Do que os homens têm tanto medo?
Colunista reflete sobre o crescimento do medo e do vitimismo masculino diante da perda de privilégios históricos
Vejo muitos homens assustados. É constrangedor alguns comentários que vejo quando existe uma vaga afirmativa buscando mulheres. Em alguns momentos, preciso deixar algumas rodas de conversa, pois não consigo mais encarar este vitimismo masculino. Me pergunto o que anda motivando tanto medo.
Perdi meu pai aos 17 anos. Durante muito tempo, fui o único homem em casa. Sou o irmão mais velho de três irmãs. E tenho certeza de que, se você conversar com elas, talvez eu não fosse a pessoa mais adequada para estar escrevendo aqui. Em parte, porque assumi um lugar na vida delas que nunca foi meu.
Meu pai morreu. Um trauma enorme para meninas de 12, 10 e 9 anos. Elas precisavam apenas de um irmão mais velho, não mereciam que eu assumisse o papel de pai. Mas a verdade é que não havia nenhum adulto lúcido por perto para me orientar naquele momento. E, infelizmente, assumi um papel que não era meu.
Expectativas e papéis criados muitas vezes criam muitos problemas. Não me entenda errado: isso não é o problema, isso é sintoma. O problema é que estes conceitos antigos, como “você agora é o homem da casa”, “você é o provedor”, “você é o líder desta família” ou “você é o cabeça do casal” nunca estiveram certos, mas dominaram nossas estruturas familiares durante muito tempo. E isso constrói uma responsabilidade solitária que não faz o menor sentido.
Precisamos falar mais sobre isso, pois esses conceitos são poderosas correntes que aprisionam.
Privilégio invisível
Nós, homens, sempre tivemos vantagens. E tivemos por tanto tempo que nem mesmo nos damos conta delas. Aprendi, com um discurso do escritor David Foster Wallace, proferido em 2005, um conceito libertador. Ele explica que, para um peixe vivendo num aquário, entender a água é impossível, pois ele nasceu e cresceu imerso nela.
Como a água para o peixe, os homens nem sempre percebem o quando foram beneficiados ao longo dos tempos, e isso nunca fez o menor sentido. Precisamos ampliar a educação para meninos e homens. Precisamos ampliar a consciência sobre estes sentimentos.
Buscando respostas para comportamentos que não têm a menor justificativa, me deparei com o trabalho de Scott Galloway. Ele é autor de vários best-sellers, mas o livro dele que mais me chamou atenção ainda não conta com uma versão em português. Em “Notes on Being a Man”, numa tradução livre, “Notas sobre ser homem”, ele demonstra uma crise da nossa época e sugere soluções para o comportamento destes homens.
Ele afirma que meninos e homens vivem em crise. Mostra que os meninos têm menos probabilidade de se formar no ensino médio ou na faculdade do que as meninas. Um em cada sete homens relata não ter amigos, e os homens representam três em cada quatro mortes por desespero nos Estados Unidos.
E, se isso não bastasse, o pior ainda é que a falta de atenção a esses problemas criou um vácuo preenchido por vozes que defendem a misoginia, a demonização do outro e uma visão tóxica de masculinidade.
Devo dizer que entender esse contexto não diminui a responsabilidade dos homens. A violência, o desrespeito e o ódio continuam sendo escolhas, e precisam ser combatidos sempre. Precisamos acelerar os processos de criminalização.
Cadê o agressor?
Este mês, vi uma campanha da ONU Mulheres, criada pela Artplan, que me agradou muito. Penso que ela é um exemplo do tipo de educação que precisamos ver mais em nossos veículos.
O trabalho tem uma ideia forte, baseada no erro de construção de muitas notícias. O locutor é muito claro: sabe o que está faltando nessas notícias? O agressor. Ele demonstra como a voz passiva tira o homem da frase e, assim, tira também a responsabilidade. Assistam ao filme abaixo. Aproveito para, novamente, parabenizar os responsáveis pelo material.
Hoje, esse vácuo apontado no livro do Galloway é ocupado por uma rede de conteúdos e comunidades que vendem respostas simples para sentimentos complexos. Sob nomes diferentes, mas com discursos muito parecidos, esses grupos transformam frustração em ressentimento, e ressentimento em ódio direcionado às mulheres.
Recentemente, assisti a um episódio do podcast Café da Manhã, um produto incrível da Folha e do Spotify. Recomendo o episódio: “Por dentro da machosfera brasileira”.
Nele, a entrevistada Julie Ricard, pesquisadora do Desinfo.Pop/FGV, nos conta de seu mergulho no conteúdo de 85 grupos abertos do Telegram no Brasil, o que permitiu criar uma radiografia de parte da chamada “machosfera”.
Infelizmente, é aí que muitos homens estão buscando informação; na verdade, buscando espaço para dar forma à sua vitimização. Entendo que expor esses grupos é fundamental, pois muitos deles perpetuam um discurso de ódio. Não podemos negociar: isso não é liberdade de expressão, isso é discurso de ódio.
Questão de política
Ainda vejo pouco disso no discurso político, mesmo em um ano de eleição presidencial. Precisamos de medidas mais duras, pois, enquanto tentamos entender esse comportamento, são as mulheres que seguem pagando o preço todos os dias.
Entendo cada vez mais que grupos como o Misses At Work vão ganhar relevância e importância, e são fundamentais no desenvolvimento de uma comunicação que eduque, inclusive, os homens, pois, como já mostramos, existe um vácuo de oportunidade.
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