As salas de aula já mostram o futuro da comunicação; as salas de reunião ainda mostram o passado
Mulheres já são maioria entre estudantes de Publicidade e Propaganda; o próximo desafio é fazer essa presença chegar também às cadeiras de poder
Há uma revolução acontecendo nas faculdades de Comunicação que, curiosamente, não faz barulho.
Não há barricadas.
Não há manifestos colados nos postes.
Ninguém tomou a reitoria.
Ela acontece silenciosamente, todas as manhãs, quando uma turma de Publicidade e Propaganda entra na sala e a imensa maioria das cadeiras é ocupada por mulheres.
Em muitos cursos, elas já são ampla maioria.
Jovens mulheres aprendendo estratégia, criação, mídia, dados, produção, comportamento, tecnologia, branding, inteligência artificial e todas essas palavras em inglês que inventamos para explicar a antiga arte de fazer alguém prestar atenção em alguma coisa.
Olhar para essas salas é olhar para uma fotografia antecipada da indústria da comunicação.
O curioso é que, quando mudamos a fotografia e olhamos para muitas salas de conselho, presidências, diretorias e posições de maior poder, parece que alguém trocou o filme.
As meninas desaparecem.
Entram os homens.
A sala de aula parece 2035.
A sala da diretoria, às vezes, parece 1995.
E esse talvez seja um dos paradoxos mais interessantes da nossa indústria.
Estamos formando uma geração majoritariamente feminina para entrar em um mercado que ainda oferece a ela um álbum de referências de liderança majoritariamente masculino.
Nada contra os homens.
Eu mesmo sou um.
Tenho ótimas referências masculinas.
O problema começa quando quase todas as referências possíveis têm o mesmo gênero, trajetórias semelhantes e, muitas vezes, maneiras parecidas de compreender poder, sucesso e liderança.
Porque referência não é apenas alguém que admiramos.
Referência é alguém que torna um futuro imaginável.
É difícil querer ocupar uma cadeira quando você raramente vê alguém parecido com você sentado nela.
É difícil imaginar-se presidente quando os presidentes continuam sendo, majoritariamente, homens.
É difícil acreditar que maternidade, ambição, criatividade, autoridade, vulnerabilidade, inteligência, liderança e vida pessoal podem coexistir quando há poucas histórias visíveis mostrando que isso é possível.
Representatividade tem uma dimensão que vai muito além da justiça.
Ela amplia o horizonte do possível.
Uma jovem estudante não precisa olhar para uma grande líder feminina para querer imitá-la.
Precisa olhar para ela para compreender que aquele lugar também pode ser seu.
E é justamente aí que a conversa fica mais interessante.
Porque talvez estejamos discutindo a presença das mulheres na liderança como se estivéssemos falando apenas de diversidade.
Não estamos.
Estamos falando sobre o futuro econômico da indústria da comunicação.
Façamos um pequeno exercício de futurologia.
Se hoje as mulheres são ampla maioria em tantas salas de aula de Comunicação, daqui a alguns anos elas serão ampla maioria também entre os profissionais mais preparados para assumir posições de comando.
É matemática.
Ou deveria ser.
Elas liderarão marketing nos anunciantes.
Presidirão agências.
Comandarão veículos.
Dirigirão produtoras.
Fundando empresas de tecnologia.
Criando startups.
Decidindo investimentos.
Sentando-se em conselhos.
Definindo quais histórias serão contadas, quais tecnologias serão adotadas e, principalmente, que tipo de cultura organizacional será considerada aceitável.
E talvez seja justamente aí que a coisa fique realmente revolucionária.
Porque não acredito que o grande impacto dessa geração seja simplesmente substituir homens por mulheres nas mesmas cadeiras.
Isso seria pouco.
Seria trocar os personagens e manter o roteiro.
A verdadeira transformação acontecerá se essas mulheres decidirem mudar o próprio significado da cadeira.
Talvez questionem uma indústria que durante décadas confundiu liderança com disponibilidade permanente.
Talvez descubram que trabalhar até duas da manhã não é necessariamente demonstração de talento.
Talvez percebam que genialidade e grosseria nunca foram sinônimos.
Que medo não é respeito.
Que reunião longa não significa decisão importante.
Que ter filhos não deveria interromper uma trajetória brilhante.
Que sensibilidade não é o oposto de racionalidade.
Que colaboração não diminui autoridade.
E que ninguém precisa reproduzir os piores hábitos masculinos para provar que sabe liderar.
Essa talvez seja a armadilha mais sofisticada de todas.
Passamos décadas dizendo às mulheres:
“Vocês também podem chegar lá.”
Mas muitas vezes acrescentamos silenciosamente:
“Desde que aprendam a se comportar como os homens que chegaram antes.”
Talvez a próxima geração responda:
Não, obrigada.
E isso pode ser maravilhoso.
Porque uma indústria da comunicação liderada por mais mulheres talvez seja menos fascinada pelo arquétipo do gênio solitário e mais interessada na inteligência coletiva.
Talvez seja menos tolerante com ambientes tóxicos disfarçados de culturas de alta performance.
Talvez compreenda melhor que criatividade nasce de repertórios diferentes.
Talvez fale com mulheres não como um “target”, mas como pessoas complexas que trabalham, compram, investem, empreendem, envelhecem, desejam, lideram e mudam de ideia.
Talvez mude inclusive a publicidade.
Durante muito tempo, mulheres apareceram na comunicação através do olhar de homens.
Homens decidiam como elas deveriam ser bonitas.
Como deveriam ser mães.
Como deveriam envelhecer.
Como deveriam seduzir.
O que deveriam comprar.
E até o que deveria significar ser uma “mulher moderna”.
Agora, as mulheres que durante décadas foram o target estão caminhando para se tornar quem define o target, aprova a estratégia, controla o orçamento e escolhe a campanha.
O objeto da pesquisa está chegando à presidência da reunião.
E eu gostaria muito de assistir a isso.
Mas existe uma condição.
Precisamos mostrar mais mulheres que já chegaram.
Precisamos contar suas histórias.
Dar palco.
Microfone.
Visibilidade.
Não apenas no Dia Internacional da Mulher.
Não apenas em painéis chamados “Mulheres na Comunicação”.
Não apenas quando o assunto for diversidade.
Quero vê-las falando sobre inteligência artificial.
Economia.
Criatividade.
Gestão.
Mídia.
Tecnologia.
Negócios.
Fusões.
Aquisições.
Fracassos.
Resultados.
Poder.
Porque liderança feminina não é um assunto feminino.
É um assunto de liderança.
As jovens que hoje ocupam as universidades precisam conhecer essas mulheres.
Precisam saber seus nomes.
Conhecer seus erros.
Descobrir suas trajetórias.
Perceber que nenhuma carreira é uma linha reta e que até aquelas que parecem absolutamente seguras já tiveram medo de não estar prontas.
Referências não servem para criar cópias.
Servem para criar coragem.
E talvez exista uma responsabilidade especial para as mulheres que já chegaram às posições de liderança.
A de permanecer visíveis.
A de puxar outras.
A de ocupar espaços públicos.
A de aceitar convites.
A de contar histórias.
A de indicar outras mulheres.
A de não permitir que sejam sempre os mesmos homens explicando o futuro em todos os palcos.
Porque há uma geração inteira olhando.
E ela está chegando rápido.
Daqui a dez ou quinze anos, talvez olhemos para uma fotografia de uma reunião de presidentes de agências, CMOs, CEOs de veículos, produtoras e empresas de tecnologia e vejamos algo muito diferente do que vemos hoje.
Talvez haja mais mulheres do que homens.
E espero sinceramente que, quando isso acontecer, elas não tenham apenas conquistado os nossos antigos lugares.
Espero que tenham criado lugares novos.
Novas formas de trabalhar.
Novas definições de sucesso.
Novas relações com o tempo.
Novos modelos de liderança.
E, principalmente, uma indústria mais parecida com a sociedade para a qual ela pretende comunicar.
Porque o futuro da comunicação já está sentado diante de nós.
Está nas universidades.
De notebook aberto.
Celular na mão.
Provavelmente fazendo três coisas ao mesmo tempo.
E, em grande parte, é mulher.
Talvez nossa missão agora seja muito simples.
Fazer com que, quando essas meninas levantarem os olhos procurando alguém em quem se espelhar, não encontrem apenas homens dizendo que elas podem chegar lá.
Encontrem mulheres mostrando que já chegaram.
E, melhor ainda:
deixando a porta aberta para que as próximas possam ir muito além.
Finalizo agradecendo às lideranças femininas com quem convivo na APP Brasil e no mercado: Dilma Campos, Melissa Vogel, Rita Almeida, Deniane Bezerra, Luciana Schwartz, Mariana Cruz, Cris Pereira Heal, Anne Liz, Carol Zaine, Deh Bastos, Elisangela Peres, Alessandra Orrico, Elenice Galera, Sheila Vicente, Lucia Faria, Maria Teresa Arbulu, Melissa Moura, Renata Alcalde, Carolina Ignarra, Daniela Mozer, Henriane Morelli, Lina Moreira, Marta Gucciardi, Valerya Borges, Luiza Fraga, Patrícia Cordeiro, Tita Thomy e Joyce Oliveira.
Afonso Abelhão é sócio e CEO da agência BigBee, presidente da APP Brasil, conselheiro no IVC e no CONAR.
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