Não basta empreender: mulheres querem decidir para onde vai o dinheiro
Women in Venture reúne investidoras nesta segunda-feira, em São Paulo, enquanto dados mostram que mulheres ainda são minoria tanto entre quem funda startups quanto entre quem investe nelas
Criar uma empresa é uma forma de participar da economia da inovação. Decidir quais empresas receberão dinheiro para crescer é outra. E é justamente nesse segundo espaço, menos visível e diretamente ligado ao poder econômico, que as mulheres ainda são minoria.
Nesta segunda-feira, 14 de setembro, São Paulo recebe a quinta edição do Women in Venture, encontro dedicado a mulheres que atuam em corporate venture, venture capital e inovação. Neste ano, o tema é “Mulheres Moldando as Decisões que Definem o Futuro da Inovação”.
A programação coloca no centro da conversa os impactos da inteligência artificial nos investimentos, a relação entre fundadoras, investidoras e corporações, startups lideradas por mulheres e a presença feminina nos conselhos. O evento antecede o Corporate Venture in Brasil 2026, que acontece nos dias 15 e 16 de setembro.
Confira a programação do Women in Venture 2026
A discussão chega em um momento no qual os números mostram que o desafio feminino no ecossistema de inovação não termina na criação de uma empresa. Ele também aparece no acesso ao capital e do outro lado da mesa: entre quem decide onde investir.
Elas ainda são minoria
O Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2025, da Associação Brasileira de Startups (ABStartups), mostra que apenas 19,9% das pessoas fundadoras de startups no Brasil são mulheres.
O índice representa um pequeno avanço em relação aos 19,2% registrados na edição anterior. Ainda assim, significa que aproximadamente quatro em cada cinco fundadores continuam sendo homens.
Além disso, a diferença cresce em algumas das áreas mais intensivas em tecnologia. Entre as indtechs analisadas pelo levantamento, por exemplo, mulheres representam apenas 3,53% dos fundadores. Nas techs, são 8,97%. Já nas deeptechs, a participação chega a 37,84%.
Portanto, a desigualdade começa antes mesmo de uma startup chegar à sala dos investidores.
O dinheiro encontra menos mulheres
O acesso ao capital revela outro gargalo.
Dados do Mapeamento do Ecossistema Brasileiro de Startups 2024 mostraram que, enquanto mulheres representavam 19,2% das pessoas fundadoras, apenas 4,7% das empresas que recebiam investimento tinham mulheres como fundadoras ou CEOs.
Além disso, Cláudia Schulz, CEO da ABStartups, aponta outra barreira: as mulheres ainda têm menor acesso às redes informais de investidores, espaços nos quais muitas decisões começam antes mesmo da apresentação formal de um negócio.
Os dados mais recentes sobre investimento-anjo também ajudam a mostrar quem está do outro lado da mesa.
Segundo a Pesquisa Anual de Investimento Anjo 2026, da Anjos do Brasil, o país movimentou R$ 919 milhões nessa modalidade em 2025, alta de 4,2% sobre o ano anterior. Entretanto, apenas 21,1% dos investidores-anjo eram mulheres. A participação feminina cresceu dois pontos percentuais, mas os homens ainda representam 78% desse universo.
Ou seja, existe desigualdade tanto entre quem busca dinheiro quanto entre quem decide para onde ele vai.
Quem investe escolhe o futuro
É justamente aí que o Women in Venture ganha relevância.
Ao reunir investidoras, executivas e lideranças do ecossistema de inovação, o encontro desloca parte da discussão sobre empreendedorismo feminino. Em vez de olhar apenas para as mulheres que criam empresas, passa a observar também aquelas que administram ou influenciam a alocação de capital.
A diferença importa porque venture capital não financia apenas negócios. Na prática, os investidores ajudam a selecionar quais ideias terão recursos para contratar profissionais, desenvolver tecnologia, conquistar mercados e ganhar escala.
Consequentemente, quem ocupa essas posições também participa da definição de quais empresas terão melhores condições para construir o futuro da inovação.
Empreender é uma parte
Durante anos, grande parte da conversa sobre empreendedorismo feminino esteve concentrada em incentivar mulheres a abrir seus próprios negócios. Esse movimento continua necessário, mas os números mostram que existe uma etapa seguinte.
É preciso ampliar também a presença feminina entre investidores, gestores de fundos, integrantes de conselhos e pessoas responsáveis por decisões financeiras.
O tema se conecta a uma discussão que o Misses acompanha de perto. Recentemente, mostramos que empreendedoras brasileiras ainda enfrentam obstáculos como dupla jornada e falta de rede de apoio.
Leia no Misses: “Queremos devolver às mulheres o prazer de empreender”, afirma Natália Darini
No mercado de inovação, porém, existe uma camada adicional. Muitas empresas precisam de capital externo para ganhar escala. Assim, colocar mais mulheres entre quem funda startups é apenas parte da transformação.
A outra começa quando elas também ocupam a cadeira de quem pode dizer: vamos investir.


