“Nunca mais liderei da mesma forma”: 3 executivas dizem como a maternidade mudou suas carreiras
Mães e líderes compartilham os desafios da dupla jornada e explicam como a maternidade transformou sua forma de tomar decisões e conduzir equipes
Mas existe um momento em que muitas dessas mulheres percebem que não se trata mais de equilibrar dois mundos. Que eles nunca foram separados — e que fingir que eram só tornava tudo mais difícil.
Foi nesse momento que Joyce Romanelli, cofundadora e sócia-diretora da Fluxus, consultoria de transformação organizacional, passou a se apresentar de um jeito diferente.
“Hoje me apresento dizendo que sou a mãe do Tito”, conta. “Porque isso não está separado da minha trajetória; está dentro dela. Organiza a forma como eu vejo o mundo e como tomo decisões.”
A frase poderia soar como detalhe, mas carrega um deslocamento importante: a maternidade deixou de ser um assunto privado para se tornar parte constitutiva de uma forma de liderar. Para Joyce, esse processo veio acompanhado de tensão e de olhares renovados.
“A experiência do cuidado trouxe uma escuta diferente, mais presente, mais disponível para o outro — e isso impacta diretamente a forma como conduzo relações e decisões”, diz. “Mas também escancara o quanto o modelo de trabalho ainda está baseado na ideia de disponibilidade irrestrita.”
A culpa como obstáculo
Talita Salles, cofundadora e Chief Growth Officer da Biologix, não tem dúvidas sobre qual é o maior desafio da dupla jornada: a culpa. “A sensação de não estar 100% em nenhum dos lados aparece com frequência”, admite.
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Para atravessá-la, ela recorre a uma imagem que conhece bem: vários pratos girando ao mesmo tempo. “Em alguns momentos, a carreira exige mais atenção. Em outros, a família precisa ser prioridade. O segredo está em perceber qual prato precisa de mais cuidado naquele momento e ajustar a energia para isso.”
A construção dessa percepção não foi espontânea, mas planejada. Ainda no início da carreira, Talita antecipou o impacto que uma rotina de viagens intensas teria na maternidade que desejava viver.
“Trabalhava em um ritmo muito acelerado e percebi que precisaria reorganizar minha trajetória. Foi quando direcionei minha carreira para uma área em que pudesse estar mais presente em casa”, conta.
O resultado foi uma liderança que ela mesma descreve como mais próxima. “A convivência com crianças ensina que comunicar não é apenas falar. É também entender como o outro recebe a mensagem. Isso me tornou uma líder mais interessada em ouvir as dores e demandas da equipe.”
Flexibilidade como política
O desequilíbrio estrutural que essas mulheres descrevem tem lastro em dados. Segundo o IBGE, as brasileiras dedicam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas — quase o dobro das 11,7 horas registradas entre os homens.
O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM) de 2025 reforça que as desigualdades de renda, tempo e participação no mercado continuam moldando a trajetória profissional feminina no Brasil.
É nesse cenário que modelos de trabalho mais flexíveis ganham relevância — não como benefício opcional, mas como fator estrutural de inclusão. Simone Gasperin, sócia e head de Marketing & Growth da BPool e da Ollo, plataforma pioneira de Open Talent no Brasil, defende essa leitura com base no que vê acontecer no mercado.
“O avanço de modelos de contratação flexíveis — em que empresas recrutam profissionais qualificados para projetos ou demandas específicas — permite que o trabalho se adapte melhor à rotina das pessoas. Para muitas mães, isso significa continuar em projetos relevantes sem precisar abrir mão da carreira”, afirma.
Para ela, a mudança beneficia também as empresas. “Ao trabalhar com comunidades de profissionais e estruturas mais flexíveis, as organizações conseguem incluir perfis que, em modelos tradicionais, muitas vezes ficariam de fora. É uma mudança que combina eficiência e inclusão.”
O que une as trajetórias de Joyce, Talita e Simone não é a ausência de conflito, mas a recusa em fingir que ele não existe.
A maternidade as transformou como líderes não apesar das tensões que trouxe, mas por causa delas. E o que elas descrevem não é equilíbrio; é ajuste constante, feito com honestidade sobre o que é possível. E sobre o que, em cada momento, precisa vir primeiro.

