Mulheres avançam em áreas estratégicas da publicidade
Contratações recentes colocam executivas no comando de negócios, mídia, dados, tecnologia e marketing, enquanto números do Misses mostram avanço feminino nas movimentações de liderança em 2026
Uma vice-presidente de Negócios. Uma diretora-executiva de Mídia. Uma diretora-executiva de Operações em uma unidade dedicada a dados e tecnologia. Uma diretora de Marketing de uma das maiores empresas de mídia exterior do mundo.
Em poucos dias, diferentes empresas do mercado de comunicação anunciaram mulheres para posições diretamente ligadas à estratégia dos negócios.
Na BETC Havas Rio, Ana Paula Perdigão assumiu como vice-presidente de Negócios, enquanto Giovana de Vito chegou como diretora-executiva de Mídia. As duas executivas passam a atuar no fortalecimento e no crescimento da operação carioca da agência.
Perdigão tem mais de 20 anos de carreira e assume, entre outras responsabilidades, a gestão da conta da TIM. Já Giovana soma 16 anos de atuação em mídia, estratégia e performance.
Na Publicis Edge, unidade especializada em dados e tecnologia do Publicis Groupe Brasil, Maíra Fontoura assumiu como diretora-executiva de Operações. Ela passa a liderar a estratégia operacional da divisão, com responsabilidade sobre governança, eficiência de processos, gestão de recursos e rentabilidade.
Poucos dias antes, a JCDecaux Brasil anunciou Chiara Martini como diretora de Marketing. Sua missão será liderar a área e fortalecer o posicionamento da companhia e de suas soluções junto ao mercado publicitário.
Isoladamente, são movimentações de carreira. Observadas em conjunto, porém, elas chamam atenção para quais áreas essas mulheres estão passando a comandar.
Negócios, dados e estratégia
Negócios, mídia, operações, dados, tecnologia e marketing estão diretamente ligados à receita, à eficiência e à estratégia das empresas.
Por isso, a chegada de mulheres a essas funções representa algo diferente de simplesmente aumentar a presença feminina nos organogramas.
São posições que participam de decisões sobre clientes, investimentos, equipes, ferramentas, rentabilidade e caminhos de crescimento.
No caso da Publicis Edge, por exemplo, Maíra Fontoura chega a uma operação com mais de 200 profissionais no Brasil. A unidade atua em inteligência de dados, tecnologia, mídia preditiva, performance e inteligência artificial.
Na JCDecaux, Chiara Martini assume justamente com a missão de aproximar a companhia da estratégia dos anunciantes. Em declaração divulgada pela empresa, a executiva afirmou que pretende utilizar criatividade, produtos, pesquisas e dados para ampliar o papel estratégico da companhia junto às marcas.
Portanto, não se trata apenas de mulheres chegando à liderança. Trata-se de observar a que tipo de decisão elas passam a ter acesso.
Essa diferença também aparece no artigo “As salas de aula já mostram o futuro da comunicação; as salas de reunião ainda mostram o passado”, publicado pelo Misses. O texto discute justamente a distância entre a forte presença feminina nos cursos de Comunicação e a participação das mulheres nos espaços que concentram poder e decisão.
Mulherômetro mostra avanço
O movimento também aparece no acompanhamento realizado pelo próprio Misses.
Na edição mais recente do Mulherômetro, publicada no Misses at Mail, o portal havia mapeado 615 movimentações profissionais em 2026. Desse total, 348 colocavam mulheres em posições de liderança, o equivalente a uma participação feminina acumulada de 57%.
Veja os dados mais recentes do Mulherômetro no Misses at Mail
Naquela semana, entretanto, o retrato foi menos equilibrado. Entre 25 movimentações mapeadas, dez eram de mulheres em posições de liderança, participação de 40%.
A oscilação ajuda a lembrar que uma sequência de anúncios femininos não significa, por si só, que o mercado tenha alcançado equilíbrio.
Presença não é poder
Existe outra diferença importante.
Contar quantas mulheres ocupam cargos de liderança é fundamental. Porém, entender quanto poder acompanha esses cargos pode ser ainda mais revelador.
Um levantamento da Pride Content, elaborado a partir de microdados da Relação Anual de Informações Sociais, a RAIS, e do Programa de Disseminação das Estatísticas do Trabalho, o PDET, mostrou que as mulheres passaram de 48% para 55,5% dos vínculos formais nas agências brasileiras entre 2014 e 2024.
Apesar da maioria numérica, a remuneração ainda não acompanha esse avanço. Entre os 10% mais bem pagos, os homens recebem de 8,7% a 18,6% mais do que as mulheres. Nas agências de São Paulo, a remuneração média masculina é 20,9% superior à feminina.
A pesquisa analisou dez anos de remuneração em sete áreas das agências. Além disso, considerou profissionais contratados pelo regime CLT, com salários corrigidos pela inflação. Trabalhadores PJ, freelancers e informais não entraram no levantamento.
O Misses também abordou os resultados na edição “Presença não é poder” do Misses at Mail.
Os dados reforçam que presença, salário, influência e poder de decisão não são necessariamente a mesma coisa.
Onde elas chegam?
As movimentações recentes mostram executivas chegando a posições estratégicas em diferentes partes da cadeia da comunicação.
Esse detalhe importa.
Uma diretoria com responsabilidade sobre orçamento, pessoas, receita, dados e estratégia exerce um tipo de influência diferente de um título de liderança sem autonomia equivalente.
Por isso, acompanhar o avanço feminino no mercado exige ir além da contagem de cargos.
A pergunta deixa de ser apenas quantas mulheres chegaram à liderança e passa a ser também: o que elas poderão decidir quando chegarem lá?

