Será que o problema é você?
Esquecimentos, insônia, irritação e sensação de estranhamento podem não ser sinais de fracasso pessoal, mas de uma transição que muitas mulheres atravessam sem perceber
Metade das minhas amigas está tentando descobrir o que está acontecendo com elas. A outra metade ainda não percebeu que alguma coisa está acontecendo.
Nos últimos meses, nos encontramos para falar de trabalho, carreira, novos projetos, relacionamentos, filhos, pais envelhecendo e futuro. Conversas normais. Daquelas que começam em um assunto e terminam em quinze parênteses e algumas taças de vinho.
Mas, curiosamente, quase todas acabaram no mesmo assunto.
Uma esqueceu uma informação importante durante uma reunião.
Outra começou a acordar às três da manhã sem motivo aparente.
Uma terceira me disse:
— Eu não estou me reconhecendo.
Eu mesma tive que confessar que liguei a máquina de lavar sem colocar as roupas dentro. Só percebi quando o ciclo terminou.
E não eram conversas sobre o que ia mal. Eram conversas sobre o que estava mudando. Sobre a estranha sensação de não funcionar da forma como sempre funcionamos.
Foi aí que comecei a me perguntar se não estaríamos vivendo um enorme mal-entendido.
Passamos boa parte da vida aprendendo a interpretar qualquer dificuldade como algo que precisa ser corrigido. Se estou cansada, preciso ser mais disciplinada. Se estou insegura, preciso trabalhar minha autoconfiança. Se estou improdutiva, preciso me organizar melhor. Se estou falhando, o problema sou eu.
Só que, às vezes, o problema não é você.
Às vezes, é uma fase nova da vida para a qual ninguém nos preparou.
Cheguei aqui sabendo negociar contratos, apresentar projetos, liderar equipes e administrar crises. Mas ninguém nunca me falou o que acontece quando a perimenopausa (também chamada de climatério) entra na sala de reunião.
E ela entra.
Entra nas noites mal dormidas. Nos calorões. Na memória que, de repente, resolve nos deixar na mão. Na energia que oscila. Na irritação que aparece sem ser convidada. Mas entra, principalmente, em outro lugar: na maneira como começamos a nos enxergar.
Muitas de nós construímos nossas carreiras apoiadas numa crença silenciosa: eu preciso dar conta. Dar conta de tudo. Dar conta sem reclamar. Dar conta sem demonstrar vulnerabilidade. Só que o corpo nem sempre concorda com os acordos que fizemos ao longo da vida.
Recentemente ouvi Tom Nash em uma conversa com Simon Sinek no podcast A Bit of Optimism. Em determinado momento, ele comenta que nossa vida é menos definida pelos acontecimentos e mais pela história que construímos a partir deles.
Fiquei pensando nisso.
Porque a perimenopausa é um desses acontecimentos. Podemos escolher acreditar que estamos perdendo potência. Ou podemos entender que estamos atravessando uma transição e que talvez precisemos construir uma nova relação com o trabalho, com o tempo, com o corpo e com nós mesmas.
A diferença entre uma história e outra é grande. Uma vem acompanhada de vergonha. A outra traz consciência. Uma envolve a culpa. A outra desperta curiosidade. E, sinceramente, a curiosidade me parece uma companhia muito melhor para essa fase nova. Não tenho as respostas. Mas adoro boas perguntas.
E tenho a impressão de que muitas mulheres estão atribuindo à própria incompetência coisas que pertencem à biologia, à maturidade, ao cansaço acumulado ou simplesmente às transformações naturais da vida.
Então talvez valha trocar a pergunta.
Trocar:
“O que há de errado comigo?”
Por:
“Será que estou interpretando errado o que está acontecendo comigo?”
Dependendo da pergunta, muda tudo. Muda a forma como atravessamos tantas mudanças. Muda a generosidade com que olhamos para nós mesmas. E muda, principalmente, a história que escolhemos contar sobre quem estamos nos tornando.
Tenho a impressão de que o estranhamento faz parte do pacote. Talvez seja a forma que a vida encontra de avisar que alguma coisa dentro da gente está mudando. De novo.
Uma metamorfose ambulante, como diria o poeta.
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