Quem decide os rumos da IA no Brasil? Quase nunca uma mulher
Apenas 4,7% dos cargos executivos ligados à inteligência artificial em empresas especializadas no setor no país são ocupados por mulheres; desigualdade cresce justamente onde estão as decisões
A inteligência artificial avança sobre empresas, profissões e decisões de negócios em uma velocidade difícil de acompanhar. No entanto, quando a pergunta deixa de ser quem usa a tecnologia e passa a ser quem decide seus rumos, a presença feminina praticamente desaparece.
No Brasil, mulheres ocupam apenas 4,7% dos cargos executivos ligados à inteligência artificial em empresas especializadas no setor. A participação fica muito abaixo da média mundial, que já é baixa: 13,3%.
Os números fazem parte de um levantamento do LinkedIn realizado com profissionais de 27 países. Além disso, mostram que a desigualdade aumenta à medida que a carreira avança. Nas posições de IA abaixo da cúpula dessas empresas no Brasil, as mulheres representam 22,1%.
Portanto, o problema não está apenas na entrada feminina nesse mercado. Ele aparece com ainda mais força no caminho até os espaços nos quais as decisões estratégicas são tomadas.
A desigualdade aumenta no caminho até o topo
O levantamento identifica uma espécie de afunilamento feminino no setor.
Globalmente, as mulheres ocupam 29% das funções iniciais de IA nas empresas especializadas na tecnologia. Entretanto, essa participação diminui conforme aumenta o nível de responsabilidade.
Entre CEOs de empresas de inteligência artificial, apenas 13,9% são mulheres. Já entre CTOs com experiência em IA, a participação feminina cai para 9,3%.
O estudo utilizou informações profissionais disponíveis no LinkedIn e considerou empresas com mais de 50 funcionários. Por isso, não representa um censo completo do mercado. Ainda assim, a dimensão da base e a diferença encontrada entre os níveis hierárquicos revelam um desequilíbrio difícil de ignorar.
A disparidade acompanha um problema mais amplo no setor. De acordo com uma análise do Fórum Econômico Mundial sobre a desigualdade de gênero nas carreiras de tecnologia, as mulheres representam 28% da força de trabalho em STEM, mas ocupam pouco mais de 12% dos cargos executivos dessas áreas.
A IA já interfere em decisões cotidianas
A questão ganha peso porque a inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta restrita às empresas de tecnologia.
Hoje, sistemas baseados em IA participam de processos de contratação, análise de dados, atendimento ao consumidor, desenvolvimento de produtos, publicidade, concessão de crédito e inúmeras outras atividades.
Consequentemente, discutir diversidade nesse mercado significa mais do que perguntar quem consegue emprego na área.
Significa perguntar quem participa da construção e das decisões sobre uma tecnologia que passa a interferir na vida de milhões de pessoas.
Equipes pouco diversas também podem deixar de perceber vieses presentes nos dados e processos usados para desenvolver sistemas tecnológicos. Um estudo da iniciativa Women for Ethical AI, da Unesco, destaca que equipes diversas têm melhores condições de antecipar e reduzir vieses de gênero e outras formas de discriminação.
Por isso, a participação feminina em posições técnicas e, principalmente, em cargos de decisão passou a fazer parte da discussão sobre inovação responsável.
As profissões crescem. A presença feminina não acompanha
Outro dado chama atenção.
Entre 2021 e 2026, o número de profissionais técnicos de inteligência artificial praticamente triplicou. No mesmo período, porém, a participação feminina nessas funções caiu de 23% para 19%.
Ou seja, a expansão do mercado não está automaticamente produzindo maior diversidade.
Isso acontece justamente em uma área que concentra algumas das competências mais valorizadas da nova economia e que tende a exercer influência crescente sobre diferentes setores.
A distância entre presença e poder também aparece fora da tecnologia.
O Misses mostrou recentemente que apenas sete mulheres aparecem entre os 30 profissionais considerados mais influentes do marketing brasileiro, segundo o estudo Pulso 2026/2027, elaborado pela Deck e pela Nexus. Elas representam 23,3% da lista.
Leia no Misses: apenas 7 mulheres estão entre as 30 vozes mais influentes do marketing
Os levantamentos tratam de mercados diferentes. Entretanto, apontam para uma questão semelhante: aumentar a presença feminina na base não garante participação equivalente nos espaços de influência e decisão.
Quem constrói o futuro?
No caso da inteligência artificial, essa distância pode produzir consequências ainda mais profundas.
Empresas discutem como utilizar IA para transformar produtividade, trabalho, consumo e modelos de negócios. No Brasil, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial orienta políticas para o desenvolvimento e o uso da tecnologia. Ao mesmo tempo, o Congresso discute regras para a regulação da IA, enquanto profissões inteiras começam a incorporar essas ferramentas.
Nesse processo, porém, as mulheres continuam afastadas dos principais centros de poder. No Brasil, elas ocupam somente 4,7% das posições executivas ligadas à IA nas empresas especializadas analisadas pelo LinkedIn.
A transformação tecnológica pode ser rápida, mas a mudança de quem ocupa o poder, ao menos por enquanto, segue em outra velocidade.

