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90% dos homens dizem dividir o cuidado com os filhos; as mães discordam

Pesquisa da Ticket mostra que só 53% das mulheres veem equilíbrio nas responsabilidades familiares; dados do IBGE ajudam a dimensionar a sobrecarga

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Os homens, ao que parece, vivem fora da realidade no que se refere à divisão de cuidados em casa, especialmente quando se fala de cuidados com os filhos.

Uma pesquisa da Ticket, marca de benefícios e engajamento da Edenred Brasil, mostra que 90% dos pais afirmam dividir de forma igualitária as responsabilidades com as parceiras. Entre as mães, só 53% compartilham da mesma percepção.

O dado chama atenção não apenas pela diferença entre as respostas, mas pelo que revela sobre uma discussão mais ampla: a divisão do cuidado dentro de casa ainda está longe de ser equilibrada. E isso não aparece só na percepção das famílias. Aparece também no tempo dedicado às tarefas, na permanência das mulheres no mercado de trabalho e no peso que a maternidade ainda tem sobre a carreira delas.

O levantamento da Ticket ouviu 1.945 pessoas em todo o país, entre abril e maio de 2026. Os resultados reforçam um padrão já observado em edições anteriores da pesquisa. Em 2025, 93% dos homens afirmavam dividir igualmente os cuidados com os filhos, enquanto, entre as mulheres, o índice era de 67%.

A comparação mostra que a percepção masculina segue muito alta. Já entre as mulheres, houve uma queda importante na sensação de equilíbrio: de 67% para 53% em um ano.

A conta do tempo

Os números da Ticket dialogam com uma realidade já mapeada por outras pesquisas. Segundo o IBGE, em 2022, as mulheres dedicavam, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e/ou ao cuidado de pessoas. Entre os homens, a média era de 11,7 horas.

Na prática, isso significa quase 10 horas a mais por semana para elas. É mais de uma jornada extra por mês dedicada a atividades que sustentam a rotina da casa, da família e, muitas vezes, da própria possibilidade de outras pessoas trabalharem fora.


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O Ipea também aponta que, no Brasil, ser mulher acrescenta, em média, cerca de 10 horas semanais ao trabalho doméstico e de cuidado não remunerado em comparação aos homens. Já a OIT estima que as brasileiras dedicam 9,8 horas a mais por semana do que eles a esse tipo de atividade.

Então como explicar que 90% deles digam que a divisão é igualitária? Talvez eles não entendam a diferença entre ajudar, participar e assumir corresponsabilidade.

Parentalidade pesa diferente

Para Tatiana Romero, diretora de Recursos Humanos e Sustentabilidade da Edenred Brasil, os dados refletem um descompasso entre percepção e experiência prática da rotina familiar, tema que tem ganhado espaço nas discussões sobre mercado de trabalho, equidade de gênero e bem-estar corporativo.

“A parentalidade ainda impõe desafios distintos para homens e mulheres, especialmente quando falamos sobre gestão da rotina familiar e responsabilidades de cuidado. Esses dados ajudam a ampliar a reflexão sobre como as empresas podem contribuir para ambientes mais acolhedores e políticas mais aderentes às necessidades das famílias”, afirma Tatiana.

O impacto dessa diferença não fica restrito à vida doméstica. Ele também aparece na trajetória profissional. Estudo da FGV Ibre sobre maternidade e participação feminina no mercado de trabalho aponta que a presença de filhos aumenta de forma expressiva o gap de participação entre homens e mulheres na força de trabalho.

Em 2021, mulheres com filhos recém-nascidos tinham 49,6 pontos percentuais a menos de probabilidade de estar no mercado de trabalho quando comparadas aos pais. A diferença diminui conforme os filhos crescem, mas, segundo a análise, o efeito da maternidade sobre a participação feminina pode ser prolongado.

O papel das empresas

Entre as práticas que as empresas podem adotar para apoiar os colaboradores nesse desafio estão licenças estendidas, flexibilização de horários e locais de trabalho em alguns dias da semana, programas de apoio psicológico e iniciativas de conscientização para promover a corresponsabilidade nos cuidados familiares.

Mas o ponto central talvez esteja menos em oferecer benefícios isolados e mais em reconhecer que parentalidade não pode continuar sendo tratada como uma questão quase exclusivamente feminina.

A discussão tem avançado nas empresas brasileiras nos últimos anos, impulsionada por debates relacionados à flexibilidade, saúde mental, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e retenção de talentos. Ainda assim, os dados mostram que a mudança cultural dentro das casas segue sendo parte essencial dessa equação.

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Danae Stephan

Editora, produtora, leitora compulsiva e inimiga do lugar-comum há mais de 30 anos. Hoje à frente do "Misses at News", já passou por "Folha de S.Paulo", Editora Abril, Editora Globo, "UOL" e "Glamurama", entre outros.

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