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Exaustão virou rotina — e as empresas ainda fingem que não estão vendo

Com burnout reconhecido pela OMS como fenômeno ocupacional, especialistas cobram que gestão de produtividade pare de confundir horas trabalhadas com resultado real

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Cansaço que não passa, dificuldade de concentrar e aquela sensação de que o trabalho nunca termina de verdade. Se algum desses sinais soa familiar, você não está sozinha — e o problema é maior do que parece.

O avanço dos casos de burnout no Brasil escancarou os limites de um modelo de produtividade construído sobre excesso de horas e disponibilidade constante, e o debate que antes ficava restrito ao consultório passou a ocupar salas de reunião e agendas corporativas.

O dado mais paradoxal vem do relatório People at Work 2025, do ADP Research Institute: o Brasil lidera o ranking global de engajamento no trabalho entre 34 mercados analisados, com 29% dos profissionais totalmente engajados.

Engajamento é algo positivo — mas quando vem acompanhado de esgotamento, o sinal de alerta precisa ser levado a sério.

O burnout não avisa — ele vai chegando

Reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional ligado ao estresse crônico, o burnout se manifesta por exaustão física e mental, queda de rendimento e distanciamento emocional das atividades. Mas raramente aparece do nada.


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“O burnout não chega de uma vez. Aos poucos, a pessoa perde o foco, se sente mais cansada, começa a acumular tarefas e, quando percebe, já está sem energia e sem clareza”, explica Fernanda Tochetto, psicóloga, empresária e especialista em performance humana e desenvolvimento de lideranças.

Para ela, o problema central não é o volume de trabalho em si, mas a crença de que mais horas equivalem a mais resultado.

“Existe uma crença de que produtividade está ligada ao volume de horas trabalhadas. Isso confunde movimento com resultado e faz com que sinais importantes do corpo — como cansaço, ansiedade e desânimo — sejam ignorados”, afirma.

O efeito, na prática, é o oposto do que se espera: queda de concentração, acúmulo de erros e perda de clareza comprometem a execução e corroem a consistência ao longo do tempo.

“Muitas pessoas entram em um ciclo de desgaste em que se esforçam mais, mas conseguem produzir menos, justamente pela falta de energia”, diz.

Energia como recurso estratégico

A virada de chave que Fernanda propõe é tratar a energia — não apenas o tempo — como o recurso mais precioso de quem trabalha. “As pessoas não fracassam por não saber o que fazer, mas por não terem energia suficiente para sustentar o que precisa ser feito. A gestão da energia é o que separa quem começa de quem consegue ir até o fim.”

Nessa equação entram fatores que muitas vezes são deixados de lado na rotina corporativa: sono de qualidade, alimentação, ambientes saudáveis, clareza de prioridades e a capacidade de efetivamente desligar.

“A maneira como a pessoa organiza o dia, desde o momento em que acorda até a hora de dormir, impacta diretamente na energia disponível. Não se trata de fazer mais, mas de conseguir sustentar o que realmente importa.”

O que as empresas precisam repensar

O avanço do burnout já começa a pressionar empresas a revisarem seus modelos de gestão. A discussão migra da gestão do tempo para algo mais complexo: a capacidade real de sustentar desempenho sem adoecer quem entrega.

Para Fernanda, essa revisão tende a se aprofundar nos próximos anos, diante dos custos crescentes ligados ao adoecimento emocional e da pressão por resultados mais consistentes.

“Sustentar resultados exige clareza sobre prioridades e disciplina para manter o foco no que faz sentido”, diz.

A conclusão é cada vez mais evidente: desempenho de longo prazo depende menos de jornadas extremas e mais de energia preservada, foco contínuo e rotinas que consigam combinar resultado com saúde.

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Danae Stephan

Editora, produtora, leitora compulsiva e inimiga do lugar-comum há mais de 30 anos. Hoje à frente do "Misses at News", já passou por "Folha de S.Paulo", Editora Abril, Editora Globo, "UOL" e "Glamurama", entre outros.

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