O medo de parecer ambiciosa ainda limita mulheres no trabalho
Pesquisa realizada no Brasil, no México e na Colômbia mostra que 44% das entrevistadas temem parecer exageradas ou iludidas ao compartilhar seus objetivos
Falar sobre resultados, defender ideias e demonstrar confiança são comportamentos valorizados no mercado de trabalho. Para muitas mulheres, no entanto, apresentar as próprias conquistas e dizer aonde pretendem chegar ainda exige uma dose de cautela.
Entre as participantes do estudo “Deixa a Mulher Latina Sonhar”, 44% disseram ter medo de parecer exageradas ou iludidas ao falar sobre seus sonhos e objetivos. Outras 38% evitam expressar essas aspirações em voz alta.
Realizada pela Casa Mundo Market Intelligence em parceria com a Natura, a pesquisa ouviu 320 mulheres de 20 a 55 anos, das classes A, B e C, no Brasil, no México e na Colômbia, em janeiro de 2026. Por se tratar de uma amostra restrita a três países, os resultados não representam todas as mulheres da América Latina, mas ajudam a identificar padrões culturais que atravessam diferentes contextos da região.
Os dados indicam que a dificuldade de expressar ambição pode começar muito antes da entrada no mercado de trabalho. Das entrevistadas, 83% acreditam que poderiam estar vivendo um futuro diferente caso tivessem recebido mais incentivo para sonhar grande durante a infância e a adolescência.
Sonhos com limite
Parte das participantes cresceu ouvindo recomendações para moderar as próprias expectativas. Entre elas, 28% escutaram frases como “sonha, mas com os pés no chão”, enquanto 18% receberam a mensagem de que determinados objetivos estavam distantes de sua realidade. Para 13%, a orientação era escolher caminhos considerados mais seguros.
Esse aprendizado aparece na vida adulta quando uma profissional hesita em dizer que deseja uma promoção, minimiza uma conquista para não parecer arrogante ou deixa de disputar uma oportunidade por não se considerar suficientemente preparada.
Para Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Market Intelligence, o problema não está na ausência de ambição, mas na dificuldade de se sentir autorizada a demonstrá-la.
“Muitas crescem aprendendo que demonstrar ambição pode soar inadequado, excessivo ou até arrogante. Isso influencia a forma como elas falam sobre si mesmas, apresentam suas conquistas e ocupam espaços profissionais”, afirma.
Lugares que parecem distantes
A percepção de pertencimento é outra barreira identificada pelo levantamento. Entre as mulheres ouvidas, 32% afirmaram sentir que determinados objetivos não foram feitos para pessoas com perfil, origem ou realidade semelhantes às suas.
Quando uma posição de liderança, uma profissão ou uma oportunidade parece incompatível com a própria trajetória, ela pode deixar de ser considerada antes mesmo de surgir uma negativa externa. A exclusão começa, nesse caso, no campo das possibilidades imaginadas.
As expectativas associadas aos projetos de vida femininos também continuam concentradas em papéis tradicionais. Segundo a pesquisa, 65% delas estão ligadas ao cuidado, à família e à estabilidade. Apenas 15% relacionam os sonhos das mulheres à liberdade individual.
O machismo incorporado
Outro resultado exige uma leitura cuidadosa. Para 48% das participantes, os principais limitadores de seus sonhos foram elas próprias ou outras mulheres da família. Pais e parceiros homens foram mencionados por 20%.
O dado não significa que as mulheres sejam as principais responsáveis pela desigualdade. Ele mostra como normas construídas socialmente podem ser assimiladas e transmitidas entre gerações, inclusive por mães, avós e outras figuras femininas que também foram educadas dentro dessas expectativas.
Recomendações para ser discreta, evitar riscos ou escolher um caminho mais seguro podem aparecer como cuidado e proteção. Ao mesmo tempo, ajudam a determinar quais ambições parecem aceitáveis para uma menina e quais seriam grandes, arriscadas ou inadequadas demais.
“Se uma mulher cresce acreditando que precisa ser discreta, não chamar atenção ou moderar suas ambições, isso influencia a maneira como ela ocupa espaços, faz escolhas e constrói sua trajetória”, diz Adriana.
Da confiança à oportunidade
A autocensura não substitui as barreiras concretas enfrentadas pelas mulheres no trabalho, como desigualdade salarial, menor acesso à liderança, discriminação e sobrecarga de cuidados. Ela acrescenta uma camada anterior ao problema.
Antes de uma empresa negar uma promoção ou de um processo seletivo excluir uma candidata, pode existir uma profissional que não declarou seu interesse, não apresentou suas realizações ou nem sequer se inscreveu por acreditar que aquele espaço não era para ela.
Enfrentar esse mecanismo, portanto, não pode se resumir a ensinar mulheres a demonstrar mais confiança individualmente. Também exige rever os sinais enviados por famílias, escolas e organizações sobre quem tem o direito de ambicionar, experimentar e ocupar posições de poder.
“O desafio não é ensinar mulheres a sonhar ou a ter ambição”, afirma Adriana. “É criar condições para que elas se sintam autorizadas a expressar tudo aquilo que já são capazes de imaginar para si mesmas.”




