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Outro lado do poder feminino: quando mulheres reproduzem o sexismo estrutural

Uma análise histórica e psicológica revela como mulheres em posições de poder podem perpetuar e escalar o sexismo – e mostra os caminhos para desconstruir essa toxicidade

Nos últimos anos, a discussão sobre a equidade de gênero tem ganhado força, e com ela, a complexidade das dinâmicas de poder. Um tema que emerge, por vezes desconfortável, é a observação de que mulheres, em certas posições de liderança ou influência, podem reproduzir e até escalar comportamentos tóxicos e sexistas.

Longe de ser uma falha inerente ao gênero, esse fenômeno é um reflexo da internalização de estruturas patriarcais e da busca por validação em sistemas que historicamente as oprimiram. Mas, se reconhecer o problema é o primeiro passo, quais são os caminhos para a mudança?

A raiz do problema: misoginia internalizada e a síndrome da abelha rainha

Mas antes de mergulharmos nas soluções, é crucial desmistificar a ideia de que a toxicidade no poder é uma característica exclusivamente masculina. E é fundamental entender suas causas. 

A misoginia internalizada é um fator chave: mulheres, socializadas em uma cultura que desvaloriza o feminino, podem adotar comportamentos agressivos e depreciativos contra outras mulheres para se sentirem validadas ou para provar que são “diferentes” ou “superiores”.

Soma-se a isso a síndrome da abelha rainha, na qual mulheres que alcançam o topo em ambientes competitivos veem outras mulheres como ameaças, perpetuando a exclusão em vez da sororidade. A necessidade de “endurecer” para sobreviver em ambientes hostis e o “tokenismo” (ser a “única” mulher em um grupo, validada por homens) também contribuem para essa dinâmica.

Exemplos históricos, como Ranavalona I de Madagascar, Irene de Atenas e Wu Zetian, embora distantes no tempo, servem como lembretes de que a crueldade e a opressão não têm gênero, mas são ferramentas de poder que podem ser empunhadas por qualquer um que opere dentro de um sistema patriarcal. 

  • Ranavalona I de Madagascar: ficou conhecida por seu reinado brutal e por causar a morte de uma parcela significativa de sua população para manter a independência de seu reino.
  • Irene de Atenas: cegou o próprio filho para assegurar o trono.
  • Wu Zetian: a única imperatriz regente da China, utilizou métodos impiedosos para eliminar rivais.

Essas mulheres ilustram bem como a busca e manutenção do poder podem levar à crueldade, independentemente do gênero.

Construindo um novo paradigma de poder

O reconhecimento dessas dinâmicas é o ponto de partida para a transformação. As soluções propostas focam em desconstruir padrões antigos e construir um poder feminino baseado na colaboração e na empatia:

1. Desconstrução da misoginia internalizada: autoconhecimento

Para mudar, é preciso primeiro reconhecer. Programas de mentoria e terapia focados em gênero são ferramentas poderosas para ajudar mulheres a identificar onde seus preconceitos contra outras mulheres se enraizaram.

É um convite à autoanálise: estou criticando outra mulher por um comportamento que eu aceitaria em um homem? Essa reflexão é crucial para desmantelar o sexismo internalizado e promover uma visão mais justa e solidária entre mulheres.

2. Sororidade estratégica: elevando umas às outras

A sororidade vai além de um sentimento; é uma prática ativa e estratégica. Em vez de competir por um espaço limitado, mulheres podem e devem criar mais espaço para todas:

  • Mentoria reversa: mulheres em posições de liderança têm a responsabilidade de ativamente guiar e apoiar outras mulheres, criando uma rede de suporte robusta. Isso significa abrir portas, compartilhar conhecimento e defender oportunidades.
  • Interrupção do ciclo: A lógica de que “eu sofri para chegar aqui, então elas também devem sofrer” precisa ser quebrada. A nova liderança feminina deve focar em facilitar o caminho para as próximas gerações, construindo pontes em vez de muros.

3. Redefinição do Conceito de Poder: Do Domínio à Colaboração

É fundamental transitar de um modelo de “poder sobre” (baseado em dominação e controle) para um “poder com” (focado em colaboração e influência). Isso implica:

  • Liderança empática: demonstrar que a vulnerabilidade, a escuta ativa e a colaboração são ativos poderosos, não fraquezas. Líderes empáticas inspiram lealdade e inovação.
  • Ambientes de segurança psicológica: criar espaços nos quais o erro é visto como uma oportunidade de aprendizado, e não como algo a ser punido com humilhação. Isso quebra a cadeia de toxicidade e fomenta a criatividade e a confiança.

4. Educação e letramento de gênero: iluminando as estruturas

Muitas vezes, a toxicidade feminina é uma manifestação inconsciente de um sistema maior. O estudo da história das mulheres, das estruturas de poder e de obras que desvendam a criação do patriarcado (como as de Gerda Lerner) pode fornecer a lente necessária.

Ao entender que a “toxicidade” é, na verdade, uma forma de servidão a um sistema que nunca as verá como iguais, as mulheres podem se libertar e buscar uma verdadeira emancipação.

O futuro do poder é colaborativo

A toxicidade feminina não é um destino, mas um sintoma de um sistema que precisa ser transformado. Ao invés de perpetuar ciclos de opressão, temos a oportunidade de construir um modelo de poder que não precise esmagar ninguém para se sustentar.

A verdadeira revolução não é apenas ter mulheres em posições de poder, mas ter mulheres que transformem a própria natureza do poder, tornando-o mais inclusivo, empático e solidário. É um convite para que cada mulher reflita sobre seu papel e contribua para um futuro no qual o poder seja uma força para o bem comum.


Cathy Birle

Cathy Birle é Head de Conteúdo e Eventos do Misses at Work, Fundadora do Be Hunter (The Brand Experience Hunter), além de Business Development da Fast Company Brasil.

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