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Calendário Pirelli 2027: o que mudou na representação das mulheres ao longo das décadas

Edição fotografada na Índia reúne os olhares de Sølve Sundsbø, Raghu Rai e Avani Rai e abre espaço para refletir sobre quem aparece nas imagens e quem participa de sua criação

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A apresentação do Calendário Pirelli 2027, em Nova Déli, na Índia, recoloca em discussão uma questão que atravessa a publicidade e a fotografia: como as mulheres são representadas nas imagens associadas às marcas?

Intitulada India, a nova edição reúne trabalhos de Sølve Sundsbø, Raghu Rai e Avani Rai. O projeto também convida a olhar para as mudanças de uma publicação que, ao longo de mais de seis décadas, aproximou sensualidade, moda e diferentes ideias de beleza.

Quebrando tabus

Em 1949, muito antes de o Calendário Pirelli existir, Marilyn Monroe recebeu US$ 50 para posar nua diante da câmera de Tom Kelley. Modelo e atriz em início de carreira, estava sem trabalho e precisava pagar as contas. Assim, a sessão que se tornaria icônica nasceu de uma necessidade concreta, não de uma estratégia para construir uma lenda.

Uma das fotografias, conhecida como Golden Dreams, circulou em calendários nos anos seguintes e se tornou um símbolo da cultura de imagens sensuais que marcou a época.

Em 1952, já em ascensão em Hollywood, Marilyn reconheceu publicamente que era a mulher das fotos. Explicou que precisava do dinheiro e afirmou não ter feito nada errado.

Ao recusar a vergonha que esperavam dela, deslocou a conversa: por que uma mulher deveria se desculpar por um trabalho que tantos estavam dispostos a consumir? A quebra do tabu estava também nessa resposta.

O episódio ajuda a entender a tradição de calendários publicitários com a qual a Pirelli dialogaria anos depois. Nas paredes de oficinas e barbearias, a imagem feminina atraía o olhar, enquanto a história da mulher retratada quase sempre ficava de fora. Com Marilyn, essa história ganhou voz.

O que acontece com uma marca ligada a esse repertório quando as mulheres reivindicam poder sobre a própria representação? A trajetória do Calendário Pirelli oferece uma resposta que, para mim, interessa a quem trabalha com comunicação: a relevância de uma imagem depende também de como aprendemos a enxergá-la.

Arte desde o início

Há uma distinção nessa história. O The Cal não nasceu como uma folhinha popular que, anos depois, ganhou prestígio. Sua primeira edição, de 1964, foi concebida pela subsidiária britânica da Pirelli como um projeto exclusivo.

Quem assinou as fotografias foi Robert Freeman, conhecido por seus retratos dos Beatles. Portanto, a ambição artística e a distribuição seletiva faziam parte da proposta desde o início.

O calendário, porém, dialogava com uma tradição de sensualidade feminina usada para aproximar marcas do público masculino. Na década da minissaia e da revolução sexual, a exposição do corpo podia expressar liberdade e, ao mesmo tempo, continuar organizada para atender ao olhar de quem consumia aquelas imagens. As duas coisas conviviam.

Nas décadas seguintes, o The Cal consolidou sua ligação com a moda. Nos anos 1990, reunir nomes como Cindy Crawford e Kate Moss transformava cada edição em um acontecimento. A Pirelli associava sua marca ao prestígio das supermodelos e dos grandes fotógrafos, construindo um universo de desejo que dispensava colocar o pneu no centro da mensagem.

Era uma estratégia poderosa. Ao mesmo tempo, carregava uma pergunta que ganharia força: quais mulheres tinham espaço naquele ideal de beleza?

Outras histórias

A mudança não aconteceu de uma vez. Em 2013, Steve McCurry fotografou no Brasil mulheres como Sônia Braga, Marisa Monte e Adriana Lima. A edição não tinha nudez e aproximava as retratadas de seu envolvimento com causas sociais. Assim, o contexto começava a ganhar mais espaço na imagem.

Em 2016, Annie Leibovitz tornou essa mudança especialmente visível. Serena Williams, Patti Smith, Yoko Ono e outras mulheres foram escolhidas por suas realizações em diferentes áreas. O interesse do retrato não se esgotava na aparência: estava também no que cada uma havia construído.

Já em 2017, Peter Lindbergh questionou a obrigação de juventude e perfeição ao fotografar atrizes de diferentes idades, entre elas Helen Mirren. No ano seguinte, Tim Walker recriou Alice no País das Maravilhas com um elenco inteiramente negro.

A discussão, portanto, se ampliava. Além de como fotografar, importava quem podia ocupar aqueles espaços de imaginação e prestígio.

Essas escolhas acompanham uma mudança cultural que a comunicação já não pode tratar como detalhe. As mulheres não formam um público homogêneo, nem querem ser reconhecidas apenas pela capacidade de corresponder a um padrão.

Suas vivências, idades e identidades alteram o significado de uma imagem. Para a marca, ampliar esse repertório também é uma maneira de continuar participando da conversa.

Sensualidade e autonomia

Seria confortável contar essa história como uma passagem definitiva do corpo para o conteúdo. Mas seria impreciso. Em 2025, Ethan James Green retomou a sensualidade e a exposição corporal em Refresh and Reveal, com diversidade de idades e formas. A nudez não havia sido abandonada; estava sendo revisitada.

E não há contradição obrigatória nisso. Uma mulher não precisa estar vestida para ser respeitada, assim como não deveria apresentar uma carreira extraordinária para merecer representação. O trabalho de uma modelo também tem valor e autoria.

A questão é se a imagem admite uma pessoa inteira ou a reduz a uma função decorativa.

Por isso, prefiro olhar para a mudança da Pirelli como uma revisão de critérios, não como uma troca de figurino. O quanto essas mulheres podem expressar de si? Que vivências entram na história? Quem participa das decisões sobre o que será visto?

Um olhar para a Índia

Depois de explorar a relação entre mulheres e natureza em Elements, de 2026, Sølve Sundsbø retorna na edição 2027. Desta vez, seu trabalho se une ao de Raghu Rai e Avani Rai em India, apresentada em Nova Déli em 23 de outubro de 2026.

O calendário reúne obras dos três fotógrafos e articula retratos, memória e vida contemporânea. Sundsbø fotografa nove mulheres com vínculos com a Índia. Entre elas estão a atriz e produtora Freida Pinto, a musicista Anoushka Shankar e a poetisa Rupi Kaur.

Suas áreas de atuação ajudam a compor um conjunto de retratos que não tenta resumir essas mulheres a um único modelo de feminilidade.

Avani Rai, por sua vez, ocupa um lugar significativo: está diante da câmera e também assina o projeto. Após a morte do pai, em abril de 2026, deu continuidade ao trabalho que ele havia iniciado, mas encontrou seu próprio caminho.

A fotógrafa levou imagens do arquivo de Raghu às ruas de Delhi e Mumbai. Com isso, criou composições em que o passado aparece junto à vida de hoje.

Quem cria importa

A presença feminina na autoria não é inédita. Sarah Moon já havia fotografado o calendário de 1972. Ainda assim, a contribuição de Avani evidencia uma questão para a discussão contemporânea: não basta ampliar o elenco se o poder de construir a história permanece restrito.

Ser vista e decidir como olhar são formas diferentes de participação.

É aí que essa trajetória encontra o trabalho de nós, mulheres da comunicação. Afinal, representatividade também depende de quem propõe a ideia, dirige a produção e aprova a mensagem. A mudança na imagem importa, mas não comprova, por si só, uma mudança nas relações de poder dentro de uma empresa.

O The Cal continua sendo uma publicação exclusiva, ligada à beleza e ao prestígio. Sua mudança de rota não apaga essa origem. Mostra, porém, que uma marca pode preservar um símbolo reconhecível e rever os significados que ele carrega.

Para mim, essa é a lição mais interessante da Pirelli: acompanhar o tempo exige mais do que atualizar a estética. Exige perceber quando o público questiona o lugar que lhe foi reservado. E reconhecer que as mulheres querem participar da criação das imagens, não apenas aparecer nelas.

Para conhecer a nova edição, é possível explorar a galeria de India, do Calendário Pirelli 2027, e descobrir como mulheres, memória e vida contemporânea se encontram nesse novo capítulo da marca.

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Foto de Cathy Birle

Cathy Birle

Cathy Birle é Head de Conteúdo e Eventos do Misses at Work, Fundadora do Be Hunter (The Brand Experience Hunter), além de PR Strategist na C4V3.

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