“Seu cargo é alugado; seu patrimônio profissional é seu”, diz Ricardo Silvestre no Fest’Up
Em palestra para jovens profissionais, fundador da Black Influence e CEO da ERA falou sobre carreira, repertório e a responsabilidade de construir uma indústria da comunicação mais aberta e conectada ao Brasil real
O publicitário e empresário Ricardo Silvestre levou ao Fest’Up São Paulo 2026 uma reflexão sobre os conhecimentos que não aparecem nas descrições de vagas, mas influenciam diretamente uma carreira na comunicação.
Na palestra “A carreira que ninguém vai te ensinar a construir”, Silvestre falou sobre sua trajetória, os códigos do mercado publicitário e a importância de transformar reconhecimento em patrimônio profissional.
“Ser bom importa. Mas achar que ser bom basta pode te custar anos”, afirmou.
O encontro integrou a programação do festival realizado pela APP Brasil no sábado, 19 de setembro, na ESPM e na Belas Artes, em São Paulo. Diante de uma plateia formada principalmente por estudantes e profissionais em início de carreira, Silvestre contou que nunca recebeu uma promoção nas agências pelas quais passou. Em alguns momentos, chegou a ser demitido.
A experiência o ajudou a perceber que o trabalho, sozinho, não explica todas as decisões profissionais. Relações, política, narrativa, timing e oportunidade também interferem em quem avança e em quem permanece esperando reconhecimento.
Olhar fora da bolha
Silvestre também chamou atenção para a formação de repertório. Segundo ele, um dos riscos para quem trabalha com comunicação é consumir apenas conteúdos produzidos pelo próprio mercado.
Seu olhar profissional se formou no transporte público, nas feiras, nas periferias, em conversas ouvidas na rua e no contato com manifestações culturais que nem sempre chegam às apresentações das agências.
“Referência é aquilo que você encontra. Repertório é aquilo que só você consegue enxergar a partir de tudo o que viveu”, resumiu.
Para o publicitário, sua origem também lhe deu capacidades que o mercado não saberia ensinar. Por isso, ele costuma avaliar campanhas a partir de perguntas simples: sua mãe entenderia aquela mensagem? Ela se reconheceria nela? O trabalho conversa com o Brasil real?
Essa leitura se tornou ainda mais importante quando Silvestre percebeu que muitos espaços da publicidade reuniam pessoas com origens, códigos e padrões estéticos semelhantes. Características como cabelo, roupa e personalidade frequentemente permaneciam fora do modelo considerado aceitável.
“Primeiro eu quis entrar. Depois eu quis mudar a sala”, contou.
Do incômodo à construção
Em vez de permanecer apenas na crítica, Silvestre decidiu criar as estruturas que não encontrava no mercado. Assim nasceu a Black Influence, consultoria pioneira em cultura, conteúdo e influência.
Em 2025, a empresa conquistou o Prêmio Caboré na categoria Serviços de Marketing. No entanto, durante a palestra, o executivo destacou que o valor do reconhecimento depende do que se constrói a partir dele.
“Uma capa é só uma capa se você não souber o que fazer com ela”, afirmou.
Em 2026, ele fundou a ERA, talent company voltada à gestão de carreiras. A empresa trabalha para transformar influência, reputação e propriedade intelectual em patrimônio de longo prazo para os talentos.
A iniciativa nasceu de uma nova inquietação. Embora o mercado contasse com muitos intermediários, Silvestre enxergava pouco investimento no desenvolvimento real das pessoas. Com a ERA, passou a defender uma mudança da influência para a propriedade.
Esse raciocínio orientou uma das principais mensagens da palestra: cargos, empresas e plataformas mudam, enquanto repertório e reputação acompanham o profissional ao longo da carreira.
“Seu cargo é alugado. Seu patrimônio profissional é seu”, disse.
Para Silvestre, poder profissional significa ter condições de escolher, inclusive para dizer não. Esse poder nasce do repertório que amplia o olhar, das relações construídas ao longo do tempo, da reputação conquistada pelo trabalho e da propriedade sobre ideias e projetos.
Uma nova indústria
A parte final da palestra voltou-se à responsabilidade da nova geração. Ricardo Silvestre lembrou que os estudantes presentes no Fest’Up logo estarão escolhendo fornecedores, aprovando campanhas, contratando profissionais e participando das decisões que definem a cultura das empresas.
“Uma publicidade feita por e para amigos precisa acabar. O Brasil é maior do que a nossa bolha”, afirmou.
Ao mostrar o troféu do Caboré à plateia, Silvestre explicou que não pretendia apenas celebrar uma conquista pessoal. Queria oferecer uma prova concreta de que um menino de Guarulhos, criado em meio à escassez, poderia ocupar aquele lugar e abrir caminho para outras pessoas.
Destaque da Forbes Under 30, jurado do Cannes Lions e reconhecido pelo MIPAD, iniciativa apoiada pela ONU, como uma das pessoas negras mais influentes do mundo, Silvestre encerrou a palestra com um convite à ação.
“O futuro da comunicação não é uma coisa que vocês vão encontrar quando chegarem lá. É uma coisa que vocês vão construir. Conheçam as trilhas, mas não tenham medo de abrir a sua.”
