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“Quem abriu portas para mim foram mulheres”: Misses falam de carreira e liderança no Fest’Up

Painel reuniu diferentes gerações para discutir mudanças de carreira, redes de apoio, machismo e os desafios de quem está chegando ao mercado da comunicação

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As mulheres são maioria nas agências de publicidade brasileiras, mas essa presença diminui quando se chega ao topo. Elas representam 57% dos profissionais e ocupam 52% das diretorias, mas apenas 24% dos cargos de CEO, segundo o II Censo de Diversidade das Agências Brasileiras, realizado pelo Observatório da Diversidade na Propaganda (ODP) e pela Gestão Kairós, em 2024.

Foi nesse cenário que o Misses at Work levou ao Fest’Up São Paulo 2026, neste sábado (19), uma conversa sobre carreira, liderança, redes de apoio e os caminhos que ainda precisam ser abertos para as mulheres no mercado da comunicação.

Promovido pela APP Brasil, o Fest’Up acontece simultaneamente na ESPM e na Belas Artes, em São Paulo. Com mais de 30 anos de história e forte presença de estudantes e profissionais em início de carreira, o evento adotou nesta edição o tema “Trilhas da Comunicação”, com uma programação voltada aos diferentes campos de atuação e às transformações do setor.

Caminhos nada lineares

No painel “Um belo dia, resolvi mudar: o start da transformação do mercado”, Dani Mozer, cofundadora do Misses at Work e integrante da diretoria de ESG da APP Brasil; Cathy Birle, head de Conteúdo do Misses at Work; Leila Ferraz, sócia da Agência Oribá; e Danae Stephan, fundadora e head de Conteúdo deste Misses at News, partiram das próprias trajetórias para discutir as mudanças que marcaram suas carreiras.

E nenhuma delas chegou até ali por uma linha reta.

“Antes fosse um belo dia”, brincou Dani Mozer ao falar sobre o título do painel. Ela começou a trabalhar aos 15 anos, passou por vendas, chegou à Santa Ifigênia, onde vendia hardware e software, e acabou entrando no mercado publicitário. “Foram belos anos, na verdade, em que eu resolvi mudar, porque tudo é um processo, tudo é um aprendizado.”

Leila Ferraz também entrou na comunicação por uma porta improvável. Nascida em Mato Grosso do Sul, chegou a São Paulo e trabalhou como recepcionista em uma agência. A empresa identificou seu potencial e se ofereceu para pagar metade de sua faculdade. Vieram depois a redação, a comunicação corporativa e, finalmente, o empreendedorismo. Hoje, ela é sócia da Oribá e diretora voluntária do Instituto GAS, ONG que atua com pessoas em situação de rua e comunidades.

Danae Stephan contou que começou a trabalhar ainda adolescente com histórias em quadrinhos e, quando aquele mercado encolheu, precisou buscar outros caminhos. Passou por veículos como Abril, Editora Globo e Folha de S.Paulo, até se aproximar mais recentemente dos mercados de publicidade e marketing e assumir o Misses at News.

“Acho que, se isso já era importante na nossa geração, é ainda mais importante na geração de vocês. O mercado em que eu entrei não é mais o mesmo. O mercado em que ela entrou não é mais o mesmo. E o que levou três décadas para mudar no nosso, para vocês leva três dias”, disse.

Quem abre a porta

Uma das perguntas do painel levou a conversa diretamente para as relações que ajudam — ou dificultam — uma carreira: quem abriu uma porta para você e como isso influencia a maneira como você abre portas para outras pessoas?

“Quem abriu portas para mim foram mulheres. Todas as vezes”, respondeu Danae. Ela lembrou da profissional que lhe deu a primeira oportunidade de publicar em uma revista e de editoras que tiveram papel importante em seu desenvolvimento profissional.

“Acho que um pouco do nosso papel é isso: abrir portas, reverenciar quem nos ajudou, quem estendeu a mão, quem ensinou. Porque liderança não é só mandar. Liderança é ensinar, é treinar, é orientar.”

A última dessas portas, contou, foi aberta pela própria Dani Mozer, quando a convidou para assumir o projeto editorial do Misses at News e lhe deu autonomia para desenvolvê-lo.

A relação entre o Misses e a APP Brasil também já se estende para além do Fest’Up. Dani integra a diretoria de ESG da associação, e profissionais ligados à entidade estão entre os colunistas do Misses at News. A lista inclui Afonso Abelhão, atual presidente da APP Brasil; Silvio Soledade, vice-presidente de Expansão e Mercados Regionais; Regi Andrade, da diretoria de Educação e Desenvolvimento Profissional; e Cris Pereira Heal, vice-presidente de ESG.

Liderar também se aprende

Se abrir portas apareceu como uma responsabilidade de quem já avançou na carreira, ocupá-las trouxe outros desafios.

Para Leila Ferraz, um deles foi aprender a pedir. Quando se tornou sócia da Oribá, ela nunca havia liderado sequer um estagiário. De repente, precisava coordenar pessoas que, em alguns casos, tinham mais experiência do que ela.

“Eu tinha que aprender a entender que a Dani tinha um jeito de fazer que pode dar muito certo, mas ser completamente diferente do meu”, exemplificou.

Centralizadora, ela também precisou abandonar a ideia de que só daria certo se fizesse tudo sozinha — e enfrentar uma cobrança bastante conhecida entre mulheres em posições de comando: a expectativa de ser sempre agradável. “Tem horas em que você precisa aceitar que você vai ser vilão na história de outras pessoas”, afirmou.

Dani foi ainda mais direta ao ser questionada sobre a pressão para que mulheres sejam agradáveis, disponíveis e conciliadoras: “Caguei”.

Por trás da resposta bem-humorada, veio uma discussão sobre estruturas que ainda condicionam a ascensão profissional das mulheres. “O mercado de trabalho funciona para as pessoas que são aguerridas e que não aceitam serem empacotadas”, afirmou.

O machismo que não grita

A discussão chegou também aos homens presentes na plateia. Um deles perguntou como identificar a diferença entre exercer liderança e reproduzir comportamentos machistas ou abusivos.

Dani respondeu que boa parte desses limites é conhecida por quem os ultrapassa: “Vocês sabem quando estão sendo babacas”.

Danae chamou a atenção, porém, para situações menos explícitas. “Tem coisas que são muito óbvias, muito claras. Então assédio moral, assédio sexual, são muito fáceis de perceber. Só que a gente tem camadas que são muito mais sutis e que fazem tão mal quanto, exatamente porque não são visíveis e vão minando por trás.”

Entre os exemplos, citou processos seletivos em que mulheres, pessoas negras ou profissionais mais velhos são descartados sem sequer saber o motivo e situações cotidianas em reuniões.

“Você dá uma ideia e a sua ideia é ignorada. Você fala de novo e aí você é chata. E aí o primeiro macho que fala a mesma coisa: ‘Puta ideia!’. Eu vi isso acontecendo na minha cara.”

Para quem quer atuar como aliado, ela resumiu o primeiro passo em uma palavra: ouvir.

Quem está chegando

A conversa encontrou eco justamente entre quem começa agora a percorrer essas “trilhas da comunicação”.

Ana Clara Rodrigues da Silva, 20 anos, estudante de Jornalismo e moradora de Lorena, no interior de São Paulo, saiu do painel pensando nas referências disponíveis para as mulheres mais jovens.

“É tão difícil a gente olhar para alguém e ter mulher como referência, principalmente de escrita”, disse depois do painel. “Ver que tem você, tem a Daniela, tem outras pessoas, e que existe uma expansão para a gente olhar… A gente não precisa olhar para aquilo que já está ali e pensar que o caminho é assim ou assim. Tem outras possibilidades.”

Para ela, a conversa deve permanecer para além da faculdade. “Estou bem inspirada, bem alegre com o que eu vi, com o que estou levando para casa. Acho que é uma coisa que vou levar não só para agora, mas para o resto da vida.”

Júlia Lobo Teixeira está ainda no segundo semestre de Publicidade e Propaganda na Unitau, em Taubaté, e foi ao Fest’Up justamente para conhecer melhor um mercado que ainda está descobrindo.

“É muita coisa nova ainda, e também é um mercado que evolui todos os dias”, disse. Júlia já se interessa por direção criativa e pela construção dos conceitos por trás de campanhas, mas não quer fechar as possibilidades tão cedo. “Eu estou explorando bastante as áreas. […] É sempre bom saber novas áreas e sempre tem novas áreas a surgir.”

Para uma estudante que está começando a carreira em um mercado que muda tão rapidamente, acompanhar essas discussões desde agora pode fazer diferença mais adiante.

“Estar cada vez mais inserida desde o começo, eu acho que vai me ajudar imensamente no futuro para construir a minha vida profissional.”

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