O preço de ser vista
Publicar, liderar, empreender e realizar um sonho exigem aceitar que outras pessoas terão uma opinião sobre nossas escolhas
Se alguém olhasse para a minha trajetória de fora, provavelmente não me descreveria como uma pessoa medrosa.
Aos 13 anos, mudei-me para os Estados Unidos sem falar inglês. Deixei família, amigos e tudo o que conhecia para trás. Pouco tempo depois, comecei a trabalhar. Errava, aprendia, voltava no dia seguinte e fazia tudo de novo.
Anos mais tarde, fiz as malas outra vez. Dessa vez, para a Espanha. Nunca tinha pisado na Europa e não conhecia ninguém. Descobri que, além do espanhol que eu falava, boa parte das pessoas também se comunicava em catalão. Pela primeira vez, precisei aprender a morar sozinha, administrar meu dinheiro, pagar aluguel e contas e resolver problemas sem ter ninguém por perto.
Ao longo da vida, morei em cinco países. Recomecei mais vezes do que consigo contar. Olhando para trás, percebo que minha história foi construída atravessando medos.
Mas existe um tipo de medo que continua me visitando. Curiosamente, ele não aparece quando preciso mudar de país, recomeçar uma carreira ou enfrentar um grande desafio. Aparece quando preciso ser vista.
Quando a ideia sai da cabeça
Foi exatamente isso que aconteceu com o Se Renda. Demorei anos para tirar o podcast do papel. Não porque faltasse vontade ou porque eu não acreditasse na ideia. O que me travava era outra coisa.
No momento em que ele fosse ao ar, deixaria de ser um projeto protegido dentro da minha cabeça para se tornar algo que qualquer pessoa poderia assistir, criticar, ignorar ou simplesmente não gostar.
Lançar um podcast significava expor uma parte de mim. E descobri que, para mim, a exposição sempre foi mais desafiadora do que a mudança.
Até hoje me pergunto se devo aparecer mais ou escrever mais. Se devo gravar vídeos ou ficar nos bastidores. Como manter uma produção constante de conteúdo sem perder a autenticidade. Ainda sinto um frio na barriga antes de apertar o botão de publicar.
Foi então que percebi: talvez meu maior desafio nunca tenha sido enfrentar o desconhecido, mas aceitar ser vista.
Quanto mais comecei a estudar o assunto, mais entendi que essa história não é apenas minha. Ela é humana.
Costumamos dizer que temos medo de errar. Mas será que é isso mesmo? Ou temos medo de errar diante dos outros?
Dados do PISA 2018, da OCDE, mostram que 56% dos adolescentes se preocupam com o que os outros pensarão quando fracassarem. Uma análise feita com 517.047 estudantes de 59 países identificou ainda que esse medo é mais intenso entre as meninas, principalmente entre aquelas com alto desempenho.
Isso me levou a outra pergunta: em que momento errar deixou de ser apenas parte do aprendizado e passou a representar uma ameaça à nossa imagem?
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A psicologia explica que esse processo começa cedo. Entre os sete e os nove anos, desenvolvemos uma consciência muito maior sobre como somos vistos pelos outros. Na adolescência, a necessidade de aprovação cresce ainda mais.
Sem perceber, aprendemos que errar pode significar decepcionar. Que fracassar pode diminuir nosso valor. Que ser julgada dói.
E levamos essa lógica para a vida adulta.
O risco de se expor
O medo não escolhe gênero, profissão ou idade. Ele visita homens e mulheres. Mas existe uma diferença importante: para muitas mulheres, crescer profissionalmente também significa se expor. E essa exposição ainda cobra um preço alto.
Um estudo da KPMG mostrou que 69% das mulheres aceitam correr pequenos riscos para avançar na carreira, mas apenas 43% se sentem confortáveis para assumir riscos maiores — justamente aqueles capazes de transformar uma trajetória.
Achei o dado revelador. Talvez um dos grandes obstáculos à ambição não seja a falta de competência, mas o receio da exposição.
Empreender exige exposição. Pedir uma promoção exige exposição. Criar conteúdo exige exposição. Escrever um livro exige exposição. Liderar exige exposição.
Realizar um sonho quase sempre exige aceitar que alguém terá uma opinião sobre ele.
Outro conceito que me chamou a atenção foi o chamado efeito holofote. A psicologia mostra que tendemos a superestimar o quanto as pessoas estão prestando atenção em nós.
Vivemos como se existisse um refletor apontado para cada erro, cada vídeo publicado, cada apresentação e cada tentativa.
A realidade costuma ser bem diferente. Enquanto você acredita que todos estão julgando seu conteúdo, a maioria das pessoas está preocupada com a própria vida, a própria carreira, as próprias contas e as próprias inseguranças.
Isso não significa que ninguém vá criticar você. Os julgamentos existem. O que costuma ser imaginário é o tamanho que damos a eles.
Quantas vezes deixamos de fazer alguma coisa por causa da opinião de pessoas que provavelmente esquecerão aquele momento muito antes de nós?
Talvez não seja o julgamento que nos paralise, mas a importância que damos a ele.
O medo sabe esperar
Escrevendo esta coluna, percebi outra coisa: o medo raramente diz “não faça”.
Ele diz: “Espere mais um pouco.”
“Quando você estiver pronta.”
“Depois daquele curso.”
“Depois que ganhar mais experiência.”
“Depois que tiver mais seguidores.”
O medo nem sempre impede os sonhos. Muitas vezes, apenas os adia. E esse “depois” pode durar anos. Durou para mim. Pode estar durando para você também.
Hoje, quando percebo que o medo está tentando decidir por mim, me faço cinco perguntas.
5 perguntas sobre o medo
1. Estou com medo de fracassar ou de ser vista fracassando?
2. Esse medo é um fato ou uma história que minha cabeça está contando?
3. Daqui a cinco anos, vou me arrepender mais de ter tentado ou de nunca ter tentado?
4. O que eu faria hoje se ninguém pudesse me julgar?
5. Qual é a menor ação que posso realizar ainda hoje, mesmo com medo?
Não conheço uma fórmula para eliminar o medo. Na verdade, nem sei se ela existe.
Aprendi, porém, que coragem não é esperar que ele desapareça. É decidir que nossos sonhos merecem ocupar um espaço maior.
Ainda hoje, depois de morar em cinco países, construir uma carreira da qual me orgulho e finalmente colocar o Se Renda no mundo, continuo sentindo aquele frio na barriga antes de publicar um conteúdo.
A diferença é que parei de esperar o medo ir embora para começar.
Desde que comecei a escrever esta coluna, existe uma pergunta que não sai da minha cabeça. Talvez ela faça sentido para você também:
O seu sonho já ficou grande o suficiente para ser mais importante do que o seu medo?
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