Google seduz o jornalismo brasileiro como europeus fizeram com tupiniquins
Estadão expõe processos contra o Google nos EUA, mas aqui no Brasil seguimos encantados com o brilho do espelho da programática que drena receitas e escraviza publishers
O editorial “O parasitismo das big techs”, do Estadão (03/02/2026), acerta em cheio num alerta que faço há mais de 10 anos: o monopólio das big techs suga receitas publicitárias do jornalismo profissional, trocando qualidade por algoritmos de engajamento burros, e eu vou além, fraudulentos. Não à toa, The Atlantic, McClatchy, Vox Media, Condé Nast e Penske Media processam o Google por práticas manipuladoras pela “monopolytech”.
Mas e no Brasil? Aqui o problema é pior: criamos uma dependência doentia do modelo Google. ATDs, DV360, AdX, PMX — viramos colônia digital, fascinados pelo “espelho” da programática que os gringos nos venderam no “descobrimento” da mídia tupiniquim. Publishers brasileiros cortam times de revisão e edição, terceirizam para monopólios e acham normal 30% das impressões virarem fumaça em MFA e bots.
Dependência crônica e encantamento colonial
O Estadão descreve o ciclo vicioso: conteúdo verificado gera bilhões para o Google, mas retorna migalhas aos produtores. Nos EUA, o setor reage com processos.
Aqui? Agências locais celebram “escala” enquanto espoliam publishers nacionais — que monetizam fake news e sensacionalismo para sobreviver ao RTB predatório.
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Os comentários do Estadão ecoam no ceticismo: uns falam em “servidão voluntária” aos algoritmos; uns criticam a militância midiática. No Brasil, somamos isso à nossa sina: encantados com a parafernália tecnológica estrangeira, ignoramos como ela nos torna reféns. Google não é parceiro; é o Cabral digital, trocando bugigangas por nosso ouro publicitário.
Hora de despertar a brasilitech?
Enquanto Europa multa e EUA processa, o Brasil patina na LGPD frouxa e na ilusão da “eficiência programática”.
Solução? Voltar ao nativo: publieditorial ético, first-party data, branded content que valoriza contexto sobre cliques falsos, deals diretos. Valorizar o conteúdo do produtor no Brasil profundo? Não uma nem duas vezes minha rede foi “vetada” por ter o real suprassumo do jornalismo que reflete a verdade do nosso país. E nisso vejo mais oportunidade que o inverso.
O Estadão tem razão: sem jornalismo sustentável, a democracia apodrece. Mas dependência do Google é nossa autossabotagem colonial.
Desencante-se com o espelho, Brasil! É hora de quebrar o vício.