Hora do Reclame: por que pipoca passou a pedir Guaraná
Na voz de Lucinha Lins, campanha criada pela DM9 em 1991 transformou uma combinação simples em um clássico da publicidade brasileira
A pipoca começa a estourar e, para muita gente, a música vem junto. Quem viveu os anos 1990 provavelmente consegue cantar o comercial enquanto espera o lanche ficar pronto.
Lançado em 1991, “Pipoca com Guaraná” nasceu de um desafio da DM9: aproximar o Guaraná Antarctica dos adolescentes. Sob o comando criativo de Nizan Guanaes, a agência encontrou a oportunidade nos momentos de lazer e apresentou uma combinação fácil de experimentar.
Receita criativa
A ideia de associar o refrigerante a petiscos partiu de Nizan. César Brunetti compôs o jingle, com produção da MCR, de Sérgio Campanelli, conforme o Blog do Adonis. Na letra, o preparo da pipoca levava naturalmente à bebida: depois do sal, vinha a sede. Assim, a mensagem de venda entrava na brincadeira sem precisar interrompê-la.
Mas havia outra opção no cardápio. A campanha também contou com “Pizza com Guaraná”, seguindo a proposta de colocar a marca ao lado de comidas populares. A versão da pipoca, porém, ganhou vida longa e até uma adaptação carnavalesca, como relembra o GKPB.
Voz e direção
Quem deu voz à gravação original foi Lucinha Lins. Com uma interpretação leve e brincalhona, a atriz e cantora acompanhava o ritmo da pipoca e fazia o convite para compartilhar o lanche soar como uma conversa cantada.
Vale rever o filme prestando atenção nela. Embora não apareça como protagonista diante da câmera, Lucinha conduz a cena pela música, dando personalidade a uma letra sobre coisas tão cotidianas quanto uma panela e uma garrafa de refrigerante.
Além dela, outra mulher participou da construção do clássico: Flávia Moraes dirigiu o filme, produzido pela Film, com fotografia de Michel Chevalier.
Dá até sede
Enquanto a música conta a história, as imagens abrem o apetite. A pipoca pula, o sal cai e a garrafa aparece gelada. Em seguida, o som da tampa saindo completa o convite. A combinação de detalhes faz o espectador quase sentir o sabor do lanche.
Essa relação entre letra, melodia e consumo também despertou o interesse de pesquisadores. Em 2008, Gabriel de Oliveira Morais e Eneus Trindade apresentaram uma análise do jingle no congresso da Intercom, mostrando como a música ajudava a construir a mensagem publicitária.
Já no mercado, o reconhecimento veio em forma de troféus. Segundo a retrospectiva da Exame, a campanha conquistou a Lâmpada de Ouro, no Festival Brasileiro do Filme Publicitário, e o Grande Prêmio Cidade do Rio de Janeiro.
Sempre volta
Ao longo dos anos, novas intérpretes levaram o jingle a outros públicos. Em 2020, a releitura com Manu Gavassi teve um bastidor bem diferente das gravações tradicionais: durante o isolamento social, a cantora transformou o apartamento em cenário, usou o celular como câmera e recebeu orientação da equipe a distância.
Depois, em 2026, Ivete Sangalo levou a música ao Carnaval, em uma campanha do Guaraná Antarctica Zero. O refrão encontrou, assim, gente que nem havia nascido quando o original chegou à televisão.
Para quem já conhecia, ficou a oportunidade de cantar outra vez. Afinal, o comercial saiu do intervalo, mas continuou na cozinha.

