Eloizi Dedemo, vice-presidente de mercado do Grupo ZD Alimentos.

Granado transforma história em identidade

Granado- Campanha de 100 anos

Campanha da Granado recupera a evolução das embalagens do sabonete de glicerina para transformar um século de história em valor de marca | Divulgação/Granado

A Granado mostra que a nostalgia não precisa aparecer apenas em relançamentos. Em algumas marcas, ela faz parte de toda a identidade visual, da decoração das lojas e da apresentação dos produtos.

Fundada em 1870, no Rio de Janeiro, a empresa recuperou elementos de sua origem farmacêutica para fortalecer seu posicionamento. Embalagens inspiradas em antigos rótulos, ilustrações botânicas, tipografias de época e lojas que lembram as antigas boticas transformaram a própria história da marca em valor comercial.

O Polvilho Antisséptico, lançado no início do século XX, permanece entre os produtos mais conhecidos da Granado. Ao mesmo tempo, a empresa ampliou sua atuação com perfumes, hidratantes, sabonetes, velas e linhas para a casa.

Nesse caso, tradição não significa manter a marca parada no tempo. A Granado preserva códigos visuais facilmente reconhecidos, mas os aplica a categorias atuais e a uma experiência de varejo mais sofisticada. O resultado atrai tanto quem já conhecia a empresa quanto consumidores que descobriram a marca recentemente.

Phebo: aromas e brasilidade

Phebo- Campanha

Phebo transforma a fragrância do clássico sabonete Odor de Rosas em colônia e atualiza uma memória presente na rotina dos brasileiros desde 1930 | Divulgação/Phebo

A Phebo trabalha a memória de uma forma ainda mais sensorial. Criada em Belém do Pará, em 1930, a marca ficou conhecida pelo sabonete Odor de Rosas. Escuro, transparente e de formato oval, o produto se diferenciava dos sabonetes brancos e retangulares mais comuns naquela época.

A fragrância marcante atravessou gerações e continua entre as principais referências da Phebo. Para muitos consumidores, o aroma remete à casa dos pais, ao banheiro dos avós ou a lembranças de viagens e encontros familiares.

A Granado adquiriu a Phebo em 2004 e, nos anos seguintes, recuperou elementos históricos da marca. Ao mesmo tempo, ampliou o portfólio com perfumes, colônias, velas, hidratantes e produtos para a casa.

Por isso, o caso da Phebo vai além de uma embalagem com aparência antiga. A empresa utiliza fragrâncias, ilustrações e referências à flora brasileira para preservar sua origem paraense e sustentar um posicionamento ligado à perfumaria nacional.

Granado e Phebo mostram como o passado pode funcionar como patrimônio de marca. Em vez de esconder a idade, as duas empresas transformam o tempo de mercado em atributo de qualidade, familiaridade e reconhecimento.

Fofolete volta ao colo

Fofolete

Fofolete retorna em seis versões colecionáveis e aproxima novas crianças das bonecas que marcaram a infância de outras gerações | Divulgação/Estrela

Entre os brinquedos, poucas lembranças são tão imediatas quanto a Fofolete. Pequena o bastante para caber na palma da mão, a boneca se tornou um símbolo da infância de muitas brasileiras.

As Fofoletes vinham com roupinhas e gorros coloridos, além da tradicional caixinha. O tamanho reduzido ajudou a transformar o brinquedo em objeto de coleção. Muitas crianças tinham mais de uma e trocavam modelos entre amigas.

Hoje, a boneca faz parte da linha de clássicos da Estrela. A fabricante mantém características associadas ao produto original e apresenta versões em diferentes cores. Os modelos atuais medem nove centímetros, vêm dentro de uma pequena caixa e são indicados para crianças a partir de três anos.

A própria Estrela destaca a Fofolete como um brinquedo que marcou as décadas de 1980 e 1990. A estratégia alcança dois públicos ao mesmo tempo. De um lado, conversa com crianças que encontram a boneca pela primeira vez. De outro, atrai mulheres que tiveram uma Fofolete na infância e agora podem comprá-la para as filhas, presentear alguém ou guardar como item de coleção.

Esse encontro entre gerações é uma das principais forças do marketing de nostalgia. A compra não envolve apenas o produto. Ela também permite que mães, tias e avós compartilhem uma parte da própria história.

Chocolate Turma da Mônica

Chocolate da Turma da Mônica

Chocolate da Turma da Mônica recupera os personagens que marcaram os tabletes dos anos 1990 e apresenta a lembrança a uma nova geração | Divulgação/Brasil Cacau

Outro exemplo é o chocolate da Turma da Mônica, produto que marcou a infância de quem cresceu nos anos 1990. Conhecido pelos tabletes com o formato dos personagens, ele deixou o mercado e se transformou em uma lembrança frequentemente compartilhada nas redes sociais.

Em 2024, a Brasil Cacau trouxe o produto de volta. O relançamento recuperou Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali, mas atualizou sua apresentação e a estratégia de venda.

O chocolate não retornou apenas para reencontrar antigos consumidores. Como os personagens continuam populares entre as crianças, pais e mães também puderam apresentar às novas gerações uma lembrança da própria infância.

Kibon resgata clássicos

Promoção Kibon

Kibon revisita a tradicional promoção do Palito Premiado para atualizar uma lembrança presente na história da marca desde os anos 1960 | Divulgação/Kibon

Ao completar 85 anos em 2026, a Kibon também colocou sua história no centro da estratégia. A marca recuperou a promoção do palito premiado, criada nos anos 1960, revitalizou os tradicionais carrinhos de sorvete e relançou o picolé de Guaraná Antarctica.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a empresa usa elementos conhecidos para conversar tanto com quem cresceu consumindo seus produtos quanto com públicos mais jovens.

O desafio está justamente nessa passagem entre gerações. Marcas como Chicabon e Eskibon carregam uma história conhecida por consumidores mais velhos, mas precisam encontrar novos formatos, ocasiões e linguagens para permanecer relevantes.

C&A traz Sebastian

Sebastian volta a dançar para a C&A na campanha “Contos de Encontros”, criada para celebrar os 50 anos da varejista no Brasil | Hick Duarte/Divulgação C&A

A nostalgia também aparece na moda. Em 2026, a C&A trouxe Sebastian Soul de volta às campanhas da empresa. O reencontro fez parte das comemorações pelos 50 anos da varejista no Brasil.

O modelo e ator foi um dos rostos mais conhecidos da publicidade da C&A entre os anos 1990 e 2010. Na campanha “Contos de Encontros”, ele dividiu o protagonismo com a atriz Camila Queiroz, o estilista Gustavo Silvestre e clientes da rede.

Assim, a marca não se limitou a reproduzir uma fórmula antiga. A C&A recuperou uma figura importante de sua história e a colocou dentro de uma comunicação atual.

Passado que traz novidade

A nostalgia funciona porque encurta a distância entre a marca e o público. Um sabor, um aroma, uma música ou um brinquedo conhecido não precisa ser apresentado do zero. Ele já carrega histórias e sentimentos construídos ao longo do tempo.

No entanto, repetir uma fórmula antiga pode limitar o alcance da estratégia. O consumidor quer reconhecer o produto, mas também espera que ele acompanhe seus hábitos, interesses e necessidades atuais. Para as marcas, o desafio está em identificar o que merece permanecer e o que precisa mudar.

O Moranguete preservou o sabor, mas entrou no mercado de alimentos proteicos. Granado e Phebo mantiveram códigos históricos, enquanto ampliaram seus portfólios e modernizaram a experiência de compra. Já a Fofolete conservou o tamanho e o apelo colecionável, mas voltou em novas versões para chegar a outras crianças.

Em todos esses casos, inovar não significa abandonar o passado. Significa descobrir o que uma lembrança ainda pode oferecer no presente.

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Foto de Marina Paes

Marina Paes

Marina von Glehn Paes é jornalista especializada em publicidade, marketing, comunicação e inovação. Foi editora-chefe do portal Adnews, onde acompanhou os principais movimentos do mercado, tendências de consumo, mídia, criatividade e negócios. Ao longo de sua trajetória, dedica-se à cobertura do setor de comunicação, com entrevistas, análises e reportagens sobre marcas, agências, veículos, tecnologia e as transformações que impactam a indústria.

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