Cuidar das nossas relações profissionais é trabalho, mas também pode ser diversão
Em tempos de vínculos mais frágeis e carreiras instáveis, construir uma boa rede exige esforço — e pode render encontros que vão muito além do networking
Estudo publicado pela Organização Mundial da Saúde em 2025 traça um cenário sombrio da conexão pessoal na nossa era:
“Os fatos são incontestáveis: a solidão e o isolamento social representam grandes desafios para a saúde pública e precisam ser enfrentados agora. A conexão social é essencial para a saúde, a força e a resiliência das pessoas e das sociedades. Os dados apresentados neste relatório demonstram a urgência de agir.
Não se engane: a conexão social não é apenas uma bela ideia. Ela é fundamental. Fortalece as comunidades, promove a cooperação e cria oportunidades. Sem conexão, não seremos capazes de enfrentar com sucesso os desafios que temos diante de nós — sejam eles relacionados à saúde pública, ao crescimento econômico ou à estabilidade social.”
Os números do relatório são impressionantes: uma em cada seis pessoas no planeta declara sofrer com a solidão, condição associada a cerca de 870 mil mortes por ano. O cenário vem se desenhando aos poucos, mas a pandemia e uma relação cada vez menos saudável com a tecnologia aceleraram o processo. O problema é geral, não está concentrado em um grupo demográfico, classe social ou região do planeta. Essa crise tem consequências para a saúde pública, mas também para a educação, o crescimento econômico e até a capacidade de inovação.
Além de ser tema de saúde, a conexão social tem grande impacto no desenvolvimento profissional. Na minha atividade, entrevisto dezenas de pessoas todos os meses, e é recorrente a reclamação sobre a dificuldade de criar novas relações profissionais relevantes. “Eu só consigo falar com quem já conheço”, ouço com frequência, em diferentes variações.
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A questão está por todos os lados. Quer um exemplo? A antropóloga Marina Roale, sócia da consultoria Consumoteca, escreveu dia desses sobre sua dificuldade atual: “Para quem nunca esteve numa salinha de palestrantes, talvez seja mais fácil reconhecer essa cena no ‘coffee’ antes do evento: música de fundo tocando, todo mundo se abraçando, e a gente meio sem saber em qual roda entrar. Esse coffee quebra-gelo é o que me dá gelo”.
E ela conclui: “Será que passei tempo demais escondida nas cavernas do home office?”.
Olho no olho
Para piorar a situação, o trabalho depende cada vez mais de uma boa rede de relacionamentos. Em primeiro lugar, precisamos de boas relações para a entrega em si. Ficam cada vez mais raras as posições de concentração solitária na frente do monitor ou da prancheta.
Até o programador de computadores, aquele misantropo trancado em algum lugar que a gente não devia atrapalhar, hoje trabalha em squads, precisa entender o papel de cada um no grupo, saber escutar e se colocar a cada sprint.
Mas há outro aspecto ainda mais cruel: hoje em dia, nossa fonte de renda é instável. As carreiras são compostas de passagens mais longas ou mais curtas, entremeadas por fases de empreendedorismo ou de trabalho freelancer.
Ter um excelente currículo e uma entrega impecável é fundamental. Mas a gente sabe que, nessas trocas de emprego e na hora de se virar por conta própria, o que faz a diferença são as relações: quem conhece nosso trabalho e nos chama, nos indica ou oferece referências.
Na vida profissional, dependemos cada dia mais de bons relacionamentos, tanto para conseguir trabalho quanto para realizá-lo.
Networking sem sofrimento
Mas como desenvolver e manter esses relacionamentos se estamos em uma crise de conexão? O primeiro passo, acho, é reconhecer o problema. Reconhecer a importância dos relacionamentos. Reconhecer nossa preguiça em atacar o problema.
Não faltam desculpas: o trânsito, a falta de tempo, a falta de paciência com o outro, a violência urbana, o custo de sair de casa, o cansaço paralisante.
A gente pode ver essa função de gerar e manter vínculos como trabalho, porque não deixa de ser. Exige tempo, esforço, aprendizado, método e resiliência, como qualquer outro aspecto da vida profissional.
Mas pode ser também uma oportunidade de aprendizado, diversão e crescimento. Especialmente se a gente encontrar pessoas que curte. Networking com pentelho é insuportável. Com quem a gente gosta e também curte estar junto, pode se parecer muito com uma grande amizade.
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