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Hora do Reclame: “Aquarela” coloriu a publicidade da Faber-Castell

Lançado em 1983, comercial uniu os lápis de cor da marca à música de Toquinho e atravessou gerações com uma animação delicada

Uma folha em branco, alguns traços e uma caixa de lápis de cor. Foi o suficiente para a Faber-Castell criar um dos comerciais mais lembrados da televisão brasileira.

Lançado em 1983, o filme “Aquarela” acompanhava os versos da canção de Toquinho com desenhos que surgiam e ganhavam movimento na tela. Aos poucos, castelos, barcos, aviões e outros elementos do universo infantil apareciam como se tivessem acabado de sair das mãos de uma criança.

A propaganda não precisava explicar a qualidade dos lápis ou enumerar as cores disponíveis. Em vez disso, mostrava o que poderia nascer da imaginação de quem tivesse uma folha de papel e uma caixa da marca por perto.

A música encontrou os lápis

“Aquarela” foi lançada por Toquinho em 1983, mesmo ano em que chegou ao comercial da Faber-Castell. A composição tem autoria atribuída a Toquinho, Maurizio Fabrizio, Guido Morra e Vinicius de Moraes.

Embora tenha se tornado um clássico brasileiro, a canção começou sua trajetória internacional. A primeira versão foi gravada em italiano com o título “Acquarello”. Depois, Toquinho lançou a gravação em português, que encontrou nos lápis de cor uma tradução visual quase imediata.

A letra descrevia imagens que se formavam a partir de traços simples. Portanto, a relação com uma marca de materiais artísticos parecia natural. Quando a música falava de desenho, cor e imaginação, os produtos apareciam em ação, sem interromper a narrativa.

Como resultado, muita gente passou a associar a canção diretamente à Faber-Castell, mesmo quando a ouvia longe da televisão.

Uma animação feita para permanecer

A campanha foi criada pela agência FCB/Siboney, com participação da publicitária Christina de Carvalho Pinto. Já a produção ficou sob responsabilidade da Start Anima, estúdio brasileiro especializado em animação.

O filme seguia uma lógica simples. Os lápis riscavam a tela e os desenhos acompanhavam o caminho sugerido pela música. Dessa forma, produto, trilha e imagem pareciam fazer parte da mesma história.

Além disso, a animação evitava que o comercial ficasse preso a um cenário ou a uma época muito específica. Não havia moda, decoração ou tecnologia capaz de envelhecer rapidamente. O universo desenhado permanecia familiar para diferentes gerações de crianças.

Essa escolha ajudou a campanha a continuar reconhecível décadas depois. Quem assistiu ao comercial nos anos 1980 provavelmente ainda consegue reconstruir algumas cenas ao ouvir os primeiros acordes da música.

O retorno de um clássico

Doze anos após a estreia, em 1995, a Faber-Castell apresentou uma nova versão da campanha. O filme ganhou recursos de animação mais modernos e outra interpretação da música, mas preservou a ideia central do original.

A marca continuou revisitando o conceito ao longo dos anos. Segundo o Meio & Mensagem, até 2012 já haviam sido produzidas 26 versões de “Aquarela”. Naquele momento, uma nova leitura da canção buscou se aproximar do público jovem e apresentar produtos como canetinhas e lápis aquareláveis.

A quantidade de releituras ajuda a dimensionar a força da campanha. Em vez de abandonar uma ideia antiga, a Faber-Castell encontrou diferentes maneiras de atualizá-la.

O desafio estava justamente em mudar sem romper a memória afetiva construída pelo primeiro filme.

Novas cores para a mesma canção

Em 2018, a Faber-Castell voltou a usar “Aquarela” em uma campanha criada pela agência David. Dessa vez, o filme apresentou os lápis da linha Caras & Cores e colocou a diversidade racial no centro da narrativa.

A nova versão preservou a música e a animação, mas ampliou a representação dos tons de pele. Assim, a marca adaptou um de seus principais patrimônios publicitários a uma discussão contemporânea.

A iniciativa mostrou como uma campanha nostálgica pode ganhar novos significados. A lembrança do filme original atraía a atenção dos adultos, enquanto as novas cores aproximavam a comunicação das crianças que conheciam a marca naquele momento.

Quando o comercial vira lembrança de infância

“Aquarela” se tornou especial porque não tratava o produto como o único protagonista. Os lápis estavam presentes, claro, mas serviam como instrumentos para transformar ideias em imagens.

Além disso, o filme chegou à televisão em uma época na qual o material escolar ocupava um espaço importante no imaginário infantil. Escolher o estojo, os cadernos e a caixa de lápis fazia parte do ritual de volta às aulas.

Por isso, a propaganda ficou ligada não apenas à marca, mas também à experiência de desenhar, colorir e começar um novo ano na escola.

Quatro décadas depois, a animação conserva sua delicadeza. Também continua mostrando uma qualidade que os melhores comerciais antigos conheciam bem: apresentar o produto sem deixar que a venda ocupasse todo o espaço da história.

No fim, a Faber-Castell vendeu lápis de cor. Porém, na memória de quem assistia, entregou um mundo inteiro para desenhar.


Foto de Marina Paes

Marina Paes

Marina von Glehn Paes é jornalista especializada em publicidade, marketing, comunicação e inovação. Foi editora-chefe do portal Adnews, onde acompanhou os principais movimentos do mercado, tendências de consumo, mídia, criatividade e negócios. Ao longo de sua trajetória, dedica-se à cobertura do setor de comunicação, com entrevistas, análises e reportagens sobre marcas, agências, veículos, tecnologia e as transformações que impactam a indústria.

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