Arte, voz e bordado: shoppings e museus colocam artistas femininas em foco no Dia da Mulher
Do graffiti na passarela do metrô às agulhas que bordam resistência, iniciativas pelo Brasil transformam o 8 de Março em vitrine para a produção artística feminina
A passarela mais movimentada da Zona Leste de São Paulo, por onde circulam mais de 4 milhões de pessoas por mês, ganha uma nova cara a partir desta quinta-feira (5).
Oito painéis e duas live paintings assinadas pelas artistas plásticas Kelly Reis e Mariana Mats transformam o corredor de acesso ao Metrô Tatuapé em uma galeria de arte a céu aberto.
A ação “Urbanas — Elas transformam”, do Complexo Tatuapé — que reúne os shoppings Metrô Tatuapé e Metrô Boulevard Tatuapé —, é uma das iniciativas que marcam a programação do Mês da Mulher em 2026.
Mais do que uma homenagem, ela reflete uma tendência mais ampla no marketing e na cultura: a busca por narrativas autênticas e por um ROI emocional que vá além da simples conversão comercial.
“Queremos que a força, a mensagem e a sensibilidade delas alcancem as milhares de pessoas que passam por aqui diariamente”, afirma Flávia Carvalho, gerente de Marketing do Complexo Tatuapé, sobre as artistas que assinam a exposição.
A escolha de um espaço de grande circulação, como a passarela do metrô, e o formato de live painting (com sessões nos dias 5 e 7 de março) não são detalhes menores.
Eles dialogam diretamente com o que aponta o relatório TikTok Next 2026: a intuição e a autenticidade devem reger a cultura neste ano.
Os consumidores — especialmente as mulheres — buscam um retorno emocional em suas conexões com marcas e instituições, e não apenas produtos ou descontos.
Arte como território de pertencimento

Obra de Mariana Mats para a exposição “Urbanas — Elas transformam”, no Complexo Tatuapé, em SP | Foto Divulgação
A exposição do Complexo Tatuapé reúne no total dez obras que exploram a intersecção entre identidade e universo feminino. Kelly Reis, moradora da Zona Leste e artista há mais de uma década, aborda em seus trabalhos a mestiçagem biológica e cultural, com referências que vão do surrealismo latino aos arquétipos de matriz africana, oriental e indígena.
Já Mariana Mats, com mais de 20 anos de vivência nas ruas, traz personagens vibrantes e símbolos que evocam misticismo e a força do feminino.
Kelly pintou seu painel ao vivo no último dia 5 de março, às 17h, no Shopping Metrô Tatuapé; já Mariana faz sua live painting amanhã, 7 de março, às 11h30, no Shopping Metrô Boulevard Tatuapé.
“A ação amplia a visibilidade da produção artística feminina e reforça o posicionamento do Complexo Tatuapé como um espaço que integra cultura e experiência no cotidiano”, completa Flávia.
A iniciativa do Complexo Tatuapé não é isolada. Em um momento em que plataformas como o Pinterest registram crescimento nas buscas por termos como “Afrodecor” e “arte etíope”, fica claro que o público anseia por representatividade e por expressões culturais que fujam do óbvio.
A arte urbana, com sua linguagem democrática e acessível, torna-se um território fértil para construir esse pertencimento.
Museus e centros culturais de SP ampliam programação

Parte de material da oficina “Bonequinhas de papel: repensando o gênero através da moda”, na Casa Guilherme de Almeida, em SP | Foto Reprodução
Na capital paulista, outras instituições também dedicam sua programação de março à produção feminina.
O Museu da Imigração, na Mooca, abre no dia 7 de março a exposição temporária “Entre Mulheres”, reunindo obras de 17 artistas. A mostra propõe uma reflexão sobre presença, memória, identidade e protagonismo feminino a partir de diferentes linguagens artísticas — e fica em cartaz até 21 de junho, com entrada gratuita.
Aos domingos de março, o museu oferece ainda a visita temática “Mulheres na Hospedaria”, que aprofunda o olhar sobre as experiências femininas nas histórias de migração.
No Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo (CCBB SP), o Dia da Mulher ganha voz: no dia 8 de março, às 15h, a cantora hondurenha-brasileira Indiana Nomma apresenta o show “A Voz dos Sem Voz”.
Reconhecida pelos herdeiros de Mercedes Sosa como intérprete oficial da maior voz da América Latina, Indiana tem sete discos lançados, dois deles finalistas do Prêmio da Música Brasileira, e já dividiu palco com nomes como Milton Nascimento e Daniela Mercury. No repertório, canções imortais como “Gracias a La Vida” e “Volver a los 17”.
Já a Casa Guilherme de Almeida recebe, no dia 8 de março, das 14h às 15h30, a oficina “Bonequinhas de papel: repensando o gênero através da moda” — uma proposta criativa que convida o público a refletir sobre o papel da mulher na sociedade brasileira ao longo do século XX a partir da criação artística.
Agulha e linha como ato político no CCBB BH

Obra “Caixa Preta”, de Marlene Barros | Foto Larissa Micenas (Divulgaçnao)
Em Belo Horizonte, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB BH) abre o Mês da Mulher com uma exposição que transforma práticas domésticas em discurso político. “Marlene Barros: Tecitura do Feminino” reúne 13 obras em escultura, crochê e bordado da artista maranhense Marlene Barros, propondo uma reflexão sobre o corpo feminino e a invisibilização histórica das mulheres no campo da arte.
Com mais de quatro décadas de atuação e formação em Arte Contemporânea pela Universidade de Aveiro, em Portugal, Marlene Barros parte de uma premissa clara: o trabalho das mulheres foi historicamente relegado à condição de artesanato — visto como menor e privado.
“Agulha e linha tornam-se instrumentos de denúncia e elaboração simbólica: cada ponto carrega um grito contido, uma história que resiste ao esquecimento”, explica a artista.
Performance no Ceará é ponto alto na Pinacoteca

Performance Lápis-Lazuli, com Jussara Correia | Acervo Jussara Correia
Em Fortaleza, a Pinacoteca do Ceará preparou uma programação especial para a primeira semana de março, com oficinas, visitas mediadas e palestras que celebraram o Dia Internacional da Mulher. O ponto alto acontece neste domingo (8), às 15h, quando a artista visual e performer cearense Jussara Correia apresenta “Lápis Lazúli” no Ateliê 3 da Pinacoteca.
A obra de Jussara atravessa corpo, memória e o universo feminino, aproximando-se das relações interespécies como campo sensível de escuta e criação. A performance tem 30 vagas, preenchidas por ordem de chegada, e classificação indicativa livre.
O padrão que se consolida
O conjunto de iniciativas de 2026 evidencia uma mudança de rota nas ações do Dia da Mulher: cada vez menos flores e chocolates, cada vez mais espaço real para a produção e a voz femininas.
O conceito de Roi emocional ganhou força nas discussões de planejamento de 2026. Isso significa que campanhas e programações culturais passam a ser avaliadas não apenas por métricas de público ou vendas imediatas, mas pela capacidade de gerar conexão, identificação e afeto.
A exposição “Urbanas — Elas transformam” é um bom exemplo: dificilmente se traduz em conversão direta para as lojas do shopping, mas fortalece o posicionamento do Complexo Tatuapé como um espaço que integra cultura e experiência no cotidiano de milhões de pessoas.
Fica a lição para marcas e instituições: no Mês da Mulher, dar visibilidade e protagonismo é mais potente do que qualquer homenagem vazia.
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Serviço
Complexo Tatuapé (SP)
O quê: exposição “Urbanas — Elas transformam”, de Kelly Reis e Mariana Mats
Quando: 05/03/2026 a 05/04/2026, na passarela de acesso aos shoppings
Onde: Rua Domingos Agostim, 91 (Shopping Metrô Tatuapé) | Rua Gonçalves Crespo/Tuiuti (Shopping Metrô Boulevard Tatuapé)
Entrada: Gratuita
Museu da Imigração (SP)
O quê: exposição “Entre Mulheres” e visita temática “Mulheres na Hospedaria”
Quando: 07/03/2026 a 21/06/2026 (exposição) | Domingos de março (visita temática). Ter. a sáb., das 9h às 18h; dom., das 10h às 18h
Onde: Rua Visconde de Parnaíba, 1316 – Mooca
Entrada: Gratuita
CCBB São Paulo
O quê: show “A Voz dos Sem Voz”, com Indiana Nomma
Quando: 08/03/2026, às 15h
Onde: Rua Álvares Penteado, 112 – Centro Histórico
Entrada: Gratuita (ingressos antecipados no site ou bilheteria)
Casa Guilherme de Almeida (SP)
O quê: oficina “Bonequinhas de papel: repensando o gênero através da moda”
Quando: 08/03/2026, das 14h às 15h30
Onde: Rua Macapá, 187 – Perdizes
Entrada: Gratuita
CCBB Belo Horizonte
O quê: exposição “Marlene Barros: tecitura do feminino”
Quando: 04/03/2026 a 01/06/2026. Qua. a seg., das 10h às 22h
Onde: Praça da Liberdade, 450 – Funcionários
Entrada: Gratuita
Pinacoteca do Ceará (CE)
O quê: performance “Lápis Lazúli”, com Jussara Correia
Quando: 08/03/2026, às 15h. Qua. a sex., das 10h às 18h; sáb., das 12h às 20h; dom., das 10h às 17h
Onde: Rua 24 de Maio, 34 – Centro | Ateliê 3 da Pinacoteca do Ceará
Entrada: Gratuita (30 vagas por ordem de chegada)
