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Wollying: quando a hostilidade vem de outra mulher

Entre piadas, silêncios e falsas sinceridades, coluna mostra como a rivalidade feminina pode deixar marcas difíceis de nomear

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Todas nós já passamos por wollying, aceitemos. Se não foi na quinta série, no colegial ou na firma, talvez tenha sido em todos esses lugares.

O nome voltou a circular recentemente, mas a violência é antiga. Wollying é um rótulo para algo que quase toda mulher já sentiu na pele: hostilidade, boicote, humilhação sutil, competição doentia e sabotagem vindo de outras mulheres.

O termo junta woman, mulher em inglês, e bullying. Ganhou nova visibilidade ao ser levado por uma delegação brasileira à CSW, a Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU, em Nova York. Não é “frescura de internet”. É uma tentativa de dar nome a uma dinâmica que corrói a autoestima, isola e, muitas vezes, empurra mulheres para a ansiedade, a depressão, a síndrome da impostora e o famoso pensamento: “O problema deve ser eu”.

Mas o que é, na prática, o tal wollying? Não é só aquela briga aberta, com xingamento e barraco, embora essa deselegância também aconteça. Muitas vezes, ele vem mascarado de silêncio e pseudo-elegância. A colega que nunca olha na sua cara. O grupo que te exclui sistematicamente das conversas. As piadas “só de brincadeira” sobre seu corpo, sua idade, suas escolhas. A amiga que te desqualifica pelas costas. A líder que te sabota em reuniões. A influencer que humilha outra mulher em nome da “sinceridade”. É o bullying com cara de “amiiiga” e um certo filtro social.

A violência que parece fofoca

A grande diferença em relação ao bullying “clássico” é o recorte: aqui, estamos falando de violência entre mulheres. Mulheres atacando mulheres, muitas vezes em um cenário já marcado por desigualdade de gênero.

Em vez de somar forças em um mundo que já nos cobra demais, uma parte de nós aprende a disputar terreno pisando na outra. E isso não surge do nada. Tem a ver com padrões de beleza inalcançáveis, com a ideia de que “só tem lugar para uma”, com a recompensa social dada para quem se alinha ao olhar masculino, com a velha competição por aprovação, status e relacionamento.

Na superfície, é só “fofoca”, “brincadeira”, “jeito de ser”. Na base, é uma dinâmica de poder. Quando um grupo de mulheres, ou uma liderança, isola e ridiculariza outra, envia uma mensagem clara: você não pertence, sua voz não importa, seu corpo não serve, sua opinião é ridícula.

Isso mexe com a identidade, com a autoconfiança, com a capacidade de se colocar no mundo. E, como é tudo muito sutil, a vítima acaba duvidando de si mesma: “Será que estou exagerando?”, “Será que entendi errado?”, “Melhor ficar quieta”.

Sem cair no clichê

A discussão sobre wollying tenta justamente puxar essa violência para a luz. Não para alimentar a narrativa de que “mulher é inimiga de mulher”, um clichê misógino conveniente demais, mas para reconhecer que, sim, nós também podemos reproduzir a lógica de opressão umas sobre as outras.

E, se não dermos nome a isso, se não encararmos o desconforto, vamos continuar chamando crueldade de “sinceridade” e boicote de “liberdade de opinião”.

 


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Falar de wollying é mexer em um vespeiro. É cutucar microagressões entre amigas, colegas, mães e filhas, grupos feministas, coletivos profissionais. É perguntar: por que eu sinto prazer quando outra mulher fracassa? Por que eu diminuo o sucesso dela? Por que eu me sinto mais “especial” quando me alinho ao olhar que a desqualifica?

É duro admitir. Mas necessário, se a gente leva a sério qualquer ideia de sororidade que não seja só hashtag.

Dois causos, uma lição

Tenho um ou dois causos excelentes, e pessoais, sobre isso.

Quando eu trabalhava em uma loja de moda super bacana no Shopping Ibirapuera, nos meus tenros 17 anos, a gerente não me dava espaço para vender, que era justamente o objetivo de uma vendedora. Todo sábado, o dia da “riqueza”, ela me colocava para contar estoque.

Também me chamava de “gigantona”, com seu sotaque uruguaio, e tratava meus 1,74 metro, contra seu 1,50 metro, como se altura fosse algum demérito entre nós duas. Claro que eu falei o que sentia. E acabei demitida.

Mas o causo mais grave, e que me forjou como profissional ao longo dos meus 20 anos de mercado, veio da minha primeira experiência vendendo espaços publicitários digitais. Minha gerente me infernizou.

Mesmo com metas batidas, ela parecia se incomodar com a forma absolutamente autêntica que eu carrego ao me relacionar com pessoas, clientes ou não. Ela me seguia até o banheiro para apontar onde eu era “desclassificada” para o trabalho: minhas tatuagens, minha sociabilidade, minha presença.

No fim, acabei me desbocando. Agradeci por ela me ensinar como ser a profissional que eu jamais seria.

Foi, de fato, uma aula de como certas condutas femininas formam, ou deformam, a trajetória de nós, mulheres. O fato é que me tornei ainda mais empática com outras mulheres, minhas irmãs, por causa de situações como essa.

Sororidade não é blindagem

O ponto do movimento que levou o tema à ONU é este: se queremos falar de empoderamento feminino, precisamos falar também do que fazemos umas com as outras. E de como nós nos fazemos sentir.

Não basta apontar o machismo “de fora”. É preciso enxergar o machismo internalizado que opera “por dentro”, nas nossas relações.

Sororidade não é concordar com tudo, nem blindar mulheres de crítica. É colocar um limite ético: não desumanizar, não ridicularizar, não destruir a outra para conquistar um lugar à mesa.

Combater o wollying não é virar polícia do comportamento alheio, nem viver pisando em ovos. É assumir pequenas práticas muito concretas: não rir da piada que humilha outra mulher; não alimentar fofocas que destroem reputações sem necessidade; não excluir alguém de propósito de um grupo só porque ela é “diferente”; não usar a pauta feminista para fazer palco em cima da dor de outra.

E, sobretudo, conseguir se perguntar honestamente: eu estou disputando com essa mulher o quê, exatamente?

No fim das contas, dar nome a esse fenômeno é um convite à responsabilidade. Entre seguir repetindo o roteiro da rivalidade e escolher construir algo mais saudável entre nós, há um espaço enorme.

É nele que o debate sobre wollying tenta entrar. Não para nos culpar ainda mais, mas para lembrar que, em um mundo que já nos atravessa de todos os lados, a última coisa de que precisamos é virar arma uma na mão da outra.

As manifestações, opiniões e interpretações contidas neste conteúdo são de exclusiva responsabilidade do autor, não representando o entendimento, posicionamento ou linha editorial do Misses At Work e/ou do Misses At News.

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Dani Mozer

Dani Mozer é publicitária de coração, DPO, e agora colunista, com 20 anos em mídia e marketing digital, fundadora da Content Lovers Digital e cofundadora do Misses at Work.

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